Aqui nossos mediadores convidados escrevem sobre os dias no Festival DUO - Poesia e Performance. Confira abaixo:
Dia 3 - 06/06_Obra de Gonçalo Antunes, Fotografia de Raquel Pimentel
Fazendo mediação, sem saber o que isso quer dizer :)
Ou seja: mediador é o que ou pessoa que serve de intermediário, promovendo o acordo entre partes em conflito e estabelecendo o diálogo; árbitro
Neste caso, o acordo vem da essência deste encontro, o conflito não tem esta morada,
eu aqui sou só uma espectadora!
Festival Duo, Maria Giulia Pinheiro, Fernando Kahombo e Filipe Homem Fonseca.
O lugar de encontro de todo o mundo e do mundo todo, SLAM, que acontece na Biblioteca de Alcântara, é um lugar de força, resiliência, daqueles que não pede por favor para fazer acontecer, existir. Esse é o lugar da Máju, a verdadeira mediadora da porra toda!
Ela sabe da urgência que há em criar espaços para a fala, para as "línguas portuguesas", tantas, várias e ostracizadas pelo acordo ortográfico.
A liberdade existe nestes encontros que nos são proporcionados e, para além do Slam, que já existe há sete anos, acontece agora noutro formato, o festival. Porque é difícil o slam entrar em lugares institucionais, mas a gente dá a volta, como sempre! Resiste, insiste e reinventa.
Este duo que aconteceu no dia 6 de junho, foi performático, bastante musical e, como não poderia deixar de ser, poético.
O Fernando Kahombo, apresentou Tera-spoken-pia. Falou, cantou, gemeu, gritou e emocionou.
Dividida em actos, personagens, todas ele, todas nós. Foi muito interessante puxar para o espaço público uma sessão de terapia. Expor os problemas, dúvidas existenciais e sociais de peito aberto.
É um lugar este que me provoca várias sensações; por achar que é valiosa, esta "nova" medicina da alma, é também aqui que acho muito perigoso a terapia passar a ser "vital" para todos. Da Tera-Spoken-Pia, veio-me à memória o simples encontro, o desabafo a uma mesma mesa. O lugar que todos habitamos dos nossos problemas e como lidamos com eles, neste agora.
Não sou contra a terapia, mas sou a favor de que não nos esqueçamos de que somos capazes também de nos "terapizar", sozinhos, com amigos, desconhecidos e até inimigos, sem de receitas médicas precisar. Obrigada, Fernando, pelo querer e verdade com que nos presenteaste naquela tarde de terapia artística; é bom arrepiar, chorar, rir em grupo, foi uma verdadeira terapia! Vida longa ao spoken do Kahombo!
Mais Vale cedo, que Sempre, Filipe Homem Fonseca. Homem com guitarra, loops esquecidos e todo ele literatura.
É privilégio ouvir do autor as suas próprias palavras, deixando de haver menos uma tradução. Corre no Filipe a vontade, que é sempre o mais importante de tudo, a grande humildade, a motivação que vem do lugar da construção.
É difícil escrever sobre um amigo, não quero nada aqui dizer que se esqueceu de tirar a barra do play do vídeo, (para a próxima já sabes, é só puxar a seta para fora do ecrã).
Foi uma performance de alguém que muito admiro que, de toda a sua imensa experiência na escrita, na escuta, na música, deixa sempre que o sentimento, a vulnerabilidade apareça, para assim não representar, mas de facto apresentar. Foi com muito humor que de assuntos de intervenção se trataram, é muito difícil falar de coisas tão complexas de uma maneira tão simples. É genial!
Da runião às supostas reuniões, do olhar da velha, das trends que comem tudo e não deixam nada, à simples razão de existir. É mesmo sem merdas que a poesia acontece e permanece na boca dos verdadeiros.
E no fim disto tudo, o abraço entre os dois artistas da tarde, correndo espaço para continuar, começar e inspirar.
Saravá Maju!
