Ó PAÍ Ó: NARRATIVAS, TERRITÓRIO E TERRITORIALIDADES.
Ó PAÍ Ó: NARRATIVAS, TERRITÓRIO E TERRITORIALIDADES.
FRANCISCO NILSON BARBOSA LEÃO
SALVADOR/BA
2026
Esta dissertação de mestrado, desenvolvida sob uma perspectiva qualitativa, documental e bibliográfica, dentro da Geografia Humanista, está vinculada à Linha de Pesquisa II: Análise de Processos e Dinâmicas Territoriais, do Programa de Pós-Graduação em Estudos Territoriais (PROET) da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e investiga a produção do espaço urbano de Salvador, Bahia, tendo como foco analítico as películas: Ó Paí, Ó (2007) e Ó Paí, Ó 2 (2023).
O estudo adota as categorias de narrativas, território e territorialidades como as três balizas teóricas fundamentais que orientam toda a investigação. Partