Leila Soares Sousa Perussolo nasceu na cidade satélite do Gama, Brasília, Distrito Federal) em 12 de maio de 1967 e atualmente tem 51 anos. Seu pai, Armando Martins de Souza, era motorista de táxi e a mãe, Virginia Soares de Souza, era dona de casa. Para Leila, sua infância teve “cheiro de chocolate”, ou seja, foi muito feliz. Numa época da vida onde não se liga muito pra ter ou não dinheiro, o ser criança e brincar traz boas recordações. Ela gostava muito de jogar futebol, soltar pipa e até fazia cerol para passar no fio da pipa. Tais coisas, naquela época era brincadeira de meninos, mas, ela, ia brincar assim mesmo porque não se identificava com as brincadeiras típicas de meninas. Por conta dessa personalidade ativa, ficou de castigo e, quando sua mãe saia de casa para algum lugar, Leila ia pra rua brincar com a meninada. Ao voltar, a mãe dava uma bronca na menina, mas, isso não adiantava muito porque em outro dia ela fazia o mesmo.
Leila fez todos os seus estudos em escolas públicas, que ficavam próximas de sua casa. As boas lembranças do período escolar da hoje professora Leila, estão ligadas a atenção que seus professores lhe davam, a seriedade com que exerciam sua profissão e as atividades lúdicas que ela sempre realizava assim como as festas escolares e os amigos daquela época feliz. Sua mãe sempre esteve presente na escola acompanhando sua vida escolar assim como a de seus cinco irmãos e era muito exigente em relação aos estudos dos filhos. Nas reuniões de pais, a presença da mãe de Leila era constante e a mesma apoiava as iniciativas da escola nos projetos e atividades que envolvessem seus filhos. Para Leila, a presença da mãe em todas as ações escolares foi um exemplo do quanto a parceria escola e família é importante para a criança e seu desenvolvimento intelectual na questão das aprendizagens como também na valorização do significado da escola para vida dela.
Na escola onde Leila estudou, em meados dos anos 1970 e início dos 80, haviam muitos projetos paralelos a educação tradicional por disciplinas: tinha projeto de aprender a jogar voleibol, jogos de tabuleiro como dama e xadrez, artesanato como crochê e tricô além de outros projetos sociais. Leila gostava muito de estar na escola e, como a localização era bem próxima da sua casa, participava de quase todos os projetos que a escola oferecia.
Mas, como nem tudo é perfeito, uma das lembranças que Leila tem como negativa relacionada a escola se refere a posição das carteiras na sala de aula. Carteira e cadeira deveriam estar sempre uma atrás da outra: nunca podiam ser tiradas dessa posição. Naquele tempo, o espaço quadrado da sala de aula só servia as atividades individuais e os alunos não tinham a vivência dos trabalhos em grupos e atividades onde haviam maior socialização ou interação entre os colegas de sala. Momentos de trabalhos em grupo era nas atividades da educação física ou as atividades de cozinha como fazer massa de pão, trabalhar com horta – nos anos 1970 e 1980, as escolas públicas ofereciam disciplinas como Técnicas Agrícolas, por exemplo. Na escola onde Leila estudava, haviam hortas que eram cuidadas pelos alunos e tinha um professor que ensinava a plantar, cuidar da terra e colher. Ela diz que, os alunos daquela época não podiam se levantar e sair da sala sem pedir a permissão dos professores; para se levantar ou participar da aula tinham que levantar a mão como sinal de educação a autoridade daquele professor que estivesse na sala de aula.
A entrada de Leila na carreira do magistério ocorreu ao término do ensino primário, em 1982. Morando em Brasilia ainda nesse período, ela desejava ingressar na área da saúde, em um curso técnico de Enfermagem. Nessa época, a irmã mais velha de Leila fazia o curso técnico de Magistério e ela não queria fazer o mesmo curso que sua irmã. Porém, como o curso técnico de enfermagem era muito longe da casa onde morava (precisaria pegar dois ônibus para ir para essa outra escola) e a família não tinha condições de pagar o transporte e outros gastos referentes a esse curso mesmo ele sendo de escola pública, Leila desistiu da ideia de ser da área da saúde e acabou optando pelo Magistério.
