Iracema do Valle Oliveira, nascida em 04 de abril de 1955 em Boa Vista, estado de Roraima, é atualmente empresária do ramo de confecções e tem também a formação de professora. Filha de José Bezerra do Valle e Maria Bezerra do Valle, Iracema teve uma infância feliz e brincou bastante. Em sua época de infância e adolescência, Boa Vista não era a cidade que é atualmente: as ruas não tinham asfalto, os prédios eram diferentes e as crianças não assistiam televisão porque ainda não havia chegado o sinal transmissor na região. Para brincar, utilizavam as ruas e quintais das casas, subiam em arvores e tudo era ao ar livre.
Quando chegou o tempo de ir pra escola, Iracema foi estudar na escola Monteiro Lobato, que ainda hoje está ativa. Fez o primário, fez o segundo grau (que hoje é o Ensino Médio) voltado ao Magistério. Iracema conta que na década de 1960, 1970, não haviam muitas escolas em Roraima, mas, as que existiam eram públicas e ofereciam uma educação de excelente qualidade. A jovem Iracema gostava muito de Roraima, sua terra e lembra que era um local muito bom para viver. Ela cita que duas escolas: Colégio São Jose e o Colégio São Vicente de Paula, onde só estudavam meninas. No grupo escolar Murilo Braga e no Lobo D’Almada, estudavam meninos e meninas. Escolas de Ginásio, eram o Monteiro Lobato e Euclides da Cunha, sendo que a escola Monteiro Lobato foi, por algum tempo, Instituto de Educação de Roraima – onde ela chegou a fazer o Magistério.
Sem muito acesso à informação, a adolescente Iracema se dedicava muito a estudar e frequentava aulas particulares de matemática para poder aprofundar os estudos realizados na escola além de frequentar bastante a biblioteca da cidade. A familia de Iracema dava alto valor a educação escolar e incentivava os filhos a estudar cada vez mais. Iracema conta que, para famílias que tinham certo poder aquisitivo, havia a opção de enviar os filhos para estudar fora de Roraima em faculdades de grandes cidades brasileiras, porém, quem não podia fazer isso, ficava no estado e tinha que abraçar as opções de cursos que existiam no lugar. Para as meninas, adolescentes e jovens que queriam ter uma profissão, as opções eram limitadas: ou seriam professoras ou enfermeiras pois, não existiam outros cursos disponíveis.
Iracema, jovem e com objetivos de ser uma profissional, tinha como sonho ser professora (que também era o sonho de seu pai) e foi o que ela conseguiu já no início da década de 1970. Com apenas 16 anos, começou alfabetizar adultos de 40 a 50 anos pois, participava do projeto do governo federal chamado de MOBRAL. “Adorava ensinar, dava gosto de ver adultos lendo e saber que era eu quem estava ensinando... ser chamada de professora, ter o carinho dos alunos era uma honra, e era também o sonho do meu pai ter filha professora.”
Iracema participou do projeto MINERVA, que era a alfabetização de adultos de 1ª a 4ª série como também do projeto JOÃO DA SILVA (uma telenovela educativa) que traziam educação através da radiodifusão pois, a televisão ainda não havia chego ao estado. Esses projetos alcançaram todos os interiores de Roraima e muitas pessoas aprenderam através do rádio, segundo relata Iracema.
Aos 19 anos, Iracema se casou e parou de trabalhar fora de casa ficando apenas nos trabalhos de dona de casa e mãe de três filhos. Ela passou anos se dedicando somente a família, porém, voltou ao mercado de trabalho quando seu filho mais velho tinha 12 anos. Ao voltar a trabalhar fora de casa, Iracema não voltou a ser professora porque considera que ficou muito tempo sem estudar: para ela era dificil ter os filhos pequenos e a casa para cuidar e ainda estudar já que o acesso aos estudos também era muito difícil na época.
Iracema, aos 31 anos, passou a trabalhar na Telaima (Empresa de Telecomunicações ligada a Embratel e muito importante nos anos 1980 e 1990) como funcionaria do serviço “Disk Amizade do Brasil” e no período da noite. Nessa empresa ela se tornou gerente com pouco tempo de trabalho e numa época onde a telefonia estava em expansão no Brasil. A chefia observou que Iracema era muito eficaz no seu trabalho de monitoria e ela foi promovida. Iracema conta: “Eu trabalhava numa mesinha cheia de aparelhos, ficava monitorando as conversas de quem ligava”, naquela época era o que tinha de entretenimento porque não havia internet, tinha só um cinema na cidade e naquele ambiente “virtual” rolavam conversas de todos os tipos e até houveram casamentos de pessoas que se conheceram através do Disk Amizade. O trabalho de Iracema era fazer a mediação dessas conversas, cortando quem se alterava e falava o que não devia, enfim, fazia a fiscalização. Quanto mais pessoas ligavam, mais a empresa lucrava e os funcionários tinham o emprego garantido. O salário de Iracema era um salário minimo mais gratificação conforme o número de ligações que as pessoas faziam para o Disk Amizade.
Iracema conta que não sofreu nenhum tipo de preconceito ou dificuldades no seu trabalho apesar de ser mulher e em tão pouco tempo ter se tornado gerente. Ela conta que a maioria dos funcionários eram mulheres, talvez porque tivessem alguma característica mais aguçada ao lidar com aquele mundo de gente conversando uns com os outros. Na função de gerente, Iracema admitiu homens apesar de haver um certo receio, naquele serviço, de que os homens poderiam querer participar das conversas com as moças que ligavam e tudo mais. No entanto, ela nunca pensou que teria problemas admitindo rapazes e o fez sem problemas.
