Quase meio século de convivência com a mesma orquestra, mais de mil vezes à frente dela entre o palco da sala de concertos e as noites de ópera: Karl Böhm e a Wiener Philharmoniker chegaram a esta Quarta comungando de uma afinidade muito próxima. Böhm coloca cada elemento com o cuidado de quem mede, meticulosamente, se está justamente encaixado. Ele toma a Quarta como obra grande, e a orquestra responde com cordas densas, tímpanos incisivos e os sopros encantadores, o que no movimento lento se pode sentir com maior ênfase. Tempos, contrastes, dinâmicas, tudo exposto com equilíbrio.
O poder do som:
Orquestra Filarmônica de Berlim, Herbert von Karajan - 1977
A introdução desta Quarta é um assombro: Karajan cria uma sensação de mistério, de antecipação do que está por vir, compreendendo o desejo de Beethoven de, com ela, criar um efeito sonoro de suspensão da respiração. É como se ele tirasse o som da escuridão e na transição para o Allegro jorrasse uma luz intensa e brilhante. Dos vários ciclos que ele gravou, é neste de 1977 que se sente isso com mais perfeição. A Berliner Philharmoniker estava no auge de sua sonoridade, aveludada e potente. É uma Quarta da grandiloquência, de virtuosismo orquestral puro.
Impulso incendiário:
Orquestra Filarmônica de Nova York, Leonard Bernstein - 1962
Leonard Bernstein, aos 43 anos, regia como quem tem pressa de viver. A introdução lenta vem na velocidade que o próprio Beethoven anotou na partitura,e o resultado é tensão. O Allegro, quando chega, explode. Bernstein foi discípulo de Koussevitzky, de quem herdou a emoção à flor da pele, e aluno de Fritz Reiner, que lhe incutiu o respeito à precisão. Nesta gravação as duas heranças trabalham juntas. Os acentos são contundentes, há lirismo quando necessário, os ritmos pendem para a rapidez. Ele voltaria a gravar a Quarta em Viena, no fim dos anos 1970, com tempos mais amplos e solenes. O fogo está nesta, com a New York Philharmonic: uma Quarta extrovertida, de sangue quente.
Magia e encantamento:
Orquestra Filarmônica de Viena, Wilhelm Furtwängler - 1952
O movimento lento desta gravação é um daqueles milagres que justificam o culto em torno da figura de Wilhelm Furtwängler: ele faz os sopros de flutuarem por cima das cordas, magicamente, o canto passando de um instrumento a outro como em uma reunião de fadas. Já na introdução da Sinfonia você perecebe o encantamento. Ele a conduz tão devagar e tão baixinho, mas provoca o ouvido com as oscilações ritmicas que não há a sensação de morosidade. Furtwängler tinha a convicção de que a música é uma força da natureza e esta Quarta, com suas brumas e seus súbitos raios de sol, é genial, simplesmente genial.
Leveza reveladora:
Orquestra da Academia "St Martin in the Fields", Joshua Bell - 2012
Um violinista... sentado na primeira estante, sem batuta, ele marca as entradas e toca junto. Joshua Bell gravou esta Quarta para o seu primeiro disco como diretor musical da Academia, cargo que só Neville Marriner, o fundador, tinha ocupado antes dele. Ele leva para a direção de orquestra o que tem como solista: as frases cantam. Por ser uma orquestra de câmara, de proporções reduzidas, esta leitura nos revela algumas coisas, detalhes que em uma orquestra grande somem na massa sonora. Além disso, é tocada com alegria de verdade.
Rafael Fonseca
GUIA DOS CLÁSSICOS
TUDO O QUE VOCÊ QUERIA SABER SOBRE MÚSICA CLÁSSICA, MAS NÃO TINHA PARA QUEM PERGUNTAR.
E o melhor: a resposta vem de uma maneira que você entende!