Orquestra Filarmônica de Berlim, Ferenc Fricsay - 1960
A Sétima Sinfonia pode ser uma armadilha, embora se pareça uma festa. A obra se constrói por células rítmicas curtas, repetidas incessantemente, e o risco de cada interpretação é a monotonia. A genialidade de Ferenc Fricsay é fazer tudo cantar com naturalidade espantosa. Esse maestro húngaro — cujo legado de poucos registros é um manancial de perfeições — trazia o ritmo no sangue e este registro de 1960 com a Berliner Philharmoniker constrói um passo firme, dançante, e por cima dele cada seção da orquestra canta com arrebatamento. Tudo parece estar no lugar certo, com equilíbrio, os tempos justos sem correr nem arrastar. O segundo movimento, tão querido dos ouvintes, é o retrato disso: Beethoven escreveu ali duas melodias que caminham juntas dentro do mesmo tema, uma marcando o ritmo e outra cantando por cima, e muitos regentes deixam uma se sobrepor à outra; com Fricsay as duas transcorrem com o mesmo peso, e o movimento flui como um verdadeiro Allegretto, que determina um caminhar leve. Uma Sétima generosa, luminosa, com vigor quando necessário e encantamento de sobra.
Um divertimento de clareza clássica:
Orquestra Filarmônica Real de Londres, Thomas Beecham - 1959
A Sétima, aqui, olha para trás, para a graça e a clareza do classicismo, em um tempo em que a tradição mandava tocá-la com toda a grandiloquência germânica. Thomas Beecham podia se dar a esse luxo. Baronete inglês, herdeiro de uma fortuna feita pela indústria farmacêutica de seu pai, fundou do próprio bolso as orquestras com as quais trabalhou, incluindo esta Royal Philharmonic, criada por ele em 1946. Por isso, ele passou a vida regendo o que gostava, do jeito que gostava. E o território onde ele mais se destacou era consitu'do de música francesa pós-Romântica e o classicismo de Mozart e Haydn, cuja elegância com a qual ele os interpretava é, ainda hoje, notável. É esse tempero que ele derrama aqui: a leveza nos remete a Haydn, e um sabor mozartiano, danças elegantes e sorridentes, sem querer esculpir um monumento de mármore. Em 1959, recém-chegado aos 80 anos, Beecham consegue imprimir uma juventude extraordinária: as melodias respiram livres e leves. Vale notar o tratamento dado às trompas, que quando aparecem, rasgam o tecido sinfônico com alegria desvairada, se destacando como em nenhum outro registro gravado. Na sala de edição, ao ouvir o resultado do Scherzo, ele resmungou que aquilo soava como um bando de touros selvagens pulando, porém ao ouvir a gravação, se desmente o próprio autor da piada, o que se ouve é a alegria espontânea de um maestro que ousou se divertir com Beethoven.
Espiritualidade magnética:
Orquestra Filarmônica de Berlim, Wilhelm Furtwängler - 1943
Toda obra guarda, nas entrelinhas, algo de misterioso; em uma Sinfonia tão marcada pelo ritmo, trazer à tona essa qualidade invisível e meio sagrada é tarefa para poucos. A Sétima, nas mãos de Wilhelm Furtwängler, soa mais espiritual e humana que em qualquer outro registro. Esta gravação é ao vivo, captadaem 1943, na velha Philharmonie de Berlim, em plena guerra (o que justifica o som um pouco precário do registro). Duas semanas depois, a aviação aliada abriria sobre a capital alemã a sua maior ofensiva aérea e a Philharmonie viraria escombros. Esse espírito do tempo está aqui: Furtwängler faz a Berliner Philharmoniker ressoar algo de imaterial desde a introdução lenta, que se abre imensa, com cada acorde caindo como uma pergunta sem resposta; e quando o andamento rápido enfim chega, é como uma força da natureza que acabou de ser despertada. Furtwängler moldava o andamento de maneira orgânica, nunca como um metrônomo de pulso exato; em uma obra como esta, o risco de perder o batimento em uma bagunça pastosa é enorme, e é aqui que se revela o que só um gênio absoluto da batuta é capaz de fazer: revelar, envolver, sublimar. O segundo movimento vira um cortejo grave, de passo profundo. O finale recusa a disparada velocista que tantos regentes adotam e vira um jogo de acúmulo e tensão, até explodir em uma erupção imensa. É a obra repensada como o drama do invisível, transfigurada, exposta desde o seu interior.