Em 1982, Leila começou as aulas no Magistério (curso esse inserido dentro do segundo grau, na época) ainda em Brasília. Nesse ambiente, ela considera que teve excelentes professores. Como a proposta da época para esse curso, em Brasília, era que os alunos já tivessem disciplinas relacionadas a didática e metodologia, isso encantou a jovem Leila que passou a gostar demais de estudar para essa profissão. Ela lembra com carinho de vários professores que teve no percurso, mas, duas professoras são sua referência até hoje: Andreia que ensinava Metodologia das Ciências e Ana Maria Mesquita, professora de Didática. Ana Maria, inclusive mora em Boa Vista atualmente da mesma forma que Leila. A jovem Leila teve influências diretas dos seus professores da época do segundo grau Magistério para além das disciplinas pedagógicas pois, segundo ela, os professores da área de exatas e ciências naturais se preocupavam em trazer para realidade, para a linguagem adequada a idade dos alunos, as teorias e conceitos que ensinavam nas aulas. Dessa forma, a preparação de Leila como professora foi se fundamentando também nos professores que ela teve ao longo da vida escolar os quais lhe serviram como exemplo.
Leila, não terminou o curso de Magistério em Brasilia. Ao terminar o ano letivo de 1982, a família se mudou para Roraima e ela foi matriculada no segundo ano da escola de formação de Magistério em Boa Vista. Terminado o curso do Magistério, Leila fez vestibular e ingressou no curso de História da UFRR, que recém havia sido fundado em Roraima. Posteriormente fez Mestrado e Doutorado em Educação e, desde a chegada dela no estado, atua como professora de diversos cursos voltados à formação de professores em diversas instituições.
Leila considera que não enfrentou muitas dificuldades ou preconceitos em relação a profissão de professora. Em sua análise, a área da educação desde os anos 1950 até a década de 1990 era dominado pelas mulheres (o que hoje não mais ocorre) o que as favoreceu nessa profissão. Era difícil encontrar um homem matriculado em curso de magistério naqueles tempos onde ela era estudante ainda e, foi só em Boa Vista, que ela encontrou um matriculado quando a mesma foi fazer o segundo ano do curso. Ela observa que a partir dos anos 1990 começou a aparecer uma mudança positiva que é a não divisão das áreas do conhecimento pelo sexo do indivíduo e a inserção de mais homens professores trabalhando com crianças pequenas. Leila ouviu muitas vezes que a área das ciências exatas (matemática, física, química) era mais adequada aos homens e a área das ciências humanas (história, geografia, sociologia) mais adequada as mulheres assim como havia um certo preconceito para com professores homens inseridos no ensino fundamental dos anos iniciais (atualmente superado).
A atuação de Leila na área do magistério começou em Roraima como estagiária do segundo ano do curso no ano de 1983, na escola particular Macunaíma. Ela começou a estagiar no berçário, depois se tornou a professora titular e estagiou em todos os segmentos: a educação infantil até o ensino médio nessa mesma instituição.
A professora Leila sempre foi muito ativa, trabalhando desde muito cedo. Por causa disso, considera que há sim uma dificuldade em conciliar vida pessoal com a de profissional, sendo essa última uma prioridade para ela. Atualmente Leila está solteira, mas, aos 22 anos ela contraiu matrimonio e teve um filho, que atualmente faz o curso de Medicina. Enquanto ela esteve casada, obteve muito apoio e ajuda do então marido (de quem é amiga até hoje mesmo que estejam divorciados). O casamento não a impediu de estudar sempre e, o marido, na época lhe dava muita força para que buscasse seus objetivos, seus sonhos de mestrado e doutorado. Ela conta que só teve um filho por razões de priorizar a profissão porque tendo mais filhos ficaria muito difícil. Mesmo tendo apenas um filho (hoje com 24 anos) ela considera que perdeu momentos em familia e esse é um tempo que não se recupera mais, porém, ela não acha bom ficar se culpando pelo passado pois, sabe que fez o que tinha que fazer e que todas as escolhas geram perdas e ganhos.
