24/07/2026
A crescente informatização das atividades de trabalho fez com que milhões de pessoas passassem grande parte da jornada em frente ao computador. Embora esse tipo de atividade apresente menor risco de acidentes graves quando comparado às atividades industriais, a permanência prolongada na posição sentada e a utilização inadequada do mobiliário e dos equipamentos podem favorecer o desenvolvimento de desconfortos musculoesqueléticos, fadiga e doenças relacionadas ao trabalho.
Nesse contexto, a ergonomia desempenha um papel fundamental na identificação e na prevenção desses riscos. Entre as diversas ferramentas utilizadas pelos profissionais da área, destaca-se a ROSA (Rapid Office Strain Assessment), um método observacional desenvolvido especificamente para avaliar postos de trabalho administrativos que utilizam computadores.
Neste artigo, você entenderá o que é a ROSA, como ela funciona, onde pode ser aplicada, quais são suas vantagens, suas limitações e como interpretar seus resultados.
A Rapid Office Strain Assessment (ROSA) é uma ferramenta de avaliação ergonômica criada pelos pesquisadores Michael Sonne, Diana Villalta e David Andrews, publicada em 2012 na revista científica Applied Ergonomics.
Seu principal objetivo é identificar fatores de risco ergonômicos relacionados ao mobiliário e aos equipamentos utilizados em ambientes administrativos, permitindo que empresas e profissionais realizem melhorias antes que ocorram problemas de saúde ocupacional.
Diferentemente de métodos como RULA (Rapid Upper Limb Assessment) e REBA (Rapid Entire Body Assessment), que concentram sua análise principalmente nas posturas adotadas pelos trabalhadores, a ROSA direciona sua atenção ao próprio posto de trabalho, avaliando se cadeira, monitor, teclado, mouse e telefone estão corretamente ajustados às necessidades do usuário.
Em outras palavras, a ferramenta busca responder à seguinte pergunta:
O ambiente de trabalho está favorecendo uma postura saudável ou está contribuindo para o surgimento de lesões musculoesqueléticas?
A ferramenta foi desenvolvida para identificar rapidamente fatores de risco relacionados à organização física do posto de trabalho.
Sua aplicação auxilia na prevenção de diversos problemas, como:
dores cervicais;
dores lombares;
dores nos ombros;
tendinites;
síndrome do túnel do carpo;
LER/DORT (Lesões por Esforços Repetitivos e Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho);
fadiga muscular;
desconforto postural.
Além disso, a ROSA auxilia na priorização das intervenções ergonômicas, permitindo que empresas identifiquem quais postos necessitam de ajustes com maior urgência.
A ROSA é uma ferramenta de avaliação observacional.
Isso significa que o avaliador analisa o posto de trabalho enquanto o trabalhador executa suas atividades normalmente, sem necessidade de equipamentos sofisticados ou medições complexas.
Durante a avaliação, diversos aspectos são observados, incluindo:
regulagem da cadeira;
posicionamento do monitor;
utilização do telefone;
localização do teclado;
posição do mouse;
postura adotada durante o trabalho.
Cada item recebe uma pontuação conforme o nível de adequação às recomendações ergonômicas.
Posteriormente, essas pontuações são combinadas em tabelas específicas da metodologia, gerando um escore final de risco.
Quanto maior a pontuação obtida, maior é a necessidade de intervenção ergonômica.
A metodologia divide a avaliação em três grandes grupos.
Esta etapa avalia o principal elemento do posto de trabalho: a cadeira.
São analisados:
altura do assento;
profundidade do assento;
apoio para os braços;
apoio para as costas e região lombar.
Uma cadeira mal ajustada pode provocar aumento da carga sobre a coluna vertebral, compressão da região posterior das pernas, elevação dos ombros e sobrecarga muscular.
Nesta etapa são observados:
altura do monitor;
distância entre o monitor e o trabalhador;
alinhamento do monitor em relação ao corpo;
forma de utilização do telefone;
necessidade de inclinar a cabeça para atender ligações.
Esses fatores influenciam diretamente a postura cervical e dos ombros.
O uso frequente do telefone sem headset, por exemplo, pode levar o trabalhador a prender o aparelho entre o ombro e a cabeça, aumentando significativamente o risco de lesões.
A terceira etapa analisa:
posição do teclado;
altura da superfície de trabalho;
posicionamento do mouse;
alcance dos equipamentos;
apoio dos punhos.
Esses fatores interferem diretamente na sobrecarga dos membros superiores, principalmente punhos, antebraços e ombros.
