Lenir Rodrigues Santos nasceu em 23 de abril de 1963 em Boa Vista, Roraima. O local onde a família de Lenir morava se chamava Colonia Fernando Costa e foi numa vicinal dessa colonia que ela passou a infância – hoje a região é a cidade de Mucajaí. Apesar de a família ser pobre, Lenir se divertiu muito enquanto criança pois, espaço é que não faltava para brincadeiras como manja pega, esconde-esconde, roda, entre outras que marcaram a infância de menina. Naquela época, não havia sinal de TV no território federal de Roraima (Roraima só se tornou um Estado da federação brasileira a partir da constituição de 1988) e as crianças brincavam muito entre si como também ao ar livre. A televisão só chegou em Roraima em 1974 e, dessa forma, Lenir passou a infância e parte da adolescência sem a distração de programas de TV.
A menina Lenir sempre foi ativa tendo participado de várias atividades de grupos tais como o grupo Bandeirantes onde aprendeu valores éticos para vida, disciplina e respeito ao outro. As Bandeirantes é um grupo que foi fundado na Inglaterra no inicio do seculo XX por Robert Baden-Powell, e inicialmente era dedicado apenas as meninas como meio de formação. Lenir também participou da Pastoral da Juventude onde aprendeu e desenvolveu habilidades como a liderança.
Lenir Rodrigues começou a trabalhar com 13 anos como vendedora de um tipo de plano de saúde. No dia 01 de fevereiro de 1978 ela começou a lecionar como alfabetizadora em uma escola chamada “O Pescador” através do Programa do Governo Federal chamado de “MOBRAL". Como alfabetizadora do MOBRAL, Lenir ficou por 02 anos passando a ser coordenadora em 1980 do Autodidatismo, programa esse também ligado ao MOBRAL mas, que, dava aos alfabetizados a oportunidade de acesso a leitura. Passada a experiencia do MOBRAL, Lenir passou a ser alfabetizadora em uma escola regular de educação básica. Ela destaca que a experiencia dela como professora passou por todas as fases da escolarização básica chegando até a universidade.
A mãe de Lenir chegou ao território federal de Roraima (vinda do Maranhão) com 16 anos ainda sem saber ler e escrever. Porém, aqui, ela estudou e se formou Pedagoga. Ao estudar, a mãe se tornou professora chegando a se aposentar como professora federal. O pai de Lenir, só sabia escrever o próprio nome, era agricultor mas, tanto ele quanto a esposa, desejavam que as filhas estudassem e se formassem. Lenir relembra que, como a mãe era professora e não tinha com quem deixar a filha, a levava para sala de aula junto com ela. Nesse caminho orientada pela mãe (que gostava muito de ler) Lenir foi adquirindo o hábito de leitura e de gostar de estudar, coisa que a acompanha até hoje pois ela diz que é viciada em estudos.
Ao estar nas salas de aula junto com a mãe, Lenir foi construindo o sonho e a vontade de ser professora. Ela dizia pra mãe que queria ser professora e advogada e a mãe lhe dizia que ela teria que escolher entre uma profissão e a outra. A mãe de Lenir sempre lhe foi o modelo de mulher profissional que lhe inspirou, pois sendo uma professora alfabetizadora, conseguia ensinar até mesmo crianças surdas numa época que não se conheciam técnicas especificas para atender esse público. Lenir foi tão boa aluna da mãe que alfabetizou até mesmo seus próprios filhos.
Lenir Rodrigues possui Graduação em Direito, graduação em Letras, Graduação em Pedagogia, é especialista em Direito da Criança e do Adolescente, Direito Civil, Processo Civil e Política Pública de Trabalho e Renda. Mestra em Antropologia e Doutora em Direito Internacional. Por duas vezes, Lenir foi secretária de estado da Educação e é Defensora Pública do Estado de Roraima porém, atualmente, ela desempenha a função de Deputada Estadual.