Leila contou com o apoio da família nas horas mais difíceis, nos problemas que teve que enfrentar por conta de sua profissão, de sua necessidade em ter que estudar fora de Roraima com seu filho ainda pequeno. A mãe, os irmãos, o ex-marido e seu filho: todos estiveram e estão ao seu lado a apoiando nos desafios que são típicos da vida e da profissão como atualmente se apresenta no cargo de Secretária da Educação em Roraima. Assim, a professora Leila considera que sem essa rede de apoio, não conseguiria chegar onde chegou e por isso, ela é grata.
Como profissional da Educação atuando a vários anos, Leila observa que há uma necessidade de efetivar ou mesmo implantar políticas educacionais ou mesmo implantar em Roraima as que já são sucesso em outros estados. Segundo ela, é necessário refletir sobre a forma como os professores são formados, como são as relações entre os professores e seus locais de trabalho, a questão do ensino e a inserção das novas tecnologias em sala de aula, entre outras questões que são importantes no contexto histórico atual. É importante analisar o quadro que rege a educação escolar no Brasil e em Roraima para que uma melhor qualidade educacional seja alcançada. Em sua ótica, há de se reavaliar e reinventar o processo educacional a partir de vários eixos porque a criança de 30 anos atrás não é a criança de hoje, no século XXI.
A inspiração feminina para Leila ser a mulher que ela hoje é, veio, primeiramente de sua mãe, Virginia, que tem uma história de vida de muita luta, segundo a filha Leila. Virginia casou aos 15 anos em um tempo onde muitas mulheres casavam mesmo sem conhecer o futuro marido. Casada, ela teve seis filhos com pouca diferença de idade entre um e outro. Ainda muito jovem, a mãe de Leila tinha os filhos, marido e casa pra cuidar (o que não deixava de ser um trabalho muito árduo e cansativo) – a mesma, estudou somente até a 3ª série. Mesmo com pouquíssimo estudo, Dona Virginia nunca descuidou da educação escolar dos filhos e valorizava muito a escola. Também foi empreendedora e, com luta, aos poucos foi construindo sua independência financeira começando com a venda de roupas. Aos poucos, o negócio foi melhorando e ela colocou sua loja que cresceu bastante: ela mesma viajava pra comprar as roupas que vendia, fazia as contas, enfim, foi guerreira na vida e inspiração para suas filhas sempre. Outra pessoa que Leila diz ser inspiradora pra sua vida se chama Ana Maria Mesquita, sua professora no primeiro ano de magistério em Brasilia. Elas se encontraram em Roraima, com Ana sendo diretora de Leila e Leila sendo diretora de Ana, fizeram mestrado juntas, estiveram nas lutas por uma educação de melhor qualidade para Roraima e sempre com a amizade profunda e admiração mutua envolvendo suas vidas.
A visão de Leila sobre o papel social que as mulheres desempenham atualmente está relacionado as conquistas que, historicamente, foram construídas por elas. A conquista do espaço nas mais diferentes áreas de formação, a independência financeira e emocional são coisas que as mulheres foram conquistando pois, não eram comuns para o universo feminino. No entanto, ela acha que a luta da mulher para alcançar igualdade de direitos e deveres ainda continua e, está na mulher mudar a sociedade que ainda é bastante machista. Geralmente a mulher é a principal educadora dos filhos e, está nessa educação a saída para um mundo menos desigual e onde os homens participem igualmente das atividades domésticas e criação dos filhos. Para ela, os meninos e meninas não devem ser educados na divisão do que é de “menina” e do que é de “menino” pois ela mesma, quando criança, não se importava com essa divisão apesar da mãe se importar. Menino precisa aprender a lavar louça, limpar a casa e lavar suas roupas e não se criar pensando que isso é trabalho pra mulheres. Quando esse tipo de educação for a maioria, não teremos as mulheres tão exaustas por terem jornada dupla ou tripla como é o caso atualmente.
Como professora, Leila considera que o ambiente escolar também é lugar de estudo e de mudança relacionado aos papéis que homens e mulheres ocupam na sociedade: a discussão de que ambos podem realizar as coisas, ocupar espaços e conviver pacificamente tendo os mesmos direitos e deveres legais empoderará o respeito que sempre deve prevalecer nas relações entre uns e outros.
Escrito por Larissa Silva Santos e Vinicius Daniel de Oliveira em 12/2018
Orientadora: Rutemara Florêncio