A ferramenta foi desenvolvida para ambientes administrativos com utilização predominante de computadores.
Entre os principais locais de aplicação destacam-se:
escritórios corporativos;
departamentos administrativos;
call centers;
instituições financeiras;
universidades;
laboratórios administrativos;
hospitais (setores administrativos);
repartições públicas;
home office;
coworkings.
Também pode ser utilizada em auditorias ergonômicas, programas de ergonomia, Análises Ergonômicas do Trabalho (AET) e processos de adequação à NR-17.
A popularidade da ROSA deve-se principalmente à facilidade de aplicação e à qualidade das informações fornecidas.
Entre suas principais vantagens estão:
A avaliação pode ser realizada em poucos minutos por posto de trabalho, permitindo analisar um grande número de trabalhadores em um curto período.
A utilização de critérios objetivos reduz a subjetividade da avaliação e facilita a comparação entre diferentes postos de trabalho.
A aplicação não exige equipamentos sofisticados nem softwares específicos, tornando o método acessível para empresas de diferentes portes.
Os resultados são apresentados por meio de uma pontuação final que permite identificar rapidamente o nível de prioridade para intervenção.
Ao contrário de outras ferramentas ergonômicas mais generalistas, a ROSA foi desenvolvida especificamente para ambientes informatizados, contemplando aspectos como monitor, teclado, mouse e telefone.
A identificação precoce de inadequações permite corrigir problemas antes que ocorram afastamentos ou doenças ocupacionais.
Apesar de sua ampla utilização, a ROSA possui algumas limitações que devem ser consideradas durante a interpretação dos resultados.
A ferramenta não considera aspectos como:
carga de trabalho;
pressão por produtividade;
pausas;
ritmo de trabalho;
fatores psicossociais.
Esses elementos podem influenciar significativamente o aparecimento de LER/DORT.
A ROSA é uma ferramenta de triagem.
Ela identifica postos com maior probabilidade de risco, mas não substitui uma avaliação ergonômica completa, especialmente quando exigida por normas legais ou quando há trabalhadores com queixas persistentes.
Sua aplicação é limitada a ambientes administrativos.
Ela não foi desenvolvida para:
atividades industriais;
movimentação manual de cargas;
construção civil;
agricultura;
atividades hospitalares assistenciais;
trabalho em pé.
Nesses casos, outras ferramentas, como RULA, REBA ou OWAS, costumam ser mais indicadas.
A pontuação obtida representa apenas o nível de exposição aos fatores de risco.
Ela não confirma a existência de doenças nem substitui avaliações médicas ou fisioterapêuticas.
Após a avaliação, a ROSA gera uma pontuação final que representa o nível de risco ergonômico do posto de trabalho.
De forma geral, quanto maior a pontuação, maior é a probabilidade de que o posto esteja contribuindo para desconfortos e lesões musculoesqueléticas.
Os resultados são utilizados para priorizar intervenções, permitindo que empresas concentrem seus esforços nos postos com maior necessidade de adequação.
É importante destacar que o resultado deve sempre ser interpretado juntamente com outros fatores, como:
tempo diário de exposição;
frequência de utilização do computador;
existência de pausas;
histórico de queixas dos trabalhadores;
características individuais;
observações realizadas durante a avaliação.
A ferramenta é especialmente indicada quando:
trabalhadores permanecem sentados durante grande parte da jornada;
há uso intenso de computador;
existem reclamações frequentes de dores musculoesqueléticas;
a empresa pretende revisar seus postos administrativos;
estão sendo realizadas ações de ergonomia previstas na NR-17;
deseja-se priorizar investimentos em melhorias ergonômicas.
A ROSA consolidou-se como uma das principais ferramentas para avaliação ergonômica de ambientes administrativos por combinar rapidez, simplicidade e fundamentação científica.
Sua aplicação permite identificar inadequações no mobiliário e nos equipamentos antes que elas evoluam para problemas de saúde ocupacional, contribuindo para ambientes de trabalho mais seguros, confortáveis e produtivos.
Entretanto, seus resultados devem ser interpretados de forma integrada, considerando também aspectos organizacionais, características dos trabalhadores e, quando necessário, avaliações ergonômicas mais abrangentes.
Utilizada corretamente, a ROSA torna-se uma importante aliada de engenheiros de segurança, ergonomistas, fisioterapeutas, médicos do trabalho e demais profissionais envolvidos na promoção da saúde ocupacional, oferecendo informações confiáveis para orientar intervenções e apoiar a tomada de decisões em programas de ergonomia.