Ilustração da capa: https://pixabay.com/pt/illustrations/machado-de-assis-escritor-1404476/
Socorro Moura e Vitória Ancelmo
Não é de hoje que a alcunha bruxo ou bruxa remete aos que têm medo de alguém, e claro esse alguém desconhecido. Que dirá a Bruxa do 71 do seriado mexicano A Turma do Chaves. No imaginário dos moradores da vila - e de todos que assistiam a série - naquela casa que ninguém ousava entrar, habitava uma senhora com seu caldeirão de magias, em que as mais ardilosas malvadezas eram confabuladas por ela. Ops, na mente de quem vê, porque nada era comprovado! A imaginação à espreita também fez parte de um capítulo da vida de Machado.
Lenda por lenda, ele tinha a dele. Quando morou por vários anos na rua Cosme Velho, as más línguas - ou apenas línguas criativas - diziam que ele utilizava-se de caldeirão de bronze para queimar cartas, manuscritos antigos, escritos que não utilizaria mais. O peso do bruxo permaneceu, mas nada como um poeta para eternizar com doçura e amor, uma parte bem cômica da vida de Machado, afinal quem nunca teve uma vizinhança inventiva? Ou quem nunca criou fanfics com a tia que catava a bola e não devolvia?
“A um bruxo, com amor”. Assim, com esse poema, Carlos Drummond de Andrade eternizou o epíteto “ Bruxo do Velho Cosme., porque afinal…
“…onde o diabo joga dama com o destino,
estás sempre aí, bruxo alusivo e zombeteiro,
que resolves em mim tantos enigmas”.
Resolve uns e cria tantos outros. Valeu, Drummond!
Os personagens da nossa história são muitos, diversos e mais que interessantes. Mas ainda assim a inclusão da literatura nos ensinos básico e secundário se deu apenas no século XIX. No entanto, apesar de "jovem", se comparada às outras esferas e disciplinas, a literatura brasileira tem um legado rico e diverso, com grandes nomes na sua história, dentre eles, um dos mais destacados, foi Machado de Assis. Sua literatura, marcada por ser mais rebuscada, é trabalhada até hoje nas escolas. Mas é, a partir daí, que surgem os seguintes questionamentos: os alunos estão realmente interessados em literatura clássica? Eles concordam ou discordam com a obrigatoriedade do ensino da literatura Machadiana?
Toda essa questão veio à tona recentemente, após a polêmica gerada pelo youtuber Felipe Neto no twitter, que se posicionou de modo a fazer muitos internautas se indignarem e muitos se questionarem se realmente o ensino dos clássicos de Machado de Assis deveria estar incluso nas escolas.
Mas, para se ter um entendimento geral de tudo, o principal, para início de conversa, é saber: Quem é esse tal Machado de Assis?
De origem simples e neto de escravos libertos. Mesmo tendo a função burocrática como meio seguro para sobrevivência e com acesso limitado à educação, a paixão pela leitura fez de Machado de Assis um jornalista e tão logo escritor. O primeiro romance publicado foi Ressurreição (1872), seguido por A mão e a Luva (1874), correspondentes de uma época com escritos com características do Romantismo. Ali já despontava aspectos que também o afastava dessa escola, pois contava com obras menos descritivas e também personagens em que o amor não traduzia por inteiro as personalidades. De fato, foi com Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) que sua carreira literária deu uma guinada, o que não quer dizer que ele não seja lembrado pelo conjunto da obra, e os vários gêneros literários que possuem um dedinho seu. Afinal , quem não se viu em altas discussões sobre “Capitu, traiu ou não Bentinho?(Dom Casmurro,1889). Responda você!
Esse é o seu poder de sua escrita, seja pelo defunto crítico ou pela adúltera - ops, será se era mesmo - que Machado move mundos e ainda hoje é aclamado como um dos principais , não só quando pedem-se referências nacionais, como também aqui no Brasil, quando ainda é solicitado nos vestibulares de quase todo o território. E pelo mundo afora, segundo a Unesco, estima-se que possuem cerca de 99 traduções para seus escritos. Que bruxo será esse? Um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras e ocupante da 23º cadeira, o senso crítico quanto a natureza humana faz de suas obras item justificado para muitos como obrigatória. Um senso que não perdoa nem mesmo os mais ingênuos e apaixonados. Não se esqueça de Rubião de Quincas Borba(1891). Choca? Choca. Mas como não relacionar as relações de poder e interesses na nossa sociedade tão marcadamente hierarquizada a qual estamos inseridos? Lembra a você mais alguma coisa? O defunto, que tudo vê e observa, também pode te cancelar pelos privilégios que você insiste em não enxergar?
