No dia 25 de junho de 1966 em Santo André - SP, nasceu Elaine Cristina Bianchi, filha de Pascoal Bianchi e Benedita Galvão Bianchi. Seu histórico escolar mostra que ela completou o ensino fundamental no SESI, e ensino médio concluiu na escola Singular - Anglo, ambos na cidade onde nasceu. Fez faculdade de direito em São Bernardo do campo - SP, a pós-graduação fez na Estácio do RJ e o doutorado fez na Argentina.
Quando tinha 2 anos, Elaine e sua família foram morar em uma fazenda que fora recém loteada sendo que foram dos primeiros moradores do bairro. Esse bairro era na periferia, as casas não tinham cercas e as ruas eram de terra. Ao final da rua onde a família morava, começava a cidade de São Paulo (era a divisa entre as cidades) Elaine lembra que foi uma criança muito ativa, feliz, tendo muitos amigos na vizinhança e brincava diariamente com eles. O local onde morava lhe trazia satisfação, ela tem muita saudade do lugar e do que viveu por lá: as pessoas que lá viviam foram bons exemplos na sua vida.
Os pais de Elaine eram muitos focados na educação das duas filhas. A mãe, Benedita, sempre teve vontade de estudar, mas, naquele tempo, a grande maioria das mulheres eram criadas para serem apenas donas de casa e o destino da jovem não foi diferente. Porém, não era esse destino que a Dona Benedita queria para suas filhas, então, projetou a vida das meninas o que ela sempre quis para si: transformá-las em profissionais independentes.
Dona Benedita é a referência de mulher que Elaine possui. Desde cedo, Elaine sempre recorreu a mãe para que lhe desse conselhos sobre o que seria melhor pra ela em relação a profissão como também pra vida em geral. Ao pedir a opinião de sua mãe sobre o que ela gostaria de ter sido, Dona Benedita lhe disse que se tivesse tido oportunidade de estudar teria feito Direito. Elaine ouviu esse desejo de sua mãe e guardou como um conselho. Assim, aos dezessete anos, ela fez vestibular para Direito, passou e logo começou a estudar. No primeiro ano do curso de Direito, ela sentiu que não estava gostando das matérias e ficou um pouco desesperada, pensando em desistir. Nesse sentimento, foi conversar com a mãe e, essa, aconselhou-a a não desistir porque, passado essa tempestade, ela iria gostar e iria se adaptar. Diante da postura firme da mãe, Elaine continuou no curso de Direito e, realmente, passado um tempo tomou gosto por tudo o que aprendia.
No segundo ano em que estava na faculdade, Elaine fez o concurso para o tribunal de justiça de São Paulo no cargo para técnico judiciário e foi aprovada. Assim, aos 18 anos, em 1984 e já concursada foi trabalhar no fórum.
Ao começar no trabalho, gostou ainda mais da área do Direito, conheceu juízes, o trabalho que faziam, o Poder Judiciário como um todo e decidiu que queria ser juíza. Assim, ao chegar ao terceiro ano de Direito, Elaine já sabia que sua profissão seria a de juíza, na magistratura. Fazendo o curso de Direito, ela fez prática na área e tudo o que rege as demandas do curso. No decorrer, pediu exoneração do cargo de técnica judiciária e passou a exercer a advocacia. Estando ela já Advogada, eis que ficou sabendo de um concurso para magistratura em Roraima através de uma amiga que já era promotora de justiça no estado.
Apesar da amiga insistir para que Elaine viesse a Roraima fazer o concurso, Elaine ficou com o coração cheio de dúvidas se viria ou não pois, não queria deixar sua família e vir pra um local distante e longe de todos. No entanto, a amiga não desistiu de tentar convence-la a vir realizar as provas e, Elaine veio mesmo com pesar no coração pela família que, caso passasse, teria que deixar.
Tomada a decisão, Elaine e sua amiga, fizeram a inscrição para o concurso como também realizaram todos os tramites do concurso. Elaine passou para o cargo de juíza e, assim, deixou sua família em São Paulo vindo exercer sua profissão em Roraima. Desde 1991 Elaine vive em Roraima e isso significam 27 anos de residencia no extremo norte brasileiro como também 25 anos de trabalho na magistratura. Ela é casada com um cearense e tem dois filhos homens. Atualmente ela é a Presidente do Tribunal de Justiça de Roraima.
Para chegar á presidência do TJ em Roraima, Elaine fez um percurso longo na carreira a começar pelo estágio probatório de três anos como juíza substituta e, posteriormente, passando a ser juíza de direito. Foi ocupando várias funções durante o seu trajeto na magistratura: foi juíza em vara criminal, vara cível, no juizado especial, em execução da pena e juíza na vara de fazenda pública. Ao surgir a vaga para concorrer ao cargo de desembargadora no ano de 2012, o processo foi longo até que ela conseguisse definição da sua promoção e assim, passou a ser desembargadora em 9 de junho de 2015.
Na época, havia o cargo de Corregedor Eleitoral e, por não haver outro magistrado qualificado para ocupa-lo, Elaine tomou posse nessa função no dia 17 de junho de 2015, apenas 8 dias depois de sua promoção como desembargadora. Após ser corregedora eleitoral, foi escolhida pelos magistrados para presidir o TJ de Roraima, algo que ela considera que foi alcançado com muita rapidez em sua carreira profissional.
Ao falar sobre preconceitos e discriminações em sua carreira profissional, Elaine diz que já sentiu essas situações, mas não gosta de falar sobre o assunto. Em relação a vida da mulher atualmente, ela considera que hoje as mulheres têm mais acesso a educação e consequentemente podem concorrer de igual pra igual com os homens, principalmente em se tratando de concursos públicos e sem precisarem de cota. Ela acha que no serviço público, existe mais igualdade de condições entre homens e mulheres na concorrência de cargos, porém, ela considera que no serviço privado ainda há muito a melhorar porque é uma realidade a disparidade de salários. Elaine ve como avanços a participação cada vez maior das mulheres no poder Legislativo e no poder Executivo, mas, ainda é pouco se comparado com o todo da população brasileira que tem um número maior de mulheres do que de homens.
Elaine observa que é muito estranho que a imprensa, os meios de comunicação não divulguem o desempenho das mulheres que ocupam cargos no poder Executivo, no Legislativo e Judiciário. Ela considera que se mostrassem, estariam fazendo um serviço de utilidade pública porque mais mulheres poderiam mudar suas vidas, se sentirem valorizadas tendo sua participação tão evidenciada quanto a que os homens têm. Ainda sobre essa questão, ela diz que a própria sociedade não se interessa por assuntos como esse deixando assim, a mídia trazer os temas impactantes, violentos, que geram comoção coletiva.
Como na maioria das pessoas, temos alguém que nos inspiram a ser alguém na vida, que não nos fazem desistir de sermos o que somos ou o que queremos ser, e é claro Elaine teve várias inspirações e exemplos bons, como seu pai que trabalhava todo dia para sustentar a família. Porém, foi sua mãe, dona Benedita que sempre esteve ao seu lado, que a apoiou e que nunca a deixou desistir de fazer o curso de Direito. Hoje, ela agradece por aquela insistência da mãe pois, é uma profissional reconhecida socialmente, independente e seu presente só pode ser assim porque no passado, ouviu o conselho da sua mãe.
Elaine teve momentos em sua vida que nunca irá esquecer, momentos marcantes como quando, decidiu pelo concurso, deixar a sua família e sair de São Paulo, cruzando o país até chegar em Roraima. E quando conheceu e se apaixonou pelo seu marido Antônio Roberto Bonfim, que é seu companheiro pra todas as horas. Nesses dois anos em que ela exerce a presidência do TJ, o marido Antônio tem sido pai, mãe, dono de casa, motorista, de tudo ele tem sido porque além de ama-la, ele a apoia profissionalmente. Os nascimentos dos dois filhos, Bruno Bianchi Bonfim, com 18 anos e Rafael Geovane Bianchi Bonfim, com 5 anos foram inesquecíveis em sua vida. O coração de mãe foi testado, quando seu filho mais velho ficou doente inesperadamente e, ela teve, por duas vezes, o menino quase sem vida em seus braços tendo que enfrentar peregrinação em hospitais e UTIs. Porém, apesar de todo sofrimento que ela e a família passaram, depois de um mês do menino entre a vida e a morte, ele milagrosamente ficou curado sem que os médicos encontrassem uma explicação para tal acontecimento. Elaine é uma mulher de fé e acredita que Deus cuidou de seu filho não permitindo que o perdesse.
Na visão de Elaine, a vida pessoal dela, por conta da profissão extenuante que possui, as vezes fica meio prejudicada. Os filhos, são prejudicados no vinculo que quem é filho tem com sua mãe, o qual, para ela é muito forte. A jornada profissional da mulher, por vezes, coloca os filhos em segundo plano e esses sentem falta da mãe ao seu lado para lhes cuidar e ensinar. Ela considera um problema a culpa que as mulheres sentem sobre isso o que, às vezes, acaba gerando uma falha na educação das crianças. No entanto, apesar das dificuldades que a vida de mulher, mãe e profissional acarreta, Elaine se considera uma mulher de sorte, lutadora e tendo uma família feliz com um marido que é companheiro e parceiro em suas glórias e momentos difíceis. Seja nos bons momentos ou nos ruins, o companheirismo e a força da família estão sempre presentes na vida de Elaine.
Escrito por Kiese Bela Alexandre da Silva - 12/2018
Orientadora: Rutemara Florencio