O MARACATU NAÇÃO
PATRIMÔNIO CULTURAL IMATERIAL DO BRASIL
PATRIMÔNIO CULTURAL IMATERIAL DO BRASIL
A África, continente muitas vezes lido com uma falsa unidade sociocultural, é bastante diversa, contando com 54 países independentes e incontáveis línguas, religiões e etnias. De origens diversas eram os africanos trazidos ao Brasil aos montes no ambiente desumano do navio negreiro em um número que varia entre 8 e 11 milhões de pessoas traficadas durante todo período do tráfico. Os africanos que conseguiam chegar vivos ao Brasil (a mortalidade na travessia alcançava os 20%) davam corpo a todo um sistema econômico sendo as mãos e os pés do senhor do engenho (SCHWARCZ; STARLING, 2018). Com cultura, idioma e sistemas de crenças variados, um caldeirão cultural surgia da luta pela sobrevivência, com uma criação de vínculos desde a viagem até o novo mundo.
Esses vínculos, ao contrário do que se possa pensar, deram origem a uma “ampla e bem organizada rede de relações sustentada por laços étnicos, religiosos, profissionais, financeiros e de parentesco” entre os escravizados (SOARES, 2004). Essa rede se ancorava em dois aspectos importantes da vida dos negros na colônia: a conversão ao catolicismo e a incorporação da categoria de nação.
A respeito da conversão ao catolicismo, esta era uma espécie de chave da aceitação social, facilitada por certas semelhanças entre as religiões africanas e a católica, como:
“[...]o hábito de rezar em conjunto, o culto aos santos (que podiam ser identificados a espíritos e deuses secundários de religiões africanas), a condução dos ritos por um sacerdote e as procissões com danças. [...] até mesmo a crença em demônios e bruxaria podia ser facilmente entendida pelos africanos.” (MELLO E SILVA, 2014)
Considerando esse processo de assimilação da religião do colonizador podemos compreender o culto à Nossa Senhora do Rosário pelo estabelecimento de uma relação direta do instrumento pelo qual os fiéis católicos professam sua fé, o rosário, com o colar de contas Opelé-ifá, um instrumento do sistema divinatório Oráculo Africano ou Ifá (MELLO E SILVA, 2014). Sob o culto a Nossa Senhora do Rosário, inúmeras Irmandades de Homens Negros foram fundadas, na coroa e nas colônias, havendo registro de Irmandades de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos desde 1494 em Portugal.
A formação das Irmandades Católicas de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos proporcionou aos negros (escravizados ou forros) um espaço de convivência e sociabilidade que não seria possível em outras esferas sociais. Uma série de atos cerceados ou malvistos pelas autoridades eram permitidos no âmbito das Irmandades sob o pretexto de culto católico. Assim, constituiu-se, segundo Soares (2004), uma série de redes de poder, financeiras, de trabalho e de devoção entre os negros, que custeavam alforrias, viabilizava pequenos negócios, prestava ajuda no enfrentamento a doenças e também realizava festejos.
O segundo aspecto relevante a ser abordado é a incorporação da categoria de Nação. A migração forçada da população capturada na África e levada às Américas forçou o desenvolvimento de categorias étnicas mais inclusivas, fazendo emergir esferas de solidariedade que não reproduziam de forma exata os padrões culturais anteriores mas recriavam as noções de africanidade, agora nas Américas (MELLO E SILVA, 2014; SOARES, 2004).
A palavra Nação, ainda hoje usada para distinguir tradições da cultura popular e da religiosidade (as chamadas Nações de Candomblé), já teve significados diversos. Na complexa e desumana lógica do tráfico de escravos, Nações eram atribuídas aos negros como um marcador de sua procedência no âmbito do tráfico, identificando o porto ou local do mercado em que eram comercializados em solo Africano, depois de uma longa e penosa jornada desde o seu real local de origem (MELLO E SILVA, 2014). Ainda segundo Mello e Silva (2014):
“[...]o termo nação era empregado para designar grupos originários de uma mesma região, com costumes semelhantes, diferentes daqueles da sociedade na qual estavam inseridos. Dessa forma, no Brasil, não apenas indígenas e africanos eram considerados conforme suas nações, carijó ou congo, por exemplo, mas cristãos novos também eram conhecidos como “gente de nação”, ou “a nação de cristãos novos”
Mas, na tentativa de “reverter ao seu favor as regras do jogo da escravidão e da sociedade colonial”, o termo foi ressignificado ainda no período escravista servindo como “ponto referência tanto para o reforço de antigas fronteiras étnicas e territoriais, como para o estabelecimento de novas configurações identitárias, sejam elas étnicas ou não” (SOARES, 2004).