A primeira vez que foi convidada a assumir a Secretária Estadual de Educação o que foi levado em conta no convite foi sua postura de eximia trabalhadora no campo da educação e do Direito assim como o fato de já ter sido diretora de escola e ter feito bons trabalhos. Lenir foi diretora da tradicional Escola São José, em Boa Vista e, em sua gestão, a escola chegou a ganhar prêmios nacionais por conta da conduta e organização que ela impôs na instituição. Sempre considerada uma gestora rígida e focada em uma administração transparente, Lenir se tornou Secretária da Educação pela segunda vez na primeira gestão do governo de José de Anchieta Junior, que havia se tornado governador por conta da morte de Ottomar de Souza Pinto.
Como secretária da Educação (da primeira vez) ela observa que pode contribuir para aumentar as oportunidades às crianças que não tinham acesso à escola: em sua gestão, foi registrado o maior número de escolas da história de Roraima. Por ter feito um bom trabalho a frente da Secretaria da Educação, ela foi chamada a segunda vez para ocupar o cargo e, dessa vez, registrou escolas indígenas, das quais 21 escolas na área yanomami (que não possuía escolas legalizadas); ela também inseriu escolas em vicinais, colocou transporte escolar, trocou as carteiras e cadeiras de madeira pelo conjunto ortopédico e fez a transição do quadro de giz para o quadro branco, registrou escolas de Ensino Médio em lugares que as pessoas achavam que era impossível ter. Lenir desenvolveu várias outras ações que eram reivindicadas a tempos pelos professores, como as progressões de carreira, por exemplo. Em Normandia, na gestão de Lenir, foi aberta uma escola a Escola Estadual Santa Rita” com 05 alunos e hoje, uma dessas crianças é professora da escola (prof. Leonora). Lenir lembra que, em determinada ocasião, ela como secretária de educação, mandou comprar cadernos grandes de capa dura para serem entregues a todas as crianças e adolescentes que pertenciam a rede estadual de educação. Porém, os técnicos da secretária de educação ficaram contrários a que esses cadernos fossem entregues a crianças do Ensino fundamental. No entanto, ela não abriu mão da sua determinação por considerar que, principalmente no interior, as crianças terem o sonho de possuir um caderno de capa dura e com folhas coloridas. Seu questionamento foi de: por que a criança pequena tem que ter caderno pequeno? Ela considera que essa atitude foi uma quebra de paradigma pois, as vezes, não se tem justificativa para ações que estão a tempos sendo exercidas pelas secretarias de educação mas, que, permanecem por conta de uma tradição sem sentido. Ela é adepta de questionar práticas e pensar diferente para melhorar as instituições sem que, pra isso, tenha que se meter em corrupção.
Lenir considera que houveram mudanças positivas na educação de Roraima mas, para que isso ocorresse, teve que conhecer a realidade do estado. Para ela, existe uma grande diferença na ação quando se tem conhecimento dos locais e das realidades que cercam as escolas e os sujeitos que compõem o Sistema escolar. Ela sempre gostou de fiscalizar, visitar os locais e escolas da rede a fim de ouvir os sujeitos sobre as questões educacionais. Segundo ela, se tivesse ficado apenas trancada em gabinete, jamais poderia saber o que se passava no estado e nas escolas estaduais. Dessa forma, ao sair da secretaria de Educação, ela saiu com a sensação de dever cumprido.
Nos ambientes de trabalho que já frequentou, Lenir diz que, na área da Educação, não sofreu preconceitos ou discriminações por ser mulher. Ela considera que isso se deve ao fato de que, historicamente, esse ambiente ser bastante feminino e organizado majoritariamente por mulheres. No entanto, na área do Direito e tendo que, como parte do seu trabalho, entrar na penitenciária, ouviu frases como “essa mulher tem coragem… essa mulher é quase homem”. Ela observa que esse tipo de expressão é machista e preconceituosa pois, questiona a capacidade da mulher em tratar com a área criminal. Será que as mulheres não podem ter atitudes assim? Segundo ela, qualquer pessoa pode realizar atividades de qualquer profissão independente de ser homem ou mulher.