Iracema nunca estudou em area ligada a comunicação e, segundo diz, aprendeu tudo muito rápido conseguindo alcançar as metas e objetivos da empresa. Além disso, considera que a sala de aula que ela frequentou como aluna e professora, ajudou muito a trabalhar com pessoas e a se expressar nas rádios onde deu muitas entrevistas. Iracema participou de muitos programas de rádio em Boa Vista por conta de seu trabalho no Disk Amizade porque o povo, curioso, queria saber como era ouvir a conversa dos outros na monitoria. Iracema não se identificava com seu verdadeiro nome nem no trabalho e nem nas rádios onde ia como convidada por uma questão de ética e de segurança. Ela conta que o Disk Amizade era muito famoso e volta e meia virava tema de festas na Boate Fofocas (muito famosa nos anos 1980 e 1990 em Boa Vista).
Iracema gostava muito de trabalhar na empresa de comunicação, porém, o dinheiro passou a encurtar e ela, já divorciada e com filhos adolescentes, precisava encontrar outra fonte de renda. Diante das necessidades, Iracema pensou e decidiu empreender. O empreendimento de Iracema – de fundo de quintal – como ela chama, foi como costureira. Ela lembra que não sabia costurar, mas, ao fazer um curso de corte e costura oferecido pela Diocese da Igreja Católica gostou muito e, viu naquele aprendizado um meio de mudar de vida. No início, ela tinha uma pequena máquina de costura e transformou a sala e cozinha de sua casa em um lugar de trabalho. Ela aprendeu a costurar aos poucos pois, não sabia muito sobre essa arte, mas, com persistência foi aprimorando seus conhecimentos, estudando e praticando cada vez mais e melhor. Já sabendo costurar, em uma certa ocasião recebeu uma grande encomenda de cortinas, cama, mesa e banho e depois, de fardamentos militar com o prazo de entrega curto e observou que teria que contratar alguém para ajudar. O cliente em questão, lhe forneceu os tecidos e lhe adiantou metade do valor a ser pago pelos produtos. Dessa forma, Iracema foi percebendo que poderia crescer em seu negócio comercial pois, com certeza, dali em diante iria receber muitas outras grandes encomendas. Assim, ela foi e registrou uma empresa para que pudesse tirar nota de serviços. Sua empresa foi registrada como “IDOVALLE.LTDA” e existe a 32 anos.
Já visualizando o futuro, Iracema usou parte do dinheiro das encomendas para comprar mais máquinas de costura como também foi contratando funcionários. Dessa pequena empresa que começou na cozinha de sua casa cresceu e hoje é conhecida pelo nome fantasia de confecção “DONDOCAS” trabalhando exclusivamente com fardamentos para militares em geral, especialmente para a Policia Militar de Roraima.
Para se organizar melhor, Iracema e outros empresários do ramo de confecções, se juntaram e fundaram um sindicato. Na época, eram poucas pessoas e cada empresário tinha uma função dentro do sindicato. Depois de registrado o Sindicato das confecções, esses, se uniram a outros grupos de profissionais de outros ramos dando origem a Federação das Industrias do Estado de Roraima. Ela diz que só existe a federação porque existem os sindicatos.
Iracema é uma pioneira na organização e composição do Conselho Deliberativo das Industrias de Roraima sendo uma das fundadoras e sua empresa está ligada ao SESI, ao IEL e é conselheira titular na federação das industrias de Roraima.
Atualmente Iracema é casada pela segunda vez já a muitos anos, seus filhos já são casados, são formados em diversos cursos superiores e a filha mais nova, Ellen é advogada e administradora além de ser seu braço direito na empresa. Apesar de ter o apoio incondicional da filha, Iracema continua atuando diretamente na sua empresa. Ela faz questão de ressaltar que sua empresa trata os funcionários de forma respeitosa, proporcionando plano de saúde, salário adequado, condições adequadas de trabalho e carteira assinada com todos os benefícios previstos em lei.
Iracema acredita que a mulher deve ser valente e não desistir no primeiro “não”. Em todos os campos tem dificuldades, mas a pessoa não deve achar que é incapaz de fazer e, por acreditar nisso, ela chegou até hoje com sua empresa e trabalhando dentro da lei.
Iracema diz que não foi fácil conciliar sua vida profissional com a de mãe e dona de casa, mas, ressalta que teve ajuda de pessoas que trabalhavam com ela e eram de muita confiança. Hoje, ela é uma mulher que dá opinião, conselhos e apoia iniciativas para melhorar a economia de Roraima porque só uma economia forte pode fazer com que a vida das pessoas melhore e se mantenha dignamente.
A história de Iracema, empresária pioneira de Roraima, mostra, por suas palavras que na vida, não se pode acomodar. Para ela, as mulheres e homens devem estudar muito, lutar pelos objetivos e pelas metas que querem para suas vidas: se a pessoa quer ser médico, professor ou outra profissão, que seja o melhor daquela área.
Escrito por Lara Beatriz, Heridaynne Lira e Sara Sued
Orientadora: Rutemara Florencio