Por Julia Pozetti
Ao perceber a ambição de Soni, Valtiane, uma fotógrafa experiente, vendeu-lhe uma câmera parcelada em algumas prestações. Com o equipamento em mãos, aos 16 anos, o jovem escolheu o caminho da produção independente. Como ele mesmo define, foi uma trajetória construída a cada passo. Ainda no período escolar, ele costumava faltar às aulas para assistir a videoclipes gravados em DVDs, planejando como reproduzir aquelas cenas. Desde então, suas inspirações no audiovisual estiveram ligadas à música, especialmente à cena do Hip Hop.
Natural de uma ocupação no bairro Hauer, em Curitiba, o produtor chegou ao Rio de Janeiro em 2012 por meio de uma excursão religiosa. Naquele período, as batalhas de rima locais ainda não tinham a estrutura atual e, no ambiente artístico, Soni frequentemente era o único profissional com uma câmera disponível. A partir disso, as linguagens visuais e musicais começaram a se fundir. Por meio do intercâmbio cultural, ele aprendeu produção musical enquanto compartilhava conhecimentos de captação e edição de vídeo. Foi nos estúdios de música situados tanto em comunidades quanto em bairros nobres do Rio de Janeiro que ele realizou suas primeiras filmagens e consolidou parcerias. Diante de novas propostas e contratos, o projeto de abrir uma produtora própria ganhou força.
Na época, a distribuição digital por plataformas como o YouTube começava a se expandir, coincidindo com a ascensão do rap nacional. Esse formato de veiculação tornou-se o diferencial no mercado em que Soni ingressava. Seu canal na plataforma chegou a alcançar mais de dois mil vídeos e 47 mil inscritos, configurando-se, na ocasião, como o maior canal voltado ao gênero no Sul do país, antes de ser desativado.
Além do suporte logístico, a trajetória de Soni foi marcada por orientações de mentores que incentivaram sua atuação no setor fonográfico e audiovisual. Entre eles, o produtor MC Marechal transmitiu ensinamentos sobre o propósito do trabalho com a arte. A diretriz defendida pelo músico, que prioriza o valor cultural em detrimento do interesse puramente comercial, alinhou-se à formação de Soni, cuja estética se aproximou da chamada “Música Marginal Brasileira”.
Outra referência mencionada é Du Brow, produtor carioca que o instruiu desde as técnicas básicas de batidas até o manuseio de samplers (ferramenta de remixagem de harmonias preexistentes e elemento característico do hip hop). Compreender a estrutura rítmica e melódica que fundamenta a cadência dos versos, bem como as variações estilísticas do rap, consolidou-se como parte essencial de seu trabalho de produção.
Durante o percurso profissional, o produtor colaborou com diferentes expoentes da música urbana. Destaca-se a parceria com Mr. Catra, com quem desenvolveu a faixa Sagrada Família, lançada de forma póstuma. O contato com o artista representou um estímulo para a expansão de seus projetos e para a aceleração de suas produções na época.
A regularização institucional da produtora contou com o auxílio de assessoria jurídica prestada por advogados parceiros. No início da carreira, conceitos relacionados a contratos e à abertura de um CNPJ eram distantes da realidade do jovem. Posteriormente, o suporte legal mostrou-se indispensável para processos de licenciamento fonográfico, proteção de direitos autorais, registro de domínio e elaboração de minutas contratuais.
Após firmar dois contratos de produção com a gravadora Universal, o produtor optou por não assinar um terceiro vínculo ao constatar que os termos previstos invalidavam seu domínio técnico e autoral sobre os projetos realizados anteriormente. Diante da perda de autonomia, a alternativa viável foi a captação direta de clientes e a gestão de projetos próprios. Nesse cenário, o desenvolvimento de propostas culturais respaldadas pelas leis federais de incentivo à cultura ofereceu a sustentação financeira necessária para o negócio.
O nome da empresa, Movivom, surgiu a partir de uma reflexão feita no zoológico da Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro. A dualidade entre a liberdade e o confinamento dos animais remeteu à expressão "morto ou vivo" (Mo - vivom). O termo também funciona como uma síntese conceitual dos elementos fundamentais do negócio: som, imagem e movimento, traduzidos em uma produtora integrada de audiovisual e música.