Lilian Rejane Nery Dias nasceu no dia 13 de março de 1975 na cidade de Manaus, AM. Ela tem mais oito irmãos vivos e um que nasceu morto e, veio de uma familia pobre que não tinha recursos para adquirir brinquedos ou outras coisas do gênero. Brinquedos que teve vieram dos outros quer seja do Estado ou de alguém que doava. De sua infância, ela lembra pouco de diversões e muito da violência de que foi vitima juntamente com sua mãe e irmãos. Para ela e os irmãos, como também para mãe, estava reservada muita violência e agressões físicas vindas por parte do pai que não escolhia hora e nem local para bater nos filhos e na esposa muito menos dava algum motivo para surrar a todos. Lazer, a familia quase não tinha pois, era confinada em casa. Uma das únicas diversões que Lilian e os irmãos teve era uma mangueira que servia de local para brincar e ver o céu.
No entanto, mesmo diante de muita violência doméstica, Lilian lembra que sempre brincava de ser professora dando aula de matemática e portugues para as outras crianças que eram da vizinhança. Ela lembra que tinha uma massa que davam no posto de saúde e que servia de “merenda” para a brincadeira de escolinha da criançada. Na escola, Lilian era ativa nas aulas, participando das aulas e seus professores valorizavam bastante essa característica coisa que, lhe ajudou a se tornar a pessoa que é profissionalmente.
Na adolescência, os sonhos também ficaram restritos. Lilian gostava de ir pra igreja e, mesmo escondida, fez a primeira comunhão. Para fazer a roupa do dia, ela comprou o pano escondida da familia e a vizinha que era costureira, fez sem lhe cobrar o trabalho. Lilian foi acolhida na igreja, sendo abraçada pelas pessoas daquela comunidade: para ela, foi a religião que lhe deu forças para ver o futuro e lutar para que tivesse uma vida melhor.
Aos 16 anos, Lilian saiu de casa por não ter mais alternativas de vida no local. Ela estava no segundo ano do segundo grau, foi morar com a avó, mas, não ficou. Nessa época ela estava estudando em uma escola de excelência no Amazonas que é a Escola Solange Lucena e, mesmo não morando mais na casa da familia, ela não saiu da escola. Lilian morou pouco tempo com a avó porque não deu certo devido a interferência do pai dela e, assim, ela passou a morar em casa de amigas de favor e até chegou a sofrer assedio e propostas por conta de sua situação.
Mesmo não tendo uma vida fácil, Lilian nunca deixou os estudos de lado e se formou como técnica de contabilidade em 1995. Aliado aos estudos, ela também trabalhava estagiando em uma empresa alimentícia na area financeira; estagiou na Rede Amazônica e aproveitou todas as oportunidades que essa empresa lhe ofereceu. Logo após ela foi trabalhar em uma multinacional que lhe contratou após o período de estágio.
Ao começar a graduação em Análise de Sistemas na UFAM, Lilian visava ter uma profissão que lhe garantisse um emprego com alto salário já que a cidade de Manaus é uma cidade com grandes empresas, inclusive multinacionais, que tem necessidade de profissionais no ramo. Porem, com o passar do tempo, ela percebeu que analista de sistemas não era o que ela queria na verdade pois, teria que trabalhar atrás de uma máquina o tempo todo. Durante a faculdade, ela fez um seletivo para o Centro Tecnológico do Amazonas e foi aprovada. Assim, ela passou a dar aulas de informática e viu que era isso mesmo que ela queria fazer: ser professora.
As mulheres têm ocupado vários postos nos quais predominavam os homens. Lilian entrou para a área de sistemas da informação sendo uma das poucas mulheres de sua turma. Ao começar na função de professora da área de informática, ela diz que inicialmente os alunos olharam com um pouco de desconfiança para o fato dela estar ensinando coisas relacionadas a uma profissão que era predominantemente masculina, mas, ao fazer o seu trabalho, recebe o reconhecimento dos alunos como uma profissional competente.
Ser professora, para Lilian, é uma função que ela desempenha com prazer pois, faz aquilo que gosta. Por ter trabalhado no sistema privado na área operacional ela tem experiencia nas relações profissionais que envolvem competição e foco. Ela observa que não teve problemas por ser mulher em relação a disputa por cargos ou desempenho, porém, sabe que outras colegas passam por isso o que ainda é algo que tem que mudar.
No passado, Lilian estava a procura de emprego e, foi chamada para dar uma entrevista. Ao chegar no local, uma conhecida que trabalhava ali e que sabia que ela tinha uma filha ainda pequena, a aconselhou a dizer, caso fosse lhe perguntado, que não tinha filhos. Ela não entendeu o conselho e perguntou o motivo daquilo. Logo, a mulher perguntou se ela queria o emprego ou não. Ela disse que sim. Então, a mulher rebateu dizendo que ela deveria dizer que não tinha filhos. Contratada pela empresa, durante o tempo que permaneceu ali ninguém soube que ela era mãe, até porque a sua mãe e irmãos lhe ajudavam muito cuidando da sua filha. Porém, ela percebeu que mulheres, mesmo que tenham um currículo excelente, são vistas com desconfiança por ter filhos ou por poderem gera-los. Há um medo que as mulheres não produzam o suficiente por terem que faltar, por conta da maternidade.
Para Lilian é complicado a conciliação de sua vida pessoal com a vida profissional porque tendo sua filha, trabalhava o dia todo e, quando a filha estava com 12 anos, voltou a estudar. Como tem o costume de se dedicar muito no estudo, de alguma forma, o trabalho e o estudo lhe tomam muito tempo. Porém, ela sempre conversou muito com a filha explicando que precisava trabalhar para que a menina entendesse suas ausências. Atualmente ela é professora da UFRR no curso de Administração e trabalha com tutoria a distância da UFAM.
A filha de Lilian está hoje com 21 anos, trabalha e faz faculdade em Manaus. Apesar da correria que é a vida de Lilian, ela tenta dar atenção a filha mesmo que esteja distante (atualmente ela mora em Roraima). Por conta de tanta correria na vida, Lilian tem dificuldades para dormir uma vez que por muito tempo ela teve que trabalhar de dia, estudar a noite e quando chegava em casa, tinha que estudar para o outro dia na faculdade.
Apesar de ter que se preocupar com tantas coisas, ela acredita que sem luta não se conseguirá nada e, como está acostumada a isso desde muito jovem, suas conquistas são frutos de seu trabalho árduo assim como a excelência que procura alcançar no desempenho de seu trabalho. A mãe de Lilian sempre lhe apoiou na criação da filha como também na luta por uma vida melhor. Dessa forma, além de Lilian, ela tem mais duas mulheres que lhe preenchem a história: sua filha e sua mãe.
Escrito por Daviwarlen Ferreira e Jefferson Lima
Orientadora: Rutemara Florêncio