O bruxo, mais do que enfeitiçar, tem muito a nos ensinar.
De alguma forma, seja pelo ciumento Bentinho, o ingênuo Rubião, ou o ácido Brás Cubas visualiza-se a realidade espreita que automatizamos. Joaquim Maria Machado de Assis, o autor negro embranquecido, humilde e que não frequentou universidades, também não escreveria a sua melhor maneira sobre questões raciais? Só de pensar o que ele poderia achar de tudo isso já nos coloca para pensar, pois por mais que transparecessem em suas obras um mundo como ele é, ainda segundo biografias ao seu respeito, as últimas palavras que proferiu antes de sua morte foi “A vida é boa”. Parecem termos de um resiliente, mas em tratando-se de Machado, fica a pergunta se não passa de mais uma ironia. Nunca saberemos.
Não há consenso sobre quando deve-se introduzir a leitura de clássicos na vida de crianças e adolescentes. Não faltam exemplos de exceções à regra - mas que ainda são apenas exceções - que consomem desde a tenra idade, não só Machado de Assis, mas diversos outros autores. O fato gera uma grande discussão, quando a leitura torna-se obrigatória. Mesmo com crescentes índices de abstenção - segundo Mundo UOl Educação, a ausência no 2º dia saltou de 27,19% em 2019, para 55,3% em 2020 - o vestibular ainda é a principal forma de acesso ao ensino superior em que milhares de jovens prestam o Enem para o ingresso em universidades de diversos estados do Brasil. Assim, a ideia do que deve ser oferecido aos alunos do ensino médio permeia-se de um estrutura rígida e que foi posta em cheque pela figura do influencer.
O debate dividiu opiniões. Colocando algumas vezes professores e alunos do mesmo lado, afinal há consenso sobre a importância do autor, mas quando apostos na sala de aula, as dificuldades surgem e os contra argumentos são explorados. Segue alguns twitters em resposta ao post do influencer:
[...] “Entendo o que ele diz. A minha filha adolescente adora ler, mas ela quer escolher suas coisas.Ela detesta os livros que a escola dá mas fez seus ciclos literários:de qdo era pequena c/ Harry Potter, até Riordan, Cassandra Claire e agora a Leigh Bardugo.Em liberdade, amaräo Machado”.
Ou ainda…
[...] “eu tenho dislexia, o máximo que eu fazia era ler resumo desses livros e fingir que li tudo por que não entendia meia palavra”.
Segue mais uma postagem em resposta:
[...] “Já apanhei por defender isso. Machado aos 14 anos te afasta dos livros. Primeiro os contemporâneos, leituras menos densas, com linguagem e histórias mais relacionadas à realidade atual. Pra que sejam picados pela mosquinha. Se apaixonar por Machado, depois, é consequência”.
Mas não pode-se deixar de pontuar que nesse universo midiático e polarizado, há os que discordam também de Felipe Neto. Em uma análise superficial, parecem maioria. Seguem:
[...] “o problema da literatura no brasil é q é introduzida mt tarde e muita gente chega analfabeta funcional no ensino médio, nao tem nada a ver com machado ou eça ou qualquer outro...”
Mais…
[...] “Gente, mas a escola não passa esses livros pros alunos criarem hábito de leitura, passam pq esses livros pra aprender sobre o movimento literário e pq cai no vestibular???? Tipo???? Vc não tem dois neurônios????”.
Ácido. Suscita outras discussões. Segue um último:
[...] “ah e mais um comentário sobre isso: ler literatura brasileira clássica não serve só pra aprender sobre os movimentos literários, mas também pra compreender a sociedade brasileira num geral. vai muito além de só aprender as características do romantismo/realismo”.
