Filha mais velha de uma família com três filhas, Carla Monteiro de Souza nasceu no dia 25 de julho de 1959 na bela cidade do Rio de Janeiro que, naquela época, ainda era capital federal pois, Brasília estava em construção. Sua família, pertencente a classe média baixa, não tinha muitas posses, mas, davam alto valor a educação escolar. Desse modo, Carla sempre foi incentivada, assim como suas duas irmãs, a estudar. Ela foi a primeira pessoa de sua família a entrar na faculdade, a ter um curso superior. Posteriormente, suas irmãs também chegaram até esse nível de escolaridade, mas, Carla foi a pioneira da família.
A infância da menina Carla foi uma infância feliz junto as suas irmãs, a mãe e a avó. Ela viveu no meio de mulheres, pois seus pais se separaram quando ela era uma criança e, não tendo irmãos, o universo feminino dominou totalmente sua formação familiar. Ela tem em sua mãe e sua avó, os exemplos para sua vida: mulheres que lhe ensinaram que ela podia escolher, que ela podia ter sonhos e realiza-los. Apesar de ter sido criada em um sistema rígido, com disciplina de horários e tudo mais, Carla aprendeu na convivência familiar a ser independente e batalhadora.
Ao atingir a idade necessária para começar a estudar, Carla foi inserida na escola pública, já na metade da década de 1960, anos iniciais do regime militar que começou em 1964. Ela fez todo o primário e segundo grau (hoje chamado de Ensino Médio) em escolas públicas que, naquela época, eram consideradas de nível excelente. Durante toda a década de 1970, Carla realizou seus estudos na educação básica. Ao tentar o primeiro vestibular em 1978, para o curso de Comunicação Social, não conseguiu aprovação. No entanto, a jovem Carla entendeu a reprovação como um aviso para que ela corresse atrás do seu sonho: iria fazer o vestibular novamente no ano seguinte e para o curso que ela desejava.
Era o ano de 1979, o ano da Campanha da Anistia onde diversos setores da sociedade brasileira se uniam contra a Ditadura Militar iniciada em 1964, e Carla estava na segunda tentativa para o vestibular. Dessa vez, porém, não havia escolhido o curso que formava jornalistas e sim o de História. E, por qual motivo será que ela escolheu esse curso? Ela escolheu estudar História porque sempre gostou muito de ler, sempre foi muito “leitora”. Sua família, mesmo não tendo pessoas com curso superior, estimulava-a a ler e desde pequena estava em contato com os livros: ela leu toda obra do Monteiro Lobato e seus livros preferidos eram História do Mundo para as crianças e Geografia da Dona Benta. Ela também leu ficção cientifica, leu Júlio Verne, um escritor francês da literatura clássica mundial e autor do famoso livro Viagem ao Centro da Terra. Naquela época de criança que lia, a preferência da menina Carla era pelos livros que falavam do tempo e, talvez, esse gosto tenha sido fundamental na escolha pelo curso de História como também o fato dela gostar dessa disciplina na escola.
Estudar História na universidade geralmente é associado a estudar pra ser professora e, mesmo naquela época, as pessoas pensavam que ser professora era ter uma profissão difícil. Até mesmo Carla, quando fez um ano de Curso Normal (curso técnico de magistério inserido no segundo grau) para ser professora de 1ª a 4ª serie, não gostou da experiencia e desistiu, voltando para o segundo grau regular. Assim, será que Carla realmente iria seguir a carreira de professora de História?
Enquanto Carla fazia a graduação na UERJ, ela vivenciou um pouco da História do Brasil pois, estava dentro de uma universidade pública, na área de Humanas e, vivendo em pleno regime militar. Ela diz que as universidades públicas eram locais bastante vigiados e a liberdade era restrita. Em 1982, quando terminou o curso de graduação em História na UERJ, ela estava formalizada como professora. Isso foi uma conquista muito importante pois, sendo a primeira pessoa da família a ter curso superior, abriu caminho para suas irmãs que seguiram seu exemplo. Aliás, foi através de uma delas, a caçula da turma, que Carla mudaria sua vida radicalmente no inicio dos anos 1990.
Durante a época de faculdade, a futura professora trabalhou como recepcionista em uma empresa e isso foi uma ótima experiência. Porém depois que terminou a faculdade precisou ganhar melhor, já que tinha que ajudar a família. Assim, ela foi trabalhar em um banco onde vivenciou muitas situações de autoritarismo por parte dos seus chefes; também viu colegas sofreram assedio e violência verbal. Ela relata que muitas mulheres passaram e ainda passam por isso porque socialmente falando, existe uma “normalidade” no fato das mulheres levarem “cantadas” ou “convites” no ambiente de trabalho apesar de que hoje, o assédio tanto sexual quanto moral seja considerado crimes.
