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A Nação do Maracatu Aurora Africana é uma Nação de Maracatu nascida no dia 8 de agosto de 2001 e portanto, fruto de uma nova safra de Nações criadas num momento de valorização e ascensão cultural popular em Pernambuco. A história da Nação Aurora Africana é também a história de como os movimentos de releitura e apropriação da cultura popular foram recebidos pelos jovens de periferia, despertando seu interesse.
Segundo o presidente e fundador, Fábio Sotero, o trabalho desenvolvido pelo Balé Popular do Recife e pelo grupo Nação Pernambuco foram fruto de encantamento para ele e outros jovens da periferia de Jaboatão dos Guararapes, na região conhecida como “Jaboatão Velho” ou “Jaboatão Centro”. Os jovens em questão eram estudantes da Escola Estadual Rodolfo Aureliano, localizada em frente à Praça Do Rosário, no Bairro Centro. Mas o Maracatu não foi a primeira opção de movimentação cultural. Segundo Fábio, por intermédio do grêmio estudantil, os alunos foram convidados pela escola para construção de um grupo para participar de um festival estudantil que movimentava as escolas do município no final da década de 1990. Os alunos convidados montaram um grupo de danças populares para participar do festival no ano de 1997 e depois disso “tomaram gosto” pela coisa, dando continuidade às atividades sob o nome de Balé de Cultura Popular Form&Art. Outros jovens que não eram estudantes da escola se juntaram ao grupo, que cresceu e passou a se apresentar na agremiação carnavalesca chamada A Hora do Frevo, que desfilava pelas ruas de Jaboatão Centro com orquestra financiada pela Associação Carnavalesca do município e tendo como convidado especial o icônico passista de frevo Nascimento do Passo. O Form&Art desfilou por 2 anos puxando a agremiação A Hora do Frevo, quando se viu excluída pela Associação Carnavalesca, que nas palavras de Fábio Sotero “tomou de volta” a agremiação. A esse ponto é importante ressaltar que, apesar de o bloco “A Hora do Frevo” ter se tornado um grande palco para o Form&Art, o frevo não era o único ritmo a que os jovens se dedicavam, tendo o grupo feito apresentações com coreografias e figurinos de ritmos como maculelê, caboclinhos e claro, maracatu nação.
Marca do Balé de Cultura Popular Form&Art
Registro de apresentações do Balé Form&Art
O Balé Form&Art chegou a se apresentar no Festival Nacional de Danças Folclóricas de Blumenau, em sua 3º edição no ano de 2000. Na revista que documentou o festival o artigo dedicado ao grupo enfatiza o aspecto “estilizado” de suas coreografias, o que segundo Fábio é uma herança da fonte de onde beberam os jovens bailarinos: O Bale Popular do Recife e o grupo Nação Pernambuco.
Revista do Festival Nacional de Danças Folclóricas de Blumenau apresenta o Balé Form&Art em edição do ano 2000.
O baque representado pela perda da Agremiação A Hora do Frevo fez o grupo buscar um protagonismo cultural que não dependesse de terceiros e que fosse uma coisa inovadora em termos culturais no município. Uma pesquisa realizada no município mostrou que Jaboatão dos Guararapes não tinha notícia de ter abrigado em seu território uma Nação de Maracatu e que ao cria-la o grupo estaria inovando no circuito cultural. Assim, foi fundada no dia 8 de agosto de 2001 a Nação do Maracatu Aurora Africana. É importante observar como a história contemporânea da nossa Nação difere dos aspectos históricos e identitários tradicionais ligados ao fazer Maracatu. A Nação Aurora Africana, busca o respeito ao que considera tradições maracatuzeiras em sua prática, mas tem na história de sua fundação um ânimo de jovens em idade escolar no início dos anos 2000 de fazer e viver a cultura popular que vinha ganhando força nas décadas anteriores como elemento definidor da identidade pernambucana e motivo de orgulho entre a juventude.
