"Paisagem no Brasil com vista para Olinda", pintura de Frans Post, 1680, Rijksmuseum, Amsterdão.
Ficção histórica
Estamos no ano da graça de nosso Senhor Jesus Cristo de 1670, e reina sua majestade, o ilustríssimo rei D. Afonso VI, O Vitorioso.
Josevaldo Maria é uma das muitas crianças que corre no átrio da casa grande, com a ardósia debaixo do braço, na direção do mestre-escola, que as espera debaixo do alpendre desta magnifica fazenda açucareira em Pernambuco, no Brasil. Este mulato, nascido na sanzala, talvez da idade dos dedos das mãos, é o único aluno de cor que está a aprender a ler e a escrever. E não é por acaso que está ali e não nas plantações de açúcar ou na fábrica, como todos os outros filhos dos escravos da propriedade. “Teve sorte! É filho do patrão…” – Diziam as bocas dissimuladas.
Hoje, Jô, como lhe chamam, está triste e com vontade de desaparecer, de fugir até àquelas cascatas lá longe no serrado, para nunca mais voltar. E logo ele, que tanto gosta de aprender e até o mestre-escola respeita a sua inteligência e aptidão para as letras e para as matemáticas. Mas, a humilhação é dupla e difícil de aguentar. Por um lado, os colegas brancos não o aceitam, ignorando-o e discriminando-o, constantemente, dizendo-lhe que ali não é o lugar dele.
Procissão de mulheres da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos no Rio de Janeiro. Ilustração de Carlos Julião, 1777, in A Terra de Santa Cruz.
Soldado do Regimento de milicianos do Rio de Janeiro, ilustração de finais do séc. XVIII/ inícios do séc. XIX, in A Terra de Santa Cruz.
Mulher negra forra, Brasil, séc. XVIII. Ilustração de Carlos Julião, entre 1770-1790, in A Terra de Santa Cruz.
E as coisas pioraram, quando o filho mais velho do capitão do mato, um adolescente muito violento, o começou a tratar como escravo. Desde o prender no tronco, chicoteá-lo, até atiçar-lhe os cães, colocando a sua vida em risco.
O pior é que Jô nem podia contar com a ajuda dos seus antigos amigos da sanzala, pois estes não o aceitavam mais, por já não ser um deles. Era um escravo liberto. E nem sequer preto era! E ainda por cima, filho enjeitado do patrão a armar-se em doutor. Também eles, quando podiam, lhe arreavam por quantas tinham.
E assim, andava Jô desesperado. Via os seus sonhos a desvanecerem-se e sentia-se cansado e magoado, sem qualquer capacidade para resistir. O mestre-escola ignorava a situação, dizendo que era tudo brincadeira de rapazes. A mãe nada podia fazer, e a família do pai não o aceitava, pois não passava de mais um bastardo.
Um dia, quando o sol caiu no horizonte do sertão, o menino Josevaldo Maria não voltou. Voara para a liberdade do cimo do penhasco da sua cachoeira preferida...
Comenta com os teus professores de Cidadania e História e Geografia de Portugal esta triste história e compara o passado com o presente. O que se mantêm? O que se alterou? Qual é a nossa realidade atual? De que forma podemos evitar a violência, o bullying e o racismo e promover a igualdade e o respeito entre todos?
Texto: Fernando Oliveira, professor.
Cidade Maurícia, capital do Brasil holandês, pintura de Frans Post, 1657, in A Terra de Santa Cruz.