Tolerância ao mal-estar
Habilidades DBT para atravessar momentos difíceis e escolher como agir.
Habilidades DBT para atravessar momentos difíceis e escolher como agir.
Você recebe uma notícia frustrante, sente o corpo acelerar e quer fazer alguma coisa imediatamente para aliviar. Nesses momentos, pode ser útil ganhar tempo antes de uma ação que traria mais dificuldades, como enviar uma mensagem agressiva ou tomar uma decisão importante no impulso.
Se precisa interromper uma reação, comece por STOP. Para atravessar a espera, explore Distração, Autoacalmar e IMPROVE. Quando a dificuldade é algo que já aconteceu ou não pode ser mudado agora, veja Aceitação radical. O índice ajuda a encontrar cada prática; depois, retome o que precisa ser resolvido.
Quer aprender em uma sequência de aulas? O treinamento do DBT Hub reúne regulação emocional e todos as outros módulos de habilidades, com aulas gravadas e materiais de prática.
STOP é um lembrete de quatro passos. Você pode praticá-los em situações pequenas, para ter mais familiaridade quando precisar.
Pare. Interrompa por um instante o que estava prestes a fazer. Se estava digitando uma mensagem agressiva, tire os dedos do teclado.
Recue um passo. Dê algum espaço para si. Apoie o celular, respire e, se for seguro, afaste-se brevemente da discussão. Você pode avisar que precisa de uma pausa e combinar quando vai retomar.
Observe. O que aconteceu de fato? O que seu corpo está sentindo? Que interpretação apareceu? Qual é a vontade de agir? “Não respondeu ainda” e “não se importa comigo” são informações diferentes.
Prossiga com atenção. Considere seu objetivo e escolha uma ação que ajude a alcançá-lo. Talvez seja pedir uma explicação, esperar ou buscar apoio antes de continuar.
Na vida real: depois de receber uma crítica no trabalho, você sente vontade de se demitir por mensagem. Usa STOP, deixa a resposta em rascunho e espera conseguir avaliar o que deseja dizer. A crítica ainda incomoda, mas a decisão ganha tempo.
Se você já começou a reagir
Você pode usar STOP no meio da sequência. Se enviou uma mensagem e está prestes a mandar outras, interrompa a próxima ação. Quando houver condições, avalie se precisa esclarecer ou reparar o que já aconteceu. Para treinar, escolha uma situação pequena, como perceber a irritação numa fila, e ensaie os quatro passos antes de precisar deles em algo mais difícil.
Quando a ativação física está muito alta, tentar raciocinar pode ser difícil. TIP reúne estratégias de temperatura, exercício intenso, respiração pausada e relaxamento muscular. Você também pode encontrar a sigla TIPP, que destaca separadamente as duas últimas práticas.
Uma possibilidade para experimentar: sentado de forma confortável, deixe a respiração ficar um pouco mais lenta, soltando o ar suavemente por mais tempo do que leva para inspirar, sem forçar. Observe se consegue reduzir um pouco a tensão dos ombros. Se sentir tontura ou desconforto, interrompa e retome seu ritmo habitual.
No relaxamento muscular, a prática envolve contrair suavemente e depois soltar grupos musculares, percebendo a diferença, sem causar dor. Soltar a tensão pode ser combinado com a saída do ar.
As técnicas com frio no rosto e exercício intenso precisam ser adequadas à sua saúde. Consulte um profissional de saúde antes de utilizá-las, especialmente se houver condição cardíaca, frequência cardíaca baixa, uso de medicação que afete o coração, alergia ao frio ou transtorno alimentar. Este guia não propõe imersão do rosto em gelo nem esforço intenso sem orientação.
Você não precisa usar todas as habilidades de uma vez. Escolha uma que seja possível no lugar em que está e observe se ela ajuda a atravessar o impulso com mais segurança.
Em um momento mais tranquilo, escreva as vantagens e desvantagens de duas escolhas: agir seguindo o impulso e atravessar a vontade sem fazer isso. Considere tanto o que acontece agora quanto as consequências nos próximos dias.