Apesar de ter sido fundada em 2001, apenas em 2003 saiu oficialmente em seu primeiro carnaval. Os dois anos serviram para que os integrantes juntassem recursos para compra de instrumentos e fantasias. O dinheiro foi arrecadado com auxílio de instituições como a Secretaria de Cultura do município e também a partir de cachês de apresentações do grupo Form&Art. Em seu primeiro desfile público a Nação enfrentou uma forte chuva, o que foi entendido pelos desfilantes não como um problema e sim como um sinal de benção e proteção da Orixá Iansã, que a partir daí foi reverenciada como uma das protetoras da Nação Aurora Africana.
Joelma Evaristo, atual Rainha da Nação, posa para foto em caderno de cultura de jornal local. Com a fantasia e cabelos encharcados de chuva, Joelma desfilou como Dama-do-Paço.
A Nação tinha especial interesse em disputar o carnaval no concurso de agremiações do carnaval do Recife e alcançou esse feito pela primeira vez em 2004, desfilando na Categoria Aspirantes. Nesse momento a Nação contava com a regência do músico André Lopes, que era integrante da banda Cascabulho e integra as fileiras da Nação até os dias atuais, hoje como batuqueiro. Junto ao seu irmão, Marcos Lopes (também membro do Cascabulho), André ensinou tudo que sabia sobre percussão aos jovens batuqueiros e tornaram possível uma estréia promissora que garantiu um lugar para a Nação Aurora Africana no grupo B já no carnaval seguinte.
No ano de 2005 o Aurora desfilou pela primeira vez no grupo B e foi campeão, com seus batuqueiros vestindo trajes nas cores vermelho e branco, ainda que essas não fossem as cores oficiais da Nação. Neste período muitas toadas foram produzidas fazendo alusão ao fato de serem o vermelho e o branco as cores do nosso batuque e Xangô nosso protetor. Apesar de os batuqueiros não usarem mais essas cores esse momento faz parte da história da Nação e essas toadas ainda não entoadas nos ensaios e até mesmo nos carnavais.
Jovens batuqueiros ensaiam na Escola Estadual Rodolfo Aureliano.
Batuqueiras vestem vermelho e branco para o carnaval.
Aproveitando das boas relações construídas na Escola Estadual Rodolfo Aureliano, a Nação deu seus primeiros passos no ambiente escolar, mas não sem conflitos. Ao mesmo tempo que o som dos ensaios era visto como um incômodo mesmo quando realizados em horários alternativos às aulas, era bem visto o fato de que a comunidade escolar se engajava para participar da nova agremiação, inclusive de forma mais robusta do que o engajamento com o Form&Art. A Nação Aurora Africana cresceu e se desenvolveu realizando suas atividades na escola, mesmo após o termino do ciclo escolar pelos fundadores, até o ano de 2005.
Na tarde do dia 02 de junho de 2005, como consequência de horas de fortes chuvas, o Rio Jaboatão transbordou, inundando a região de Jaboatão Centro e deixando 24 mortos e 4 mil famílias desabrigadas em 16 municípios do estado (JORGE, 2005). A escola Rodolfo Aureliano foi seriamente atingida, o que ocasionou a perda de boa parte do acervo da Nação Aurora Africana construído nos anos anteriores, especialmente as fantasias. Até esse período o Balé Form&Art e a Nação Aurora Africana coexistiram. Após esse momento a Nação ganhou protagonismo nos esforços dos integrantes e o Balé foi aos poucos parando suas atividades.
Com o desastre da enchente do rio Jaboatão e com a mudança de gestão na escola a permanência da Nação ficou inviabilizada e a Nação, que a essa altura já dispunha de parcos recursos próprios fruto de cachê das apresentações realizadas, mudou-se para um galpão no Bairro da Vila Rica, próximo ao Barracão da Ialorixá Gilva, Rainha do maracatu responsável pela dimensão religiosa da Nação naquele momento. A Nação mudou-se por volta de 2008 para uma outra casa onde ficou mais alguns meses enquanto negociava um outro espaço.
