74,0
AVALIAÇÃO ETRY
Apesar de compartilhar o nome com o músico chileno que honrava o verme ditador fascista Augusto Pinochet, o chef boliviano Checho Gonzales caminha bem longe de seu homônimo no campo político. Checho é nascido na Bolívia, vive no Brasil há quase 50 anos e é ativista anti-fascista. Já teve restaurantes, bares e até boates entre Rio de Janeiro e São Paulo. Dez anos atrás, inaugurou, junto de Henrique Fogaça e Lira Yuri a primeira edição d'O Mercado, uma feira gastronômica realizada no pátio da Galeria Vermelho. Depois de algumas edições, o evento migrou para o Mercado Municipal de Pinheiros, próximo ao Largo da Batata. Checho fez, de um box de esquina do mesmo mercado, sua casa fixa, a Comedoria Gonzales.
Com foco em comida Andina - a nacionalização de pratos não cabe, pois muitas preparações são comuns entre os países dos Andes, embora cada lugar tenha suas especificidades -, a Comedoria Gonzales entrega, com muito louvor e alguma confusão, ótimas refeições e, talvez, o melhor ceviche de São Paulo.
Há três versões do ceviche, com marinadas diferentes, com alguma mudança de vez em quando. Hoje é possível encontrar o prato na versão clássica, com o leche de tigre montado em limão, com coentro, pimenta dedo-de-moça, cebola-roxa, acompanhado de milho e batata-doce; na versão oriental, com óleo de gergelim, shoyu, cubos de manga e gengibre; e na versão com lula, camarão, leite de coco e gomos de laranja. Houve uma época em que era possível encontrar uma versão com suco de manga, pimenta-cambuci e sagu de tapioca, que era meu favorito. Quando o peixe do dia era um belo atum, era imbatível. Peixe em cubos carnudos, cozido pela marinada no ponto ideal (sim, é muito possível um ceviche passar do ponto), vegetais e ervas frescas e acidez muito equilibrada.
Na Comedoria servem-se, também, belos sanduíches, como um delicioso choripán de linguiça bragantina com vinagrete e um inigualável sanduíche de peixe com empanamento perfeito, creme de ovos e picles doce de pepino, além de outros de lula e camarão.
Os pratos da Comedoria Gonzales são bons, embora estejam longe do mesmo nível dos ceviches e do sanduíche de peixe. Não raro, é possível encontrar o galeto e a costelinha de porco secos, tendo que recorrer à boa maionese que acompanha as batatas para dar alguma suculência às carnes. Ótimas salteña e pucucapa também compõem o menu.
A única sobremesa da casa é muito simples, mas muito boa, muito mesmo. Um tres leches com pão de ló embebido em leite, leite condensado e coberto com um ótimo doce de leite artesanal. Servido geladinho e bem longe de ser excessivamente doce - o que seria bem possível dada a composição do prato -, é uma ótima maneira de finalizar a refeição.
Como a Comedoria é um box dentro do Mercado e as mesas são compartilhadas, é bem possível que haja uma disputa por lugares, principalmente num horário de pico ou final de semana. Portanto, vá preparado para isso, para algumas filas, e para atrasos no pedido, pois a casa tem poucos funcionários para muita demanda. Se você souber escolher o horário e o que comer, terá uma ótima experiência num dos lugares mais interessantes de Pinheiros.