Exemplo: mandar dez mensagens seguidas pode aliviar por instantes a sensação de estar sendo ignorado, mas também aumentar o conflito. Esperar pode ser desconfortável no começo e permitir uma conversa mais clara depois. Deixar essa reflexão anotada facilita consultá-la quando a emoção subir.
Monte quatro espaços no papel
Separe: vantagens de seguir o impulso; desvantagens de seguir o impulso; vantagens de resistir; desvantagens de resistir. Inclua o alívio imediato e o custo posterior, sem esconder que esperar também pode doer. No exemplo das mensagens, uma anotação possível é: “Cobrar agora me dá sensação de ação, mas posso dizer algo que não quero sustentar”. Termine escolhendo o que fará enquanto atravessa a vontade, como colocar o celular de lado e preparar uma refeição.
Neste trecho de uma aula do DBT Hub, Loren explica como organizar a tabelinha de prós e contras e usar a habilidade na prática.
A habilidade conhecida como ACCEPTS reúne maneiras de mudar o foco por um tempo: envolver-se em uma atividade, contribuir com alguém, lembrar uma dificuldade que já atravessou, buscar uma experiência que desperte outra emoção, afastar o assunto por alguns minutos, ocupar o pensamento ou prestar atenção a uma sensação segura.
Exemplo: enquanto espera uma resposta que não depende de você, coloque o celular de lado e prepare uma refeição simples, acompanhando cada etapa. Ao terminar, avalie o próximo passo. A pausa tem uma função e um fim; adiar indefinidamente uma tarefa ou conversa importante tende a manter o problema.
Como escolher uma distração útil
Prefira uma atividade que exija atenção suficiente para ocupar você e que seja segura naquele contexto. Uma tarefa curta e conhecida pode ser mais acessível que algo difícil de aprender. Combine uma retomada: “Vou organizar esta gaveta e depois reavaliar se consigo conversar”. Se o assunto depende de uma providência urgente, a pausa precisa ser compatível com esse prazo.
Observe o que costuma ser agradável para você: a textura de uma manta, uma música tranquila, a luz da janela, o cheiro de um sabonete ou o sabor de uma bebida. Escolha uma experiência segura e preste atenção nela, sem exigir que a emoção desapareça.
Exemplo: depois de uma conversa difícil, sente-se com uma xícara morna e perceba a temperatura nas mãos, o aroma e o sabor. O conforto pode ajudar a atravessar os minutos seguintes, ainda que a tristeza continue.
Prepare suas próprias opções de conforto
Escolha duas ou três experiências que você realmente considera agradáveis e que pode acessar sem dificuldade. Uma pessoa gosta de silêncio; outra prefere música. Teste em um dia comum e observe quais sensações ajudam a permanecer no momento. Se um cheiro, toque ou som trouxer lembranças desagradáveis, troque de estímulo. Você pode adaptar o ambiente sem se obrigar a gostar de uma técnica.
A habilidade IMPROVE reúne recursos como imaginar uma cena acolhedora, conectar-se com algo que importa, recorrer à oração se fizer sentido para você, relaxar, fazer uma coisa de cada vez, dar-se uma pausa breve e usar palavras de encorajamento realistas.
Exemplo: diante de um dia sobrecarregado, concentre-se apenas na próxima tarefa e diga a si: “Está difícil; posso fazer esta parte e depois reavaliar”. Não é necessário encontrar uma lição em toda experiência dolorosa.
Encorajamento que você consegue acreditar
Uma frase como “Tudo vai ficar ótimo” pode parecer distante do que está vivendo. Experimente uma formulação ligada à próxima ação: “Ainda não sei o resultado; agora posso tomar água e terminar esta parte”. Uma pausa também pode ser pequena e planejada, como alguns minutos em um local mais tranquilo antes de retomar uma tarefa.
Algumas dores vêm de algo que já aconteceu, de uma perda ou de uma resposta que não está sob nosso controle. A aceitação radical é a prática de reconhecer essa realidade, inclusive quando gostaríamos muito que fosse diferente. Isso pode abrir espaço para cuidar de si e agir sobre o que ainda pode ser mudado.