Patricia Relvas
Patricia Relvas é licenciada pela escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha em Design de Cerâmica e Vidro. Da modelação de matéria passa à modelação do som, começando a sua jornada ao serviço da música, num ambiente académico, em 2007 faz erasmus em Birmingham Institute of Creative Arts, e em 2009 muda-se para Berlim, onde inicia o projecto musical Lavoisier com Roberto Afonso. Em 2011 fundou a galeria e sala de concertos João Cocteau em Berlim, onde foi programadora até 2013. Em 2012 edita o seu primeiro trabalho fonográfico "lavoisier", recebe dois apoios do Instituto Camões para apresentações do projecto musical pela Alemanha, participando em colóquios sobre a língua portuguesa nas Universität Hamburg, Rostock e Heidelberg. Voltando para Portugal em 2014 edita o EP "De Eus para mim..." e o álbum "Projecto 675" gravados por José Fortes. Em 2015 participa em duas peças de teatro de João Garcia Miguel, compondo e interpretando nos Teatros Nacionais S. João e D. Maria II. Em 2018 colabora no disco do músico alemão Daniel Hacksmann “ With love from Berlin”, e no álbum do músico brasileiro Vinicius Terra “Para a Lusofonia nasce um novo dia”, participa na edição da Feira Literária Internacional de Paraty (FLIP). Em Novembro de 2019 apresenta o trabalho fonográfico “Viagem a um reino maravilhoso” Miguel Torga por Lavoisier. Realizou vários trabalhos de comunidade, coordenando e trabalhando com a Banda Filarmónica " Os Bazófias" e "Orquestra fantástica do futuro" alunos do conservatório de Vila Real. Em 2022 participa nos últimos concertos de Fausto Bordalo Dias, na apresentação dos 40 anos de "Por este Rio Acima" e apresenta "Aí" com lançamento no Teatro da Trindade, em 2023 lança o álbum estudo com as cantadeiras do Gerês, "Polifonias singulares Vol.I". Integra o projeto Cantares de Andarilho, que homenageia Zeca Afonso, desde 2024, e em 2025 apresenta "era com h" - A Musicalidade e o Gesto na Poesia Contemporânea. Desde então, conta com a participação em vários trabalhos fonográficos, sendo intérprete, compositora e produtora. Tem apresentado o seu trabalho em diversas destacáveis salas de espetáculos e festivais em Portugal, por toda a Europa e América do Sul.
Dia 2 - 09/05_Obra de Gonçalo Antunes, Fotografia de Raquel Pimentel
Manual para um Bom Festival por Gisela Casimiro
O bom festival existe. Começa no coração. Começa muito antes da programação.
Começa quando alguém decide reunir o mundo, por momentos, numa sala na biblioteca com vista para a ponte. O bom festival é elástico e estende-se no tempo. É lento, intenso e presente, faz pontes.
O bom festival não tem pressa. Sabe que a literatura demora e precisa de silêncio.
O bom festival não acumula nomes nem troféus, mas constrói uma linha de pensamento. Mesmo quando parece disperso, há uma pergunta invisível que liga tudo.
O bom festival entende que curadoria não é decoração cultural. É responsabilidade estética e ética. O bom festival não se limita a acontecer num lugar, mas guarda lugar e coloca o nome na lista de quem a sociedade fez atrasar. A quem a sociedade fez perder a oportunidade de entrar e ficar. O bom festival é um lugar e é o lugar.
O bom festival não programa tendências, faz-se em parceria. Provoca e debate tensões, com amigos e desconhecidos. O bom festival sabe que a curadoria também é uma forma de escrita. Pois se até a candidatura o é. O bom festival é paciente, impaciente, diverso, é parceiro, é divertido e é compreensivo. O bom festival não usa a palavra comunidade trinta e sete vezes num dossier de imprensa para acabar deixando as pessoas sozinhas no sistema vigente ou na vida. O bom festival quer-se justo, musical, afectuoso, pungente, cru, e eloquente. Quer-se com muita gente boa dentro.
O bom festival sabe que uma cidade lê mais do que se pensa, por isso ocupa cafés, ruas, teatros, escadarias, muros e corredores. O bom festival sabe que a literatura não compete com a vida quotidiana: alimenta-se dela.
O bom festival cria uma geografia emocional temporária. Durante alguns dias, aprendemos a orientar-nos pela voz e pela energia das pessoas e não pelo GPS.
O bom festival é organizado e aprumado, partes iguais de modo voo e post instagramado. Mas deixa sempre uma porta entreaberta para o acaso. O bom festival é desorganizado. Influencia e é influenciado.
O bom festival protege o ritmo. Percebe que o excesso de eventos produz fadiga e não intensidade. O bom festival cria espaço para a demora. Para continuar uma conversa cá fora. Para falhar uma sessão e não sentir culpa. O bom festival não acelera a literatura para a tornar consumível.
O bom festival deixa espaço para o desconforto. Para a pausa demasiado longa. Para a voz que treme. Para o poema que falha, para o ego que incha, para a pilha do microfone em falta. O bom festival faz-nos voltar a escrever ao chegar a casa, ou pelo menos a imaginar desejar fazê-lo. Não podemos esquecer que o bom festival é sonhador e realista.
O bom festival sabe que uma programação demasiado perfeita costuma estar morta. O bom festival não precisa parecer importante para ser inesquecível. O bom festival não se parece com um funeral nem com uma candidatura a fundos europeus. Mas pode conter poemas escritos durante ou após um funeral. Pode ou não conter críticas a apoios culturais, nacionais ou internacionais.
Às vezes basta uma cadeira de plástico, um copo de vinho, ou três, e alguém a dizer uma frase impossível de esquecer. O bom festival tem bar aberto e petiscos. A sua duração pode ser meses ou dias, e cada momento é uma despedida que estamos a fazer há duas horas, sem sair do lugar, sem parar de conversar.
O bom festival percebe que hospitalidade também é curadoria. A forma como se recebe alguém altera profundamente o que essa pessoa será capaz de dizer em palco.