Neste período foram convidados a desenvolver uma atividade de ressocialização de jovens em conflito com a lei, internos da Fundação de Atendimento Socioeducativo – Funase. Foram realizadas oficinas de percussão com a inserção dos jovens infratores nas dinâmicas da Nação. O sucesso do projeto incentivou a inscrição da Nação no edital do Ministério da Cultura, sendo contemplada para desenvolvimento das atividades em parceria com a Funase no ano de 2009. O programa visava reconhecer e incentivar os chamados Pontos de Cultura. Como exigência do edital, a Nação deveria disponibilizar para a comunidade material multimídia. Desta forma foram adquiridos computadores e outros equipamentos, que foram armazenados em uma outra residência alugada para esse fim.
Posam na foto, ao fundo: o Caboclo Arreamar Róbson Abóbora e a então Rainha Mãe Gilva; à frente: Joelma Evaristo, atual Rainha, então na posição de Dama-do-Paço.
Antiga Sede da Nação no bairro da Vila Rica, em Jaboatão dos Guararapes.
Neste ínterim, uma casa localizada ao lado do terreiro da Ialorixá e Rainha Gilva e de propriedade da mãe de uma das integrantes da Nação ficou disponível para venda e foi adquirida pela Nação e transformada em sede oficial, passando a reunir em um único local seu acervo e suas atividades de produção de fantasias e adereços, ensaios e material multimídia. A aquisição se deu em parceria com a Prefeitura de Jaboatão dos Guararapes e em decorrência do incentivo arrecadado com o edital do Ponto de Cultura. Tratava-se de um imóvel residencial com cômodos de tamanho reduzido, contando com um terraço estreito onde eram guardados os instrumentos, um banheiro social, sala de estar e cozinha onde se realizavam atividades de produção de fantasias e adereços e dois quartos onde se armazenava o acervo de fantasias. Uma área externa nos fundos funcionava como oficina para confecção e manutenção de instrumentos, enquanto a frente da casa recebeu um palco improvisado para realização dos ensaios.
Segundo Fábio Sotero, a aquisição de um imóvel deu à Nação a possibilidade de contribuir de forma mais assertiva e criar vínculos com a comunidade. A Nação passou a disponibilizar atividades culturais como capoeira e música e também atividades formativas, importantes para a população do entorno, como curso de formação de eletricista e maquiadora. Em parceria com o projeto Núcleo de Ação Cultural – NAC, conseguimos agregar alunos da Escola Estadual Vila Rica e crianças e adolescentes que residiam no entorno da sede, atraindo também seus pais e responsáveis, que passaram a integrar a Nação como desfilantes. Além disso, a aquisição do imóvel deu mais conforto para o desenvolvimento das atividades da Nação que ainda era pequena naquele momento em relação ao tamanho de seu acervo e em comparação com o porte atual. Foi um período rico, de desenvolvimento da agremiação, mas ter o espaço para o desenvolvimento de suas atividades não foi a única razão para o sucesso. Segundo Fábio, este era um período em que o ambiente era mais propício para realização de atividades culturais devido à abertura para novas ideias e pensamento cultural amplo dos gestores que atuavam no município, em especial o secretário de cultura e a gestora da Funase, sendo esta última uma entusiasta da cultura como forma de ressocialização. A parceria com a Funase, por exemplo, durou até a saída da gestora do cargo, não sendo renovada por falta de interesse da gestão seguinte, por volta do ano de 2012.
Como resultado da insegurança jurídica nas relações de posse e propriedade de imóveis, comuns nas periferias brasileiras, a Nação Aurora Africana perdeu o imóvel que havia adquirido em uma disputa judicial com uma reclamante da propriedade no ano de 2015. O imóvel que foi cenário de um período produtivo de crescimento e aprendizados foi deixado para trás e todo o acervo (que havia crescido substancialmente nos anos anteriores) foi levado para um imóvel alugado no bairro das Malvinas. O novo imóvel, que ficava a poucos metros da sede da Funase, com a qual a Nação fez parcerias frutíferas em anos anteriores, era reduzido em tamanho e precário. O imóvel contava com uma sala estreita, uma cozinha pequena, banheiro e apenas 1 quarto. Além de não comportar o armazenamento do acervo não dispunha de espaço para a “produção”, nome dado pelos integrantes ao trabalho de confecção e reforma de instrumentos, fantasias e adereços para o carnaval. A Nação Aurora superou as adversidades para “colocar o maracatu na rua” no ano de 2016 e mudou-se em seguida para uma nova casa alugada, ainda menor que a anterior. A residência foi utilizada apenas para armazenamento do acervo de fantasias e adereços sendo os ensaios e o trabalho de produção realizados no espaço da Casa da Cultura de Jaboatão dos Guararapes a partir de uma negociação dentro das dinâmicas políticas locais.
A parceria com o equipamento municipal foi controversa. Se por um lado amenizava as dificuldades de espaço e condições de trabalho, por outro não dispunha da segurança necessária para o acervo, tendo a Nação perdido diversos equipamentos que foram furtados do local, como uma mesa de som e materiais usados na produção. Com a fragilidade da relação com o espaço a Nação começou a buscar por novas oportunidades.
Com a emergência de movimentos de ocupação da cidade e de instituições, a exemplo do Movimento Ocupe Estelita e as ocupações das escolas e universidades por estudantes em protesto em 2016 no contexto do governo Temer, os integrantes começaram a ver no movimento de ocupações uma oportunidade de encontrar um novo espaço e chamar atenção para a situação de precariedade em que se encontram os movimentos de cultura popular no município. Iniciando o monitoramento de diversos imóveis de propriedade do município que se encontravam abandonados, a diretoria da Nação foi informada em 2018 da existência de um imóvel localizado no Bairro Padre Roma e com o qual alguns integrantes tinham alguma familiaridade. Tratava-se do imóvel conhecido na comunidade como “O Barracão”. Pertencente à secretaria de educação, o imóvel já foi uma escola primária onde estudou o Presidente da Nação, Fábio Sotero, além de um espaço de formação onde eram desenvolvidas aulas de costura e culinária, por exemplo, tendo sido sua última função conhecida a de anexo de uma escola municipal para armazenamento de material didático.
O imóvel se encontrava em situação de abandono, com muita sujeira, problemas na coberta, dejetos de animais e materiais didáticos completamente abandonados. Na vizinhança somavam-se as queixas de uso do espaço para consumo de drogas. Diante deste cenário a iniciativa de ocupação do espaço foi bem vista e houve então a ação de quebra dos cadeados, limpeza, pequenos reparos e realização da mudança do acervo para o novo local.
O Barracão é hoje a sede improvisada da Nação do Maracatu Aurora Africana, oferece um espaço maior do que todas as antigas sedes da agremiação, mas acumula uma série de problemáticas, como a insegurança jurídica e risco constante de desapropriação; os problemas infraestruturais do imóvel; a ausência de espaços livres como praças e parques nas redondezas que possam dar lugar aos ensaios; conflitos com a comunidade do entorno; e demanda por mais espaço para armazenamento de acervo, à medida que a agremiação cresce.
Foto panorâmica de parte do acervo de fantasias e adereços, no Barracão da Nação.
Em decorrência de todas as problemáticas listadas acima a Nação vê inviabilizada a concentração de suas atividades em sua sede, estando elas distribuídas da seguinte forma:
1 – O Barracão (Comunidade Padre Roma): armazenamento do acervo e trabalho de produção. Como o espaço é reduzido alguns integrantes levam material para produção em suas residências. Nas semanas que antecedem o carnaval os integrantes que se revezam trabalhando no Barracão fazem as refeições e dormem no local, ainda que não haja espaço destinado a esses fins. Também no Barracão encontra-se o espaço religioso de guarda das Calungas. Na área externa desenvolve-se atividades de manutenção e confecção de instrumentos;
2 – Escola Freinet (Bairro Centro): Armazenamento dos instrumentos;
3 – Praça Nossa Sra. do Rosário (Bairro Centro): Ensaios e oficinas de percussão