Transparência sem concessões:
Orquestra Sinfônica de Londres, Antal Doráti - 1963
1963, Watford, arredores de Londres: a equipe da Mercury, o selo estadunidense que fez da transparência de som a sua missão, arma os microfones diante da London Symphony Orchestra, e Antal Doráti sobe ao pódio para registrar a Sétima Sinfonia mais direta e contundente que se pode imaginar. Muito se fala, na crítica especializada, da Sétima gravada por Toscanini em NOva York nos anos-1930; mas quando se depara com tal sonoridade, dada a precariedade das técnicas de gravação do período, a experiência acaba comprometida. Pois Doráti nos traz esse estilo interpretativo ultra-objetivo em um som do qual se extrai prazer. Ele se importava com o som gravado como pouquíssimos regentes de seu tempo, e aqui isso é metade da experiência: ouve-se a orquestra toda, camada por camada. A outra metade é a regência: seca, sem nenhum excesso. Essa nitidez revela as linhas dos violoncelos e contrabaixos que Beethoven escreveu cuidadosamente e que costumam chegar aos nossos ouvidos como um rumor indefinido, aqui se consegue perceber tudo em detalhe. O terceiro movimento, que tantas batutas fazem-no pesado, Doráti transforma em uma brincadeira sutil, o verdadeiro propósito de um Scherzo. O finale transcorre sob controle absoluto, talhado com precisão impressionante.
Solenidade cerimonial de uma despedida:
Orquestra Sinfônica de Boston, Leonard Bernstein - 1990
O Domingo, 19 de agosto de 1990, foi um dia cinzento e chuvoso em Tanglewood, a sede de verão da Boston Symphony. Fazia exatos 50 anos que um rapaz de 21 anos chamado Leonard Bernstein chegara àquele festival como aluno de regência de Serge Koussevitzky; agora, seis dias antes de completar 72, e 56 dias antes de morrer, ele subia ao pódio do anfiteatro que leva o nome de seu mestre, diante da mesma orquestra, para o que muitos na plateia já pressentiam: o último concerto de sua vida. As testemunhas descreveram o choque de vê-lo entrar com passo instável, desfigurado pela doeça que o levaria. A Sétima de Beethoven soou muito lenta e mais solene do que jamais aconteceu. Era uma despedida. No terceiro movimento da Sinfonia a plateia assistiu, consternada, a um acesso de tosse (apagado aqui pelos técnicos da gravadora), no qual ele regeu boa parte do trecho apoiado ao pódio, buscando ar, e por alguns compassos parou de conduzir, com a orquestra seguindo sozinha. Retomou a batuta, levou a obra até o fim, e deixou o palco completamente exaurido, no meio da ovação daquele público que o aplaudia furiosamente, de pé. Morreu, como escrito acima, 56 dias depois dessa apresentação. É uma Sétima de 45 minutos; nem mesmo Celibidache, célebre por ralentar, é mais lento, levando 43 minutos. A Sétima aqui é larga e grave como nenhuma noite normal produziria, regida por um intérprete que contaminava as orquestras com um magnetismo raras vezes superado. O finale desta obra, que a vida inteira Bernstein regeu como verdadeira festa, vira uma luta no sentido mais nobre da palavra, com contornos inesperadamente profundos onde sempre houve euforia. Bernstein poderia estar aqui com seu registro de 1978 à frente da Filarmônica de Viena, o mais belo que esta orquestra pôde produzir em sua existência. Ou com o eletrizante registro novaiorquino de 1958, cheio de ímpeto. POrém ouvir esta obra, tantas vezes tratada com correria por regentes velocistas, em seus limites de tempo e solenidade é mais que educativo. Ouça sabendo que vai encontrar andamentos lentíssimos, uma orquestra tocando por amor, e o testemunho de um gênio se despedindo da própria vida pela música.
Rafael Fonseca
GUIA DOS CLÁSSICOS
TUDO O QUE VOCÊ QUERIA SABER SOBRE MÚSICA CLÁSSICA, MAS NÃO TINHA PARA QUEM PERGUNTAR.
E o melhor: a resposta vem de uma maneira que você entende!