Segundo Soares (2004) dizer que pertencia à Nação Angolin, Nação Mina-Mahi, ou ainda Nação Mina-Coura, eram formas de encaixar-se em “categorias identitárias que operam fazendo uso das configurações étnicas” não sendo elas, ainda assim, grupos étnicos coesos, graças ao aspecto desagregador do tráfico. A assimilação dessas categorias fazia parte do processo constituir uma nova identidade e de se reagrupar baseando-se em novas formas de organização étnica e religiosa.
Diferentes Nações Negras (Debret. Década de 1830)
Escravas negras de diferentes nações (Debret. Década de 1830)
Tais nações negras se manifestavam estética e simbolicamente por meio de expressões como vestimentas, tatuagens e penteados, como registrado em ricas ilustrações de Debret e que Mello Morais Filho descreve em sua crônica “A Coroação de um Rei Negro em 1748”:
“Apenas amanhecia o dia de Reis, o Campo de S. Domingos, nas proximidades da capela, opulentava-se de um espetáculo variado e estranho, em que moçambiques, cabundás, banguelas, rebolos, congos, caçanges, minas, a pluralidade finalmente dos representantes de nações d’África, escravos no Brasil, exibiam-se autênticos, cada qual com seu característico diferencial, seu tipo próprio, sua estética privativa.”(MORAES FILHO, 2002)
Do relacionamento dessas duas variáveis, conversão ao catolicismo e criação de novas redes de sociabilidade, surge o embrião de diversos bens culturais de nosso tempo, entre eles o Maracatu-Nação. Estas associações étnicas, organizadas nas irmandades católicas que reuniam negros de diversas origens, frequentemente elegiam reis negros e os festejavam com cerimônias públicas. Segundo MELLO e SILVA (2014):
[...] Presente em Portugal, na Espanha, na América Espanhola, nas ilhas do Caribe e na América do Norte, foi na América Portuguesa que a eleição de reis negros e sua comemoração festiva esteve mais difundida, existindo comprovadamente desde o início do século XVII, ganhando força no XVIII, mudando de feições no XIX e ocorrendo ainda hoje em várias localidades brasileiras.
Vale destacar que as Irmandades Religiosas que agrupavam os negros na colônia de acordo com sua Nação prestavam devoção não apenas à nossa senhora do Rosário como também a outras santidades Católicas. Suas redes de poder também não estavam estabelecidas apenas entre os negros, fazendo parte da dinâmica de controle social dos senhores de escravos sobre a vasta população de escravizados (MELLO E SILVA, 2014; SOARES, 2004).
Nascido na região que hoje conhecemos como o estado de Pernambuco o Maracatu Nação não é a única, mas é a mais longeva e bem sucedida manifestação desta tradição cunhada no contexto escravista. Este bem cultural é apontado como a mais antiga tradição da cultura popular dentre as que ainda persistem no estado. No entanto dimensionar essa antiguidade é difícil e a busca por um momento de origem pode revelar “uma concepção de história linear e homogeneizante” (LIMA, 2005). A Nação do Maracatu mais antiga em atividade nos dias atuais é a Nação do Maracatu Estrela Brilhante de Igarassu, que como o próprio nome sugere, está sediada na cidade de Igarassu, Região Metropolitana do Recife. O registro histórico mais antigo de sua existência data de 1824. Outros lendários maracatus que já não mais desfilam pelas ruas são ainda mais antigos, como é o caso da Nação do Maracatu Elefante, fundada em 1800. Tais agremiações atravessaram o tempo e gerações de seus integrantes viram esse bem cultural atravessar mudanças sociais como a proclamação da independência, abolição da escravidão e proclamação da república.
O século XIX foi marcado por grandes transformações sociais que buscavam a “modernização da sociedade” em múltiplos campos de conhecimento. Tal convulsão social se estendeu pelo século XX, com a promoção, por exemplo, de transformações urbanas como a que acarretou na reforma do Bairro do Recife, buscando maior salubridade e modelos de urbanismo ao modo Parisiense. Para além do urbanismo, a busca pela modernização social se espraiou para outros campos do conhecimento, como a medicina. Em seu livro “O espetáculo das Raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil 1870-1930” Schwarcz (1993) discorre sobre como as teorias ao mesmo tempo liberais e racistas amplamente referendadas por pensadores, cientistas e institutos científicos validaram neste período a ideia de que a formação miscigenada do povo brasileiro era uma condenação ao fracasso, subsidiando politicas de eugenismo e branqueamento da população. O famoso quadro “A Redenção de Cam”, do pintor Modesto Brocos, é considerada a representação visual dessa teoria social amplamente disseminada no período pós-abolição e retrata o desejo de branqueamento das elites políticas que buscavam promover na cor da pele o mesmo exemplo Parisiense almejado com as demolições de tecidos urbanos também considerados símbolos desse passado colonial que se queria esquecer.