As redes sociais são termômetros para os humores, mas ainda são apenas opiniões dadas a esmo e sem muitas referências, permeadas de sentimentos e paixões. De qualquer forma, segundo dados da 5º edição da pesquisa Retratos do Brasil, nos últimos 4 anos o Brasil perdeu 4,6 milhões de leitores, dos quais registram maiores índices entre as camadas mais ricas e com curso superior. Quando levamos mais para os estudantes de ensino médio e postulantes a leitores de Machado de Assis, o que a pesquisa revela é um obstáculo, que apesar de perceptível, quando constatado traz surpresas: o aumento das redes sociais nas horas vagas - WhatsApp passou de 43% para 62%.
Para cada um de três entrevistados, o equivalente a 34%, opinaram sobre alguém que o estimulou a ler. Professores estão em primeiro lugar, com 11%. Em segundo lugar, a mãe ou responsável do sexo feminino, com 8%, e por fim, está o pai, responsável do sexo masculino ou algum outro parente apontado por 4%. Perpassa sobre questões da leitura também ser uma ação em conjunto entre famílias e escola, e não apenas um ônus para colégio, por exemplo.
Sobre o assunto, conversamos com Rômulo Aranthes, professor de literatura da rede particular de ensino em Teresina, Fortaleza, Recife e Brejo Santo. Para o assunto, ele tem por experiência seus anos como docente e nos faz as seguintes observações:
“ O Ensino de literatura para o Ensino médio no Brasil é pragmático e deve em primeira instância desenvolver capacidade leitora de tal sorte que a leitura de clássicos é o caminho sem volta para que o aluno tenha condicionamento para enfrentar provas complexas como o teste do Enem”.
Em seguida, entra na questão tão debatida entre pais, alunos e professores:
[...] A leitura dos clássicos é necessária para as crianças - adaptadas, para adolescentes e adultos. A questão é a apresentação do texto: adequar a leitura ao grau cognitivo. [...] Um adolescente precisa discutir tais temas, mas na linguagem dele, ou seja, o professor precisa contextualizar como um menu degustação e depois vai apresentando a riqueza linguística e estilística. O erro é passar textos tão aprofundados quanto ao comportamento humano para criança. Não vai dar certo”.
O professor afirma diversificar seu modo de ensino para estabelecer conexão com seus alunos. Porém, também traz para a conversa, pontos para reflexão e autocrítica do alunado:
[...] “Em relação ao ensino médio, que é a última etapa da educação básica, as leituras, elas precisam ser leituras técnicas, profissionais. Não significam dizer que não são interessantes. Quem determina o nível de interesse é o próprio leitor. E esse leitor, se ele não tiver fôlego, se ele não tiver condicionado, ele sempre vai ser um leitor flutuante e nada vai interessar além das leituras infantis, infanto juvenis. [...] Tais discentes precisam ser desafiados”.
E não descarta as opções de lazer com as escolhas pessoais de cada um.
[...] “Isso não exclui a leitura de autores pós modernos ou contemporâneos, muito menos leitura comercial. Não, é bom ler tudo! Mas se essas leituras comerciais, elas já são oferecidas em outras modalidades, como televisão, como cinema, séries...os alunos, eles são submetidos a séries nos momentos de lazer. Não vai ter nenhum momento que esse aluno terá que fazer leituras substanciais de textos atemporais interessam muito”.
No começo do texto, há uma suposição a possível reação de do velho Bruxo a questões raciais. O professor também faz inferências quanto a reação de Machado a polêmica levantada pelas redes a atual de adoção de suas obras nas escolas e vestibulares:
[...] “A pergunta é: e se o Machado de Assis estivesse vivo, como ele reagiria a esse tipo de comentário? Ele reagiria com a Pena da Galhofa e a Tinta da Melancolia, ou seja, ele faria piada, ele faria brincadeira, como ele curtiu da cara, por exemplo, daqueles que, na metade do século XIX, se sentiam os donos da verdade. [...] Eu posso até imaginar como Machado de Assis poderia, por exemplo, brincar e com muito humor e com muita maturidade sobre esse tipo de comentário…”
Você tem dúvidas?
FONTES PESQUISADAS:
O que tem sido feito em termos tecnológicos para engajar e democratizar a leitura para este público tão jovem e diverso?
Por Lilith Rêgo
Imagem - Arquivo Pessoal
Ouça o Grupo Manga fazendo altas reflexões sobre este assunto que bombou nas redes e no nosso podcast!
Roteiro e direção - Thaís Vilarinho
Capa podcast - Lilith Rêgo