Exemplo: uma seleção de emprego terminou e você não foi escolhido. Reconhecer esse resultado permite sentir a decepção, pedir um retorno e pensar nas próximas candidaturas. A conclusão “nunca vou conseguir” é uma previsão da mente, não um fato que precisa ser aceito.
Comece nomeando o fato de forma concreta: “Essa oportunidade não deu certo”. Perceba o que sente ao reconhecê-lo e pergunte: “Considerando que isso aconteceu, qual cuidado ou ação está ao meu alcance hoje?”. Você pode continuar triste enquanto dá esse passo.
Aceitar que uma situação perigosa existe pode ser justamente o começo de buscar proteção. A prática não exige perdoar, justificar uma agressão ou abandonar mudanças possíveis.
Diferencie o fato da conclusão sobre sua vida
No exemplo da seleção, o fato é não ter sido escolhido para aquela vaga. “Sou incapaz” ou “nenhuma empresa vai me querer” são avaliações e previsões que podem aparecer com a decepção. Tente escrever uma frase precisa sobre o acontecimento e outra sobre o que ainda está em aberto. Reconhecer um resultado doloroso não exige aceitar como verdade todas as conclusões que sua mente produz sobre ele.
Você pode reconhecer um fato e, pouco depois, voltar a pensar “isso não podia ter acontecido”. Perceber esse movimento e escolher novamente como lidar com a realidade faz parte da prática. A aceitação pode precisar ser retomada muitas vezes.
Como praticar: note quando você voltou a exigir que o passado seja diferente, reconheça o fato e escolha novamente uma ação útil. Você pode repetir esse movimento várias vezes no mesmo dia.
Exemplo: depois de reconhecer que perdeu uma oportunidade, você volta a pensar que isso não poderia ter acontecido. Percebe a resistência, retoma o fato e decide cuidar da próxima candidatura.
Um lembrete para os retornos da resistência
Escolha uma frase curta e concreta, como “O prazo passou; agora vou verificar as alternativas”. Ao notar que voltou a discutir com o fato, retome a frase e a ação possível. Você pode precisar fazer isso muitas vezes, especialmente diante de uma perda. A prática não tem um prazo fixo para deixar de doer.
Estar disposto envolve abrir-se a uma ação útil, mesmo sem vontade. Depois de perder um prazo, por exemplo, pode significar entrar em contato para verificar as alternativas, tolerando a vergonha dessa conversa.
Como praticar: identifique o que a situação pede agora e qual pequena ação está ao seu alcance. Observe a diferença entre ter vontade de fazer e estar disposto a experimentar algo útil.
Exemplo: você não quer admitir que precisa de ajuda para organizar uma tarefa. Estar disposto pode ser enviar uma pergunta específica a quem consegue orientar. A vergonha pode continuar enquanto você age.
Quando você pensa “não quero, então não consigo”
Pergunte o que tornaria o passo menor e mais viável. Se pedir ajuda parece difícil demais, comece escrevendo uma pergunta concreta. Estar disposto inclui reconhecer limites reais e buscar recursos. Não exige aceitar uma exigência abusiva ou ignorar o que é inseguro para você.
O meio sorriso é uma prática corporal de abertura à experiência. Trata-se de suavizar o rosto e elevar discretamente os cantos dos lábios, sem forçar uma expressão de alegria.
Como praticar: solte a testa e a mandíbula e experimente a expressão por alguns instantes. Observe o que muda ou não muda. Se ficar artificial ou desconfortável, ajuste e retome a suavidade.
Exemplo: enquanto espera por algo que não pode acelerar, perceba a tensão no rosto e experimente relaxá-la. A situação pode continuar desagradável; a prática é diminuir a luta corporal com esse momento.
Mãos dispostas é uma postura de abertura: mãos relaxadas e palmas voltadas para cima, quando isso for confortável e adequado ao contexto.
Como praticar: sentado, apoie as mãos nas pernas com os dedos soltos. Em pé, permita que braços e mãos relaxem. Perceba a tendência de apertar os punhos e experimente soltá-los.
Exemplo: ao receber uma notícia frustrante, você nota as mãos fechadas. Abri-las por alguns instantes pode acompanhar a decisão de reconhecer o que aconteceu e pensar no próximo passo. Você não precisa gostar da notícia para praticar.