Carla chegou a Roraima em 1994 depois de já ter 08 anos de trabalho como professora da educação básica no Rio de Janeiro. Lá, ela trabalhou no CIEP, escola de educação em tempo integral da rede pública como também trabalhou em uma escola da rede privada. Sua vinda pra Roraima significou uma mudança radical em sua vida pois, nunca pensou em sair do Rio. Ela conta que uma de suas irmãs, a caçula, tinha vindo morar em Boa Vista, era professora e lhe avisou sobre um concurso para Universidade Federal de Roraima.
Depois de muito pensar, Carla tomou a decisão de vir fazer o concurso da UFRR para o qual passou. Dessa forma, sua vida mudou da água para o vinho pois, saiu de uma cidade muito grande para viver em uma que estava ainda se desenvolvendo. Segundo ela, jamais se arrependeu dessa decisão pois se tornou professora efetiva do curso de História, fez mestrado, doutorado e pós-doutorado como servidora pública federal e trabalha atualmente tanto na graduação quanto na pós-graduação da instituição. Ela sempre se dedicou ao trabalho de forma intensa porque considera que, sendo fruto da educação pública em todos os níveis, deve devolver à sociedade, um trabalho de excelência. Carla também é pesquisadora e trabalhou por muitos anos pesquisando migrantes e migrações em Roraima, sendo um nome de referência no assunto tanto no estado quanto na região Norte.
Atualmente, Carla é solteira, mas, já foi casada. Ela não teve filhos porque optou por não os ter. Sobre esse assunto, ela diz que desde muito nova sabia que não queria ter filhos e, quando adulta, manteve a decisão. Não é por ser mulher, que ela teria a obrigação de ter filhos, mas, ainda hoje, ela é perguntada se não se arrependeu da escolha que fez quando mais jovem. Ela não se arrependeu porque sabe que foi uma escolha consciente, sem imposição e nunca ligou para a pressão social que as mulheres sofrem pela maternidade. Ela também acha que não se tem filho para que esse seja o cuidador dos pais na velhice. Carla considera que uma das conquistas das mulheres é o poder de escolha: elas podem escolher o que quiserem, se querem ou não ter filhos, casar, enfim, porém, na sua concepção ainda hoje muitas mulheres não se dão conta de que podem escolher e seguem um roteiro que não é escolha dela mas dos outros.
Apesar de não ter filhos, ela sempre gostou de crianças e acompanhou seus sobrinhos como tia coruja. Acompanhou suas irmãs quando essas se tornaram mães assim como na criação dos filhos delas. Para Carla, conciliar a vida pessoal com a vida profissional tem desafios, mas, mesmo que as pessoas pensem que por não ter filhos, a vida dela foi e é mais fácil, sua rotina é parecida com a das outras mulheres. Atualmente ela divide os cuidados de sua mãe, que tem 80 anos, com suas irmãs, tem sua casa, seus familiares, os animais de estimação e é ela que resolve todos os problemas domésticos assim, está sempre ocupada e, com jornada de trabalho dupla da mesma forma que mulheres que estão em uma relação matrimonial, mesmo que muitos homens atualmente dividam com suas mulheres os afazeres domésticos. Porém, em se tratando desse assunto, ela observa que a relação entre os parceiros é assimétrica geralmente pesando muito mais para o lado da mulher.
Como historiadora, Carla analisa que a falta da escolaridade e as falhas da escolarização básica são negativas para as mulheres como também para a sociedade em geral, porém, existe uma perspectiva positiva com relação aos números que evidenciam o analfabetismo: hoje o acesso à escola é muito mais universal do que a vinte anos e o percentual de analfabetos vem caindo. Ao fazer seu pós-doutorado em Lisboa teve uma imersão cultural e um conhecimento importante para analisar e comparar a estrutura organizacional das universidades no Brasil e Europa. Diante disso, concluiu que no Brasil temos um sistema universitário bom e que merece elogios por isso, ela defende a universidade pública e o sistema público de educação básica. Ela analisa que para ser professor é importante querer ser e ter essa profissão devido as dificuldades que o exercício da docência ainda enfrenta no país. Para ela existe a necessidade de ver o ensino superior como lugar onde é necessário estudar muito, onde o nível de exigência e cobrança é muito alto devido a essa modalidade visar a formação profissional. Carla dá muito valor aos estudos porque foi por meio deles que alcançou seus sonhos, realização profissional e pessoal.
Escrita por: Talita Mendes Menezes, Elizane Sousa e Lucas Pinheiro em 05/12/2018
Orientadora: Rutemara Florêncio