por Gregório Unbehaun Leal da Silva
Vivemos tempos polarizados, não sou eu que digo apenas. Em 'Biografia do Abismo', Felipe Nunes e Thomas Traumann apontam um cenário enraizado de polarização no Brasil entre lulistas e bolsonaristas. Mas como ficam as eleições de 2024 nas cidades do Alto Vale (ou de outras regiões) de tamanho reduzido e com clara predileção em relação a um dos lados da polarização (nesse caso, muito fortemente pró-Bolsonaro)?
No contexto das eleições municipais de 2024 em cidades do Vale do Itajaí, onde não há segundo turno devido ao número reduzido de eleitores (é o caso de todas do Alto Vale) , diversos fatores além da polarização política nacional podem influenciar o cenário eleitoral.
1. Candidaturas Locais: Além das posições em relação aos atores polarizadores no cenário nacional (Lula x Bolsonaro), a presença de candidatos com forte inserção e identificação local pode impactar significativamente o resultado das eleições. Candidatos com histórico de serviço à comunidade ou com propostas direcionadas aos problemas específicos da região tendem a angariar votos independentemente da polarização nacional.
2. Questões Municipais: As demandas e desafios locais, como infraestrutura, saúde, educação e segurança, são temas centrais nas eleições municipais. Candidatos que apresentam soluções concretas e viáveis para essas questões têm maior apelo junto aos eleitores, muitas vezes superando as preferências ideológicas nacionais. A região do Alto Vale, tem uma temática a mais que complexifica ainda mais o cenário: "Como os eleitores vão incorporar a questão das cheias e enchentes seus cálculos na hora de vota?"
3. Participação dos Eleitores: A mobilização e participação ativa dos eleitores também desempenham um papel crucial. Em cidades menores, onde o contato direto com os candidatos é mais comum, a proximidade com a população e a capacidade de engajamento podem ser determinantes para a vitória eleitoral
4. Histórico Político-Partidário: O histórico político e partidário da região também influencia. Em algumas localidades, determinados partidos ou grupos políticos possuem uma base sólida de apoiadores, o que pode favorecer candidaturas alinhadas a esses interesses locais, mesmo que não estejam diretamente relacionadas à polarização nacional. Pensem no miltismo em Rio do Sul, como exemplo.
5. Alianças e Estratégias: As alianças entre partidos e candidatos, bem como as estratégias de campanha adotadas, são fatores determinantes. Candidatos que conseguem formar coalizões sólidas e ampliar seu espectro de apoio tendem a ter vantagem competitiva, mesmo em um cenário polarizado.
Portanto, a dinâmica eleitoral em cidades do Alto Vale do Itajaí sem segundo turno é influenciada por uma combinação de elementos, que vão desde as questões locais até as dinâmicas políticas nacionais, refletindo a complexidade e diversidade do processo democrático em nível municipal.
Disputa Entre Apoiadores de Bolsonaro: Em um contexto onde a maioria dos candidatos se alinha ao ex-presidente Bolsonaro, é provável que haja uma divisão dos votos dentro desse espectro político. Cada candidato buscará conquistar a base eleitoral que apoia o presidente, apresentando propostas alinhadas com o ex-capitão e destacando sua afinidade ideológica com Bolsonaro. A Complexidade aumenta: Alguém que se coloque como mais "moderado" entre os bolsonaristas, pode obter apoio daqueles cansados da polarização. Mas esse mesmo candidato pode ser encarado como fraco em seu comprometimento com os bolsonaristas. Há, portanto, desafios nessa "rinha de bolsonaristas" que deve ser as eleições nesses cenários.
Candidato Contrário a Bolsonaro: No mesmo cenário, pode haver um candidato que se posiciona de forma contrária ou reticente ao ex-presidente, representando uma visão política oposta a de seus adversários. Esse candidato pode contar com o apoio da parcela do eleitorado que não se identifica com Bolsonaro e busca uma alternativa política na esfera municipal. Ou ainda pode obter apoio daqueles cansados da polarização.
Dinâmica Eleitoral: A dinâmica eleitoral dependerá da capacidade dos candidatos em mobilizar seus eleitores e conquistar o voto de indecisos. Candidatos alinhados a Bolsonaro podem contar com uma base sólida de apoiadores, mas também enfrentarão a concorrência interna dentro desse campo político. O candidato contrário a Bolsonaro buscará consolidar seu eleitorado e atrair votos de descontentes com o cenário polarizador nacional.
Estratégias de Campanha: As estratégias de campanha serão essenciais para cada candidato. Os que apoiam Bolsonaro buscarão destacar seu alinhamento com o mesmo. Já o candidato contrário a Bolsonaro poderá enfatizar sua posição como aliada ao governo Lula e suas propostas alinhadas com a agenda nacional (inclusive com acesso à recursos), propondo medidas que representem uma mudança de rumo na esfera municipal. Poderá também optar pela crítica aos dois lados, tentando obter dividendos eleitorais dos "cansados" da polarização. Em uma eleição com muitos candidatos, essas diferentes estratégias poderão "bastar".
O histórico eleitoral e o peso bolsonarista nas eleições da região já foram destacados em análises anteriores deste site, navegue no menu geral do conteúdo da região para ter acesso a esse vasto conteúdo.
Por fim, é importante considerar que o eleitor pode mobilizar seu sentimento em relação à polarização nacional ou direcionar sua preocupação para temas locais, como enchentes, condições das estradas e dos serviços municipais, como escolas e saúde. Dessa forma, o eleitor pode ficar dividido sobre quais questões priorizar: as nacionais ou as locais.
Nesse contexto, cabe aos candidatos serem hábeis em captar qual é a questão chave para o eleitor decisivo. O desafio não será fácil, pois sem segundo turno, o resultado pode ser incerto, e é comum neste cenário que alguém seja eleito com menos de 50% dos votos.
Será que eu previ corretamente o resultado eleitoral de Rio do Sul/SC, ou foi apenas coincidência? Veja mais na previsão eleitoral que fiz de uma certa cidade que chamei de 'Hypothetica do Sul':