O bom festival sabe que hospitalidade é simpatia, é infraestrutura emocional, é surpreender e ser surpreendida. O bom festival cuida da luz, das cadeiras, do som, da água, dos intervalos, dos pagamentos, cuida de todos e deve cuidar de si mesmo. O bom festival suspira com orçamentos. O bom festival não trata artistas como conteúdo. O bom festival não transforma autores em monumentos. Devolve-lhes corpo, cansaço, hesitação e respiração.
O bom festival sabe que a oralidade é a tecnologia ancestral que nos garantirá um futuro. O bom festival não transforma a performance poética numa competição de intensidade. Nem tudo precisa ser gritado para ser político. O bom festival não pede aos artistas para explicarem o trabalho o tempo todo. O mistério também é uma forma de partilha.
O bom festival não separa público e artistas como se fossem espécies diferentes. O bom festival não trata o público como estatística, enquanto consumidor cultural em circulação contínua. O bom festival faz da escuta uma prática coletiva e intimista. O bom festival faz-nos sentir inteligentes sem nos fazer sentir pequenos. O bom festival não acontece apenas no palco.
O bom festival entende que o público também escreve o festival, muitas vezes de cor, de coração. Com chuva, cigarros partilhados, abandonos a meio das sessões e encontros que não estavam previstos na fila para a casa de banho.
O bom festival percebe que o mais importante raramente acontece durante a sessão principal. O bom festival é um presente e faz-se de presenças. O bom festival deixa rasto e pode deixar-nos de rastos. São as frases anotadas no telemóvel ou num recibo qualquer no fundo da carteira, abraços apertados ou os livros comprados por impulso. Um boi de lantejoulas, lenços e panos que dança à nossa volta e nos pede uma festa na cabeça, mesmo quando é ele quem nos abençoa. Palmas que se bate de pé. Flores e fotos que se partilham. Um batom vermelho, uma camisa colorida, brincos e colares com mensagens, uma tela improvisada, uma amizade sempre renovada.
O bom festival sabe acabar e sabe regressar. O bom festival dá muito trabalho, nunca o dá por terminado, e sabe que, da próxima, vai tentar melhorar. Por isso, merece o nosso agradecimento. Celebremos!
Gisela Casimiro
Gisela Casimiro é escritora e artista. Publicou Erosão, Giz e Estendais. Assinou as peças "Casa com Árvores Dentro" e "Vida: Uma Aplicação". É coargumentista da série Novas Narrativas de Caça. É cofundadora da UNA – União Negra das Artes.
Dia 1 - 02/05_Obra de Gonçalo Antunes, Fotografia de Raquel Pimentel
desde a primeira linha
me pergunto como se forma uma comunidade
o sentimento de estarmos ligados aos que vieram antes e aos que virão depois
reunidos em volta do palco nesse ritual de comensalidade
partilhando sabores e saberes até todos, saciados, sabermos tudo
um grupo unido por características, valores, interesses comuns
um grupo perdido algum lugar entre família e formação de quadrilha
Gonçalo pintava como Manu e amava Maria que convidou Huba
que falou nos olhos de Dara que perdeu o medo dos insetos igual à Gabriella
que tem medo do que o futuro guarda tal qual Leonor
que está farta de ser gaja assim como Margarida
que dividiu o pódio com Edson, que por sua vez o partilhou com Felipe
que samba sua saudade
como ninguém
tecidos por essa linha misteriosa que nos une
aquela vozinha, aquela insistente ideia
que continuamente nos importuna: a Criatividade
se espalhando como bolor num vidro de geléia
dizem ser um dom mas às vezes parece mais um vício só que
eu hoje vou dormir e acordar apreciando a oportunidade de realizar o nosso ofício
um trabalho de formiguinhas, abelhas e outros operários afins
grilos cantando no silêncio, monstros em sala de aula
espalhando poesia até que se encontre em todos os lugares:
das páginas dos livros às vending machines
Gabriella Hedegaard
Gabriella Hedegaard é atriz, escritora e produtora, com origem de Dinamarca e Brasil. É graduada em Teatro pela Universidade Federal de Minas Gerais (2018) e tem em sua trajetória passagens pela escola de Teatro do Galpão Cine Horto, pelo curso de teatro na Ryslinge Efterskole e por festivais de teatro no Brasil, Dinamarca e Portugal. É professora de idiomas e arte-educadora, tendo integrado durante dois anos a equipe educativa do Centro Cultural Banco do Brasil-BH. Co-fundadora da Cia Quatro Quartos, onde atuou, dirigiu, escreveu e produziu entre 2017 e 2021. Produziu blocos de carnaval como Lavô, Tá Novo! e Abalô-caxi, em Belo Horizonte. Em Lisboa, criou o projeto PALAVRA EM AÇÃO - Ferramentas para um texto vivo, que já teve três edições coletivas, além de consultorias individuais. Atualmente, integra o Teatro do Imigrante como atriz, produtora e programadora. É campeã do poetry slam do Festival de Poesia de Lisboa 2023, e do Todo Mundo Slam 2024.