Da Praça da Ucrânia à comunidade do samba: a trajetória de identidade e pertencimento do bar Na Feira em Curitiba
Da Praça da Ucrânia à comunidade do samba: a trajetória de identidade e pertencimento do bar Na Feira em Curitiba
Após enfrentar prejuízos e mudanças, bar consolida identidade cultural e cria comunidade em torno do samba
Por Cintia Garcia e Mariana Godoi
Abrir um negócio no Brasil exige mais do que uma boa ideia; demanda coragem para assumir riscos e resiliência diante de imprevistos, sejam econômicos ou burocráticos. A trajetória do engenheiro mecânico Alexandre Sena, de 31 anos, mostra o cenário real do microempreendedorismo no país: uma jornada dupla que equilibra a segurança do emprego de carteira assinada com os desafios diários de construir um negócio próprio. Em 2023, motivado pelo convite de um antigo chefe do circuito de bares, onde trabalhou como bartender, Alexandre decidiu investir suas economias de R$30 mil na abertura de um bar na Praça da Ucrânia, ponto tradicional da capital paranaense. O início foi modesto, operando em um espaço de apenas 60 metros quadrados montado com o dinheiro guardado e o restante financiado no cartão de crédito, com as parcelas pagas pelo faturamento do próprio bar.
A realidade do comércio local, no entanto, logo se mostrou difícil. Com o fluxo de clientes caindo, o faturamento despencou entre 60% e 70%. "Foram dois anos de muitas dificuldades naquele local. Em determinado momento, fomos impedidos de realizar as rodas de samba, foi bem desafiador", relembra o empresário sobre o período no antigo local. Em vez de recuar diante do prejuízo, os sócios optaram por estruturar um fluxo de caixa robusto, compreendendo que a saúde financeira garantiria a sobrevivência do projeto nos meses em que o rigoroso inverno curitibano afastava o público das ruas.
A superação e a expansão do negócio ocorreram com a mudança de endereço no final de 2025. O encerramento das atividades no antigo ponto foi marcado por um forte sentimento, unindo a dor de deixar as origens com a incerteza do novo ciclo. "Quando encerramos as atividades em setembro de 2025, foi muito emocionante finalizar aquele ciclo, sem saber o que encontraríamos aqui. Quando inauguramos este espaço e vimos o samba acontecer pela primeira vez, foi uma sensação difícil de explicar, representou um salto muito grande de um negócio para o outro", confessa Alexandre.
O novo espaço permitiu não apenas expandir a estrutura física, mas também fincar raízes em uma identidade cultural, afetiva e firme: o samba e as religiões de matriz africana. Para Alexandre, a definição clara desse nicho foi fundamental para criar um ambiente de acolhimento em vez de um estabelecimento genérico. "Se o posicionamento muda toda hora, com ritmos variados a cada dia, como sertanejo, funk e samba, não se constrói uma identidade. O público busca o sentimento de pertencimento a um local, a um grupo ou a uma comunidade. O que buscamos criar aqui é isso: uma comunidade que as pessoas se sintam parte; não se trata apenas de um bar", explica.
Hoje, gerando empregos diretos e movimentando uma equipe de até 15 colaboradores aos finais de semana, o bar Na Feira planeja expandir sua marca e sua proposta cultural para outras regiões. Para o futuro, o empreendedor que iniciou a carreira dividindo o tempo entre a engenharia e os balcões deixa um conselho voltado para a dedicação pessoal e a alma do negócio. "Quem tem uma ideia deve acreditar nela, mas manter os pés no chão. Precisa participar ativamente, seja pintando uma parede ou colocando tijolos junto com os pedreiros. Sempre depositamos um pedaço de nós neste local. É fundamental dedicar energia pessoal ao negócio, em vez de apenas pagar para os outros fazerem. Acho que essa postura transforma o empreendimento", conclui