Orquestra Sinfônica da Rádio do Norte da Alemanha, Günter Wand - 1987
A fama chegou tarde para Günter Wand. Ele passou quase trinta anos como diretor musical em Colônia, respeitado e discreto, um mestre-de-capela da velha escola, que exigia repetidos ensaios e se recusava a gravar qualquer obra que não tivesse experimentado no palco. Só depois dos 70 anos, à frente da Orquestra da NDR, a Rádio sediada em Hamburgo, foi que o mundo o descobriu, e ele viveu até os 90 como um dos últimos guardiães da tradição germânica. Gravou as 9 Sinfonias de Beethoven uma única vez, no fim dos anos-1980, e nunca quis repetir o feito: ciente de que não havia como fazer melhor, não cedeu aos apelos comerciais das gravadoras. Esta Oitava é burilada com perfeição. Wand coloca cada camada de sonoridade da orquestra em perfeita posição, sem deixar acontecer o efeito de massa que encobre certas nuances na maioria das leituras: os tímpanos, por exemplo, soam vigorosos e transparentes, como integrantes do conjunto sinfônico e não um trovão cortante vindo de fora. Há um trecho no primeiro movimento no qual Beethoven arma uma grande tensão, e, quando o tema principal retorna, ele volta nos violoncelos e contrabaixos, e isso quase sempre é soterrado pela orquestra inteira. Aqui você ouve, nitidamente.
Encantamento e humor, com a melhor tradição:
Orquestra Filarmônica de Viena, Pierre Monteux - 1959
É sempre bom lembrar que a primeira tradição de interpretação das Sinfonias de Beethoven nasceu em Paris, logo depois da morte do compositor, quando François Habeneck criou a Orquestra da Sociedade de Concertos do Conservatório para executar as 9 Sinfonias em ciclo. Pierre Monteux é parte dessa tradição em genealogia direta: Habeneck foi professor de Delphin Alard e este de Jules Garcin, que passou 32 anos dentro da orquestra de Habeneck, como músico e depois o sucedeu como seu regente titular; pois Garcin foi o professor de Monteux no Conservatório de Paris. O menino que, em 1889, assistiu ao seu professor reger a estreia da Sinfonia de César Franck seria, meio século depois, o guardião mais puro daquela tradição. Monteux tocou viola na estreia do Pelléas de Debussy, tocou um Quarteto de Brahms para o próprio Brahms (que teria dito que só os franceses tocavam a música dele direito, porque os alemães a tocam pesada demais) e regeu a estreia da Sagração da Primavera de Stravinsky, em 1913, no escândalo histórico. Foi aos 84 anos que ele gravou esta Oitava em Viena. Muitos intérpretes importantes de Beethoven nunca conseguiram alcançar a dose de humor de que a Oitava precisa. Ela olha para o passado, para Haydn, e isso pede leveza e graça. Monteux consegue, com a Wiener Philharmoniker no auge do sua sonoridade aveludada, destacar como poucos a alegria da partitura.
Velocidade limite, e todo o risco:
Orquestra Filarmônica Real de Londres, Hermann Scherchen - 1954
Hermann Scherchen nunca pisou em um Conservatório. Autodidata, começou como violista, ainda adolescente, em orquestras de Berlim. Estreou como regente em 1912, com o próprio Schoenberg à frente do seu Pierrot lunaire. Virou um símbolo da vanguarda do século 20, estreando obras de Webern, Berg, Varèse, Nono e Xenakis. Por repulsa ao regime, deixou a Alemanha de Hitler pela Suíça, onde, durante a Segunda Guerra, escondeu no próprio apartamento de Genebra um espião soviético caçado pelos nazistas. Nos anos-1950 montou um laboratório de pesquisa sonora e música eletrônica e escreveu um Tratado de Regência. Era um regente que gostava de correr riscos. Como intérprete, foi o primeiro a obedecer, ao pé da letra, o que Beethoven deixou para esta Sinfonia como marcações de metrônomo; marcações estas que a tradição sempre considerou impossíveis de tocar. Pois foi Scherchen, décadas antes do movimento originalista dos instrumentos de época, a gravá-la nessas velocidades, à frente da Royal Philharmonic Orchestra. O resultado é o Beethoven mais perigoso que você vai ouvir, sobretudo no finale, em um andamento vertiginoso no qual a articulação limpa do tema é fisicamente impossível, mas se sente os músicos agarrados ao pulso com unhas e dentes. E isso respeita o espírito da obra: a Sinfonia mais engraçada de Beethoven tocada como uma brincadeira inconsequente. Adrenalina pura.
O paradoxo da solenidade que vira leveza:
Orquestra Filarmônica de Munique, Sergiu Celibidache - 1995
Em 1945, com Berlim em ruínas e Furtwängler proibido de reger até o fim do seu processo de desnazificação, a Filarmônica de Berlim ficou acéfala: o interino, Leo Borchard, morreu baleado por engano por um soldado estadunidense. Quem assumiu a orquestra foi um desconhecido romeno de 33 anos, que acabara de vencer um concurso: Sergiu Celibidache. Comandou a Berliner por sete anos, dividiu o pódio com Furtwängler quando este voltou, e, na morte do mestre, em 1954, viu os músicos escolherem Karajan no lugar dele. Jurou nunca mais reger a Filarmônica de Berlim, e cumpriu isso por 38 anos... só voltou em 1992, a pedido do presidente da Alemanha. Nesse meio tempo, construiu uma das carreiras mais estranhas e fascinantes do século. Estudou budismo zen, pregava que a música só existe de verdade no instante da execução, e tinha verdadeiro horror à música gravada: recusou-se a entrar em estúdio e não permitia que os seus concertos fossem comercializados, porque, dizia, a experiência transcendental é impossível na reprodução artificial da música. Acontece que muitas de suas apresentações à frente da Münchner Philharmoniker — orquestra que dirigiu de 1979 até morrer em 1996 — eram transmitidos ao vivo pela rádio, que guardava os registros. Logo depois da morte dele, o capitalismo venceu, convencendo seu filho a liberar as gravações que ele mantinha desconhecidas, contrariando tudo o ele pregava em vida. Sorte nossa. Os tempi do Celibidache mais velho são muito mais longos e demorados que o normal. Nesta Sinfonia, isso vira vantagem e funciona magistralmente. A Oitava ganha, na leitura dele, dois elementos que talvez fossem impossíveis de juntar se os andamentos fossem rápidos: leveza e grandiloquência. Cada ideia musical tem o seu tempo para respirar, ouve-se cada detalhe, e a Münchner, com o som que ele lapidou ao longo dos anos, enche cada compasso de uma sonoridade imensa. A obra se revela por dentro. É a Oitava mais bonita para os meus ouvidos.
Rafael Fonseca
GUIA DOS CLÁSSICOS
TUDO O QUE VOCÊ QUERIA SABER SOBRE MÚSICA CLÁSSICA, MAS NÃO TINHA PARA QUEM PERGUNTAR.
E o melhor: a resposta vem de uma maneira que você entende!