Quando surgir “não vou aguentar”, tente perceber: “Estou tendo o pensamento de que não vou aguentar”. Observe a frase como um acontecimento da mente e volte a notar o ambiente ou a atividade que está fazendo. Ter um pensamento não obriga você a agir de acordo com ele.
Como praticar: note quando uma frase ou imagem aparece, dê a ela o nome de pensamento e observe como muda. Se começar a discutir mentalmente com ela, reconheça isso e volte ao presente.
Exemplo: antes de uma conversa, surge “vai dar tudo errado”. Você reconhece a previsão e pode continuar preparando o que deseja dizer, sem precisar eliminá-la primeiro.
Observe o pensamento e escolha a ação
Antes da conversa, você pode escrever “Minha mente está prevendo que vai dar errado” e voltar ao pedido que deseja fazer. Se passar vários minutos tentando provar que a previsão é falsa, observe que entrou em uma discussão mental. Retome algo concreto, como ler seu roteiro ou notar os objetos ao redor. Você pode deixar a pergunta sobre o futuro em aberto enquanto se prepara.
Anote no celular ou em um cartão:
Meu sinal de alerta: como percebo que estou perdendo espaço para escolher? Por exemplo: releio mensagens sem parar e começo a responder no impulso.
Minha primeira habilidade: escolha algo específico e viável. Por exemplo: usar STOP e deixar o celular sobre a mesa antes de escrever.
Meu apoio: pense em quem pode ajudar e como pedir. Por exemplo: “Estou muito agitado; você pode conversar comigo enquanto me organizo?”.
Minha retomada: quando houver mais condições, o que precisará ser resolvido? Talvez seja conversar, estabelecer um limite ou pedir ajuda para um problema prático.
Como saber se ajudou?
Observe o que você conseguiu fazer: adiou uma resposta impulsiva, pediu apoio ou atravessou um momento sem aumentar o prejuízo? Isso também conta como resultado, mesmo que a emoção não tenha desaparecido. Se a estratégia não ajudou, reveja a escolha e as condições de uso, de preferência com um profissional.
Estas habilidades são recursos de curto prazo e práticas de aceitação. Elas se somam à resolução de problemas, ao cuidado com as emoções e às habilidades de relacionamento. Viver apenas se distraindo das dificuldades pode impedir mudanças importantes.
Se houver risco imediato de você se machucar ou machucar alguém, busque atendimento de urgência e apoio de uma pessoa de confiança. Uma página educativa não substitui avaliação e cuidado profissional.
Alguns pensamentos voltam tantas vezes que parece necessário resolvê-los imediatamente. No material “Mente de Teflon”, a imagem de uma superfície antiaderente ajuda a experimentar outra relação com o que aparece na mente: perceber o pensamento sem precisar acompanhá-lo em todas as direções.
Uma prática breve, em um momento de menor intensidade:
1. Note o que está aparecendo. Pode ser uma lembrança, uma crítica ou uma antecipação.
2. Descreva em uma frase: “Neste momento, estou notando o pensamento de que…”.
3. Imagine esse pensamento passando por uma superfície lisa. Observe também sons, sensações e outras experiências que surgirem.
4. Se ele continuar presente, reconheça isso. Você pode retomar a atividade sem esperar que sua mente fique vazia.
A metáfora serve como apoio à observação. Se o pensamento “grudar”, não é preciso tentar descolá-lo à força. O objetivo é praticar uma resposta menos automática ao pensamento, sem usar o exercício para ignorar um problema que pede cuidado ou ação.
No material completo, a leitura dialoga com o filme “Up! Altas Aventuras” e apresenta outras propostas de prática. Aqui você experimentou uma adaptação breve de uma delas.
Este é um exemplo dos materiais de prática do DBT Hub, com Leticia Lopes e Loren Beiram. O programa reúne aulas gravadas, fichas e atividades, com liberação ao longo de 16 semanas e um ano de acesso para assistir e retomar.
Material educativo. Em uma situação de risco imediato, priorize atendimento de urgência; o curso não é um serviço de emergência.