Lenir Rodrigues relata que já sofreu assédio. Segundo ela, é muito difícil para as mulheres, falarem sobre essa questão e se expor, porém, quase todas as mulheres sofrem ou já sofreram algum tipo de assédio durante a vida seja de caráter moral, sexual ou institucional. Ela também diz que é muito difícil caracterizar esse crime porque a sociedade é preconceituosa, no geral e questiona a vitima sobre a denúncia. Geralmente dizem que a mulher quer aparecer ou que está fazendo tempestade em copo de água, o que desmerece tanto a denúncia quanto quem denunciou. Lenir também relata que é difícil se posicionar diante da situação de assédio porque o coro social quer somente punir, não dando chances para que a transgressão em si como também o transgressor possam ser inseridos num processo educativo que reabilite o autor e possa servir de lição para que outros não cometam o ilícito.
Atualmente, Lenir é deputada estadual. Sob sua responsabilidade, está o “CHAME” que é o Centro Humanitário de Apoio à Mulher o qual conta com uma estrutura que ajuda gratuitamente as mulheres vitimas de violência (seja a domestica ou de outros tipos) ofertando acompanhamento jurídico, psicológico e social assim como atuando na prevenção, assistência e na garantia dos direitos humanos e não só as mulheres, mas a todos os que estejam em uma situação vulnerável no estado de Roraima.
Como deputada, ela acha que a quantidade de mulher na política ainda é pouca e que os avanços são lentos. Ela concorda com o sistema de cotas pois acha que sem o sistema de cotas não há como conseguir vencer as barreiras institucionais dos partidos. Por acreditar na força das mulheres, ela diz que desse segmento podem sair exemplos de ética, de compromisso e responsabilidade com o dinheiro público. As mulheres em cargos políticos no legislativo podem contribuir para um ambiente mais transparente e correto tendo mais atitudes de alteridade e respeito pela sociedade.
Embora mãe de três filhos (o primeiro é Delegado de Policia, a segunda é Advogada e servidora pública federal e o terceiro filho é médico), Lenir nunca se sentiu uma mulher do lar e deixava tranquilamente os filhos com o pai para que pudesse exercer suas atividades profissionais e sociais. Apesar de sempre ter estado cheia de coisas pra fazer, ela não se eximiu da responsabilidade de educar os filhos e sempre teve pulso firme com eles. Lenir sempre soube que não seria uma dona de casa, pois sempre gostou de estudar, trabalhar, conhecer pessoas e fazer trabalhos sociais. Já foi casada três vezes e hoje está solteira. Segundo ela, isso não significa que não saiba amar quem está em sua vida porém, em primeiro lugar ela se ama e com isso, aparecem questões que somente ela pode sentir e definir nas relações.
Em sua vida, ela teve pessoas que contribuíram muito para a formação de ser caráter e sua formação profissional. Lenir que sempre teve apreço pela luta das mulheres se espelhou muito em sua mãe como referência pois a considera uma mulher muito forte e a frente de seu tempo. Buscou referência em sua irmã que é jornalista no Estado de Roraima (Shirley Rodrigues), pois a considera um exemplo de superação como também sua avó Raimunda. Duas pessoas muito importante na sua vida foram duas professoras:“Ednelza Farias Rodrigues” - essencial na construção da líder que Lenir se tornou e “Maria Luíza Campos”. Malu (Maria Luíza) foi professora de História de Lenir como também fez carreira politica como deputada estadual. Ela lembra que a professora Malu cantava em sala de aula (como metodologia de ensino) e Lenir se inspirou tanto nela que também fazia o mesmo quando professora. Lenir diz que as mulheres sempre marcaram muito sua vida, sempre com exemplos e amizades para toda vida. Ela deseja que a mulher roraimense seja sempre corajosa e que tenha a capacidade de mudar a política no estado e, se quiser participar da política que estude muito e abrace o propósito com garra e determinação.
Escrita por: Carolina dos Santos Marinho e Guilherme Santos Alexandre
Orientadora: Rutemara Florêncio