A rendeçção de Cam (Modesto Brocos, 1895). A obra representa uma das mais controversas teorias raciais do século XIX: a busca pelo embranquecimento gradual da sociedade brasileira por meio da miscigenação.
Essas reflexões são importantes para esclarecer as adversidades que a cultura afrodescendente no Brasil teve que enfrentar para chegar aos dias atuais. Segundo Melo e Souza (2014):
"as festas, em particular, características de um catolicismo barroco no qual as manifestações públicas e grandiosas da fé eram um dado fundamental, apesar de continuarem acontecendo, como atestam os relatos dos viajantes, foram sendo cerceadas pelo estado e pela igreja, à medida que o século avançava e ganhava espaço a imposição de certos padrões de civilidade, que buscavam aproximar o jovem país do mundo europeu, irradiador das luzes preconizadas no final do século anterior." (p. 333)
No entanto, ainda segundo a autora, a repressão a essas e outras dinâmicas sociais e culturais da população negra comuns na colônia tiveram lugar ainda durante o período escravista, quando da vinda da família real ao brasil em 1820:
com a presença da Corte no rio de Janeiro os negros foram proibidos de fazer suas festas ruidosas, nas quais lembravam a terra natal, assim como coroar reis e rainhas, Martha abreu cita uma notícia histórica segundo a qual, “em 1820, talvez como uma forma de se prevenir, a própria irmandade do rosário e são Benedito decretava o fim dos cargos de rei e rainha em suas comemorações”. Portanto, a repressão já existente tornou-se mais intensa, atingindo mesmo as manifestações antes aceitas, como aquelas que integravam os festejos realizados por irmandades de negros. (p. 334)
A ideia de que tais manifestações da cultura afro-brasileira eram fruto das relações escravistas e que não teriam lugar num país “moderno e civilizado” perdurou por décadas após a abolição. Ignorando a capacidade de ressignificação deste bem cultural pelas comunidades negras, folcloristas como Guerra-Peixe, no Recife da década de 1950, afirmava que a decadências em que se encontravam os grupos de maracatu se devia ao fato de “não existem mais africanos, e os seus descendentes procuram de preferência imitar a sociedade da gente branca” (LIMA, 2005). Tais ideias a respeito do futuro desaparecimento da cultura do maracatu foram compartilhadas por antropólogos e folcloristas no período, como Katarina Real e Pereira da Costa. Katarina Real afirma em seu livro “O Folclore no Carnaval do Recife” que o declínio das Nações de Maracatu se devia ao desmoronamento de 2 pedras fundamentais: “1- o orgulho numa herança cultural mais ou menos ‘africana’; 2- a desintegração do ‘matriarcado’ afrobrasileiro”. Tais conjecturas ignoravam o processo de ressignificação das coroações de Reis Congo de forma geral teve início ainda no período escravista, criando novos significados para os laços de “Nações” como aponta Melo e Souza (2014):
Com a crescente indistinção entre escravos e negros livres, e entre ambos e os grupos mais pobres da sociedade, as festas de rei congo passaram a incorporar cada vez mais mestiços e brancos, deixando de ser apenas espaço de afirmação de uma identidade fundada na África natal mitificada, para servir de espaço de expressão de comunidades unidas mais pela sua condição social do que pela particularidade étnica.
Entretanto, ao contrário do que tal reflexão e encontro de referenciais teóricos possam induzir, tais declarações dos autores citados não se davam por puro preconceito ou por qualquer tipo de adoção direta às ideias eugenistas. São antes disso a constatação de um fato: era um contexto considerado pela historiografia como o período de decadência dos Maracatus. Os citados folcloristas, que demonstravam encantamento pela cultura encontrada quando de suas estadias no Recife, buscavam explicações para esse penoso processo de desaparecimento em curso. Além da recorrente explicação de que a cultura negra não teria lugar numa sociedade que se queria embranquecida, outras hipóteses são levantadas, como a questão financeira difícil e a disputa de atenção com a chegada de novos ritmos como o frevo.
A decadência teve seu ápice por volta da década de 60, quando as Nações eram tão poucas quanto três ou quatro. Porém um contraponto às ideias correntes que ameaçavam as manifestações socioculturais do povo negro é a avassaladora influência do movimento moderno. Para além da semana de 1922 em São Paulo, Pernambuco protagonizou um movimento pulsante que apontava o regionalismo como o caminho para a construção da modernidade. Neste movimento os artistas digeriram a cultura popular para produzir uma arte que construísse uma identidade regional. Nesse processo, manifestações como o frevo e o maracatu tornaram-se protagonistas de obras como o poema “Maracatu” escrito pelo artista e poeta Ascenso Ferreira e publicado em 1927, que traz imagens, cadência e semântica dos maracatus e das comunidades afro-brasileiras (FERREIRA, 2015):
Zabumbas de bombos estouros de bombas
batoques de ingonos, cantigas de banzo, rangir de ganzás...
— Loanda, Loanda, aonde estás? Loanda, Loanda, aonde estás?
As luzes crescentes de espelhos luzentes, colares e pentes, queixares e dentes de maracajás...
— Loanda, Loanda, aonde estás? Loanda, Loanda, aonde estás?
A balsa no rio cai no corrupio, faz passo macio, mas toma desvio que nunca sonhou...
— Loanda, Loanda, aonde estou? Loanda, Loanda, aonde estou?
Nas artes visuais os maracatus foram representados fartamente na década de 1960 na obra de Abelardo da Hora e ocasionalmente por outros como Marianne Peretti.
Gravura (Abelardo da Hora , 1965)
Pintura a óleo (Marianne Peretti, 1963)
Essa busca por uma identidade tendo como mote a cultura popular e os costumes regionais foi o início da construção de um movimento cultural que abriu caminho para uma época de ascensão dos maracatus que viria na década de 1980 e que o historiador Ivaldo Lima (2013) nomeia como o “momento favorável”. O despertar do interesse pela formação de uma identidade pernambucana encontrou na cultura popular uma forte candidata a marcadora desta identidade. Tal movimento ecoou com o surgimento do movimento MangueBeat que na década de 1980 e 1990 exaltou uma “pernambucanidade” ao mesmo tempo que teceu críticas a respeito da situação social e estigmatização das periferias do Recife. Paralelamente surgem grupos culturais dedicados a reprodução da estética e musicalidade da cultura popular, como o Grupo Nação Pernambuco e o Balé Popular do Recife, responsáveis pela espetacularização que leva aos palcos os movimentos antes marginalizados (FRANÇA FILHO, 2016). Segundo Lima (2005) esses grupos contribuíram para “a instalação de um momento em que não há vergonha em ser de um maracatu-nação ou dançar um ritmo ou música que até então era algo exclusivo dos ‘negros favelados e xangozeiros’.”.
Dois pontos devem ser ressaltados a este respeito. Primeiramente, que é nesse momento que surgem os grupos ditos “estilizados” ou “grupos percussivos”. Apesar de serem parte desse momento de valorização da cultura popular, o surgimento desses grupos mostra a necessidade de problematização do que se entende por “pernambucanidade”. Ao elevar a cultura do maracatu a um ícone da identidade pernambucana, esvazia-se seu caráter de herança negra e sua ligação com as religiões de matrizes africanas, legitimando iniciativas de apropriação cultural que incluem até mesmo grupos de maracatu em igrejas evangélicas neopentecostais.
Em segundo lugar, é importante ressaltar que estes movimentos culturais protagonizados pelas elites artísticas e classe média recifenses estão longe de serem iniciativas salvadoras isoladas. Os maracatuzeiros estiveram ativamente engajados em preservar a cultura do maracatu, repassar ensinamentos, reativar Nações que haviam parado suas atividades e levar o conhecimento necessário para fundação de novas nações em novas comunidades. Iniciativas conhecidas e contadas dentre os mais velhos, mas pouco documentadas pela historiografia oficial dão conta do importante papel de figuras icônicas para a cultura do Maracatu Nação como Dona Santa, Dona Madalena, Mestre Roberto, Mestre Luiz de França, Dona Elda Viana, Ubiraci Ferreira, Dona Olga, Dona Ivanize e muitos outros.
Nos tempos atuais, este passado onde contava-se nos dedos de uma mão o número de Nações de Maracatu tentando sobreviver à modernidade parece cada vez mais distante. Os maracatus, cada vez mais organizados, contam com a Associação dos Maracatus Nação de Pernambuco – AMANPE, que reúne 26 Nações associadas no ano de 2023. Os desfiles realizados no âmbito do concurso de agremiações do carnaval do Recife contam com centenas de integrantes por Nação, vestindo belas fantasias adornadas, muitas vezes com ares contemporâneos e inovadores característicos de uma cultura pulsante em constante criação e recriação que foi, em 2014, reconhecida pelo IPHAN como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.
Diplomação dos Maracatus Nação pelo Iphan como patrimônio imaterial do Brasil.
Contrariando os prognósticos de décadas atrás os maracatus seguem fortes e pulsantes. Na imagem: Maracatus em evidência, no palco principal do carnaval do Recife 2024.