CHIZUKO TSUKUDA E CHIGUSA TSUKUDA
O período que vai dos primeiros anos do século XX até o início da Segunda Guerra Mundial simbolizou, no Japão, o crescimento do nacionalismo e do imperialismo, posturas essas que em 1941, levaram esse país a atacar os Estados Unidos e consequentemente oficializar sua entrada na Segunda Guerra Mundial ao lado da Alemanha e Itália. No meio de tudo isso, estava a população japonesa que, viria a sofrer as consequências da guerra. Dois anos antes da entrada oficial do Japão na grande guerra, em 07 de janeiro de 1939, na província de Osaka, nascia Chigusa Tsukuda, filha do casal Zenzaburo Tsukuda e Chizuko Tsukuda que no total teve cinco filhos.
A vida no Japão durante a segunda guerra mundial como também no pós-guerra não foi nada fácil: havia fome, desemprego e, muitas famílias, estavam passando por muitas dificuldades, incluindo a família de Chigusa. Por serem crianças os filhos do Sr. Tsukuda e Dona Chizuko não podiam trabalhar para ajudar nas despesas do lar; do salário que a mãe recebia por trabalhar numa empresa, era lhe dado apenas a metade porque o governo confiscava a outra. Por conta da guerra, os japoneses estavam sustentando o Estado em suas despesas e, conforme relata Chigusa, o que sobrava do pagamento do trabalho não dava nem pra comer. Os pertences, os bens e tudo o que sua família tinha no Japão foram confiscados pelo governo e os pais ficaram sem nada.
Quando a segunda guerra acabou, as relações entre o Brasil e o Japão foram restabelecidas e, novamente, as migrações voltaram a ocorrer. Um exemplo é o ano de 1951 quando cinco mil famílias japonesas saíram do Japão para virem morar no Brasil em busca de novas oportunidades de trabalho. Já havia um tipo de acordo entre Brasil e Japão para incentivar imigrantes japoneses a virem se fixar no Brasil que vigorava desde o início do século XX mas, que, um pouco antes da guerra, havia sido desfeito por conta de questões políticas que depois estiveram presentes na segunda guerra mundial.
A situação econômica cada vez pior fez o Sr Zenzaburo Tsukuda, pai de Chigusa, tomar a decisão de vir para o Brasil em 1954. Apesar de Dona Chizuko e dos filhos não concordarem com essa mudança, não podiam fazer nada: no Japão estava difícil, as vezes passavam até fome. O Sr Zenzaburo não aceitava a ajuda de amigos e familiares, não queria depender de ninguém e, conservando o orgulho japonês em suas veias, decidiu fazer uma mudança total. Assim, aos 15 anos, Chigusa, teve que deixar algo como hoje seria a 1ª Série do ensino médio e embarcar para o Brasil com seus irmãos e seus pais rumo a Amazônia.
A chegada ao Brasil se deu após 52 dias de viagem no navio Brasil-Maru. Eles desembarcaram no estado do Pará indo parar em um local chamado de Belterra. Aqui, vale uma informação: A cidade de Belterra foi fundada em 1934 por Henry Ford que, a partir do plantio organizado da seringueira, objetivava extrair o látex para fazer borracha e, consequentemente, produzir os próprios pneus para indústria de automóveis que estava em expansão. Henry era norte americano e, essa cidade, foi toda projetada no estilo norte americano de cidades.
A família Tsukuda então, ao chegar em Belterra, se deparou com uma situação que não esperava: não tinha lugar para morar e o único trabalho que tinha era com a seringueira. Como os filhos ainda eram menores somente o Sr Zenzaburo que podia trabalhar o que dificultava conseguir dinheiro suficiente para acomodar a família e também a alimentar. Chigusa lembra que o sofrimento era grande: primeiro por terem deixado seu país indo para um lugar estranho e sem nenhum amigo ou parente; segundo porque tudo o que o pai pensava que encontraria, não encontrou.
Os oito meses que a família Tsukuda passou em Belterra foram de dificuldades extremas e até mesmo fome. Apesar de terem a promessa de trabalho digno como também terem um contrato assinado formalizado onde constava que teriam casa e emprego, tudo não passava de um papel porque nada daquilo era verdade. Por fim, o Sr Zenzaburo, pai de Chigusa, descobriu que algumas pessoas estavam à procura de duas famílias japonesas para plantar verduras no território federal do Rio Branco (atual Roraima). Assim, nos idos de 1955, a família chegou nas terras roraimenses viajando de barco durante uma semana.
Na segunda metade do século XX, o território federal do Rio Branco possuía menos de 60 mil habitantes, a maioria das pessoas ligadas a economia pecuarista. Nesse ambiente, as cidades locais eram quase vilas e, Boa Vista, não ficava atrás. A família Tsukuda foi levada para o local onde hoje fica a praça do Mirandinha com o objetivo de passarem a plantar verduras para abastecer a população. Chigusa lembra que a vida dos japoneses como a família dela, aqui, não era fácil porque tudo era diferente: clima, costumes, cultura, língua. Os filhos queriam voltar para o Japão. As promessas que tinham recebido também ao chegar em Roraima, não se concretizaram e assim, a família teve que lutar meio que sozinha nessas novas terras. Sem local para morar, tiveram que ir pra mata tirar a madeira pra construir a casa que era também de taipa: o telhado eles usaram a palha de buriti para fazer.
A família Tsukuda morava próximo ao igarapé Mirandinha de onde puxavam a água pra usar diariamente. Chigusa e a mãe carregavam as latas de água para consumo da família e assim, depois de aprenderem a cultivar verduras em Belterra, ao chegar em Roraima, passaram a produzir para venda. A mãe de Chigusa levantava todos os dias as três horas da manhã para organizar os produtos para vender no dia. Como eles foram acomodados longe do centro de Boa Vista, tinham que usar uma bicicleta para levar as verduras a serem comercializadas. Com a venda das verduras a Sra. Chizuko comprava pão e carne para a família, mas quando não conseguia vender os produtos, doava tudo para os asilos da cidade.
No Brasil nasceram duas irmãs gêmeas de Chigusa. Dona Chizuko, a responsável pela venda das verduras e compra de alimentos para família, tinha grande preocupação com a alimentação das crianças e fazia de tudo para conseguir vender tudo o que levava na bicicleta. Porem, nem sempre as vendas eram boas e, teve dias em que ela voltava para casa sem ter vendido verduras em quantidade suficiente para comprar o leite necessário às pequenas gêmeas recém-nascidas. No entanto, Dona Chizuko não esmorecia e no lugar do leite, oferecia papa de arroz (chamado de Okayu).
Chigusa lembra que no começo da vida da família no Brasil houveram preconceitos pois, a população local não se sabia como eram os japoneses sendo eles julgados por serem diferentes da maioria dos moradores das cidades onde ficaram. Em Boa Vista e em todo estado (naquele tempo território federal), não havia muita infraestrutura de saúde. Certa vez, a mãe de Chigusa, Dona Chizuko, estava com dor de dente e, por causa disso foi procurar alguém que não era dentista, mas que era o único na cidade que trabalhava nesse campo. Essa pessoa acabou arrancando todos os dentes da mãe de Chigusa porque não sabia qual era o dente doente.
Com muito trabalho e economizando tudo o que ganhavam, a família Tsukuda conseguiu comprar um ponto de comercio no centro de Boa Vista onde passaram a vender todos os tipos de produtos e onde também, todos os filhos do Sr Zenzaburo trabalharam. O nome do comércio "Estivas Roraima" porém, nunca pegou porque o povo dizia que ali era a Loja do Japonês. Esse é o nome pelo qual o comercio dos Tsukuda é conhecido até hoje e onde se encontra de tudo mesmo.
A primeira família de japoneses que chegou em Roraima, trouxe Chigusa que está prestes a completar 80 anos e é uma das fundadoras da Associação Nipônica formalizada em 2008. A associação surgiu, a principio, por meio de reuniões que os japoneses e seus descendentes faziam em suas casas. Chigusa tem em sua mãe, sua maior inspiração de vida e de luta pois, foi testemunha de todo sofrimento, desafios, superações e vitórias que Dona Chizuko protagonizou ao longo de quase 100 anos de vida já que nasceu em abril de 1917 e morreu em fevereiro de 2017.
Chigusa Tsukuda nunca quis se casar, é solteira mas vive rodeada de sobrinhos e parentes. Ela trabalha até hoje na loja que seu pai fundou em 1967, que é onde mantém vivo o legado que recebeu dele mas, principalmente de sua mãe Chizuko.
Em 2018, foi lançado um documentário de JPavani sobre a família Tsukuda em Roraima, que está disponível no link
https://www.youtube.com/watch?v=H6czt1GEuCo&t=2087s
Escrita por: Raquel Souza e Thiago Henrique de Souza em 25/11/2018
Orientadora: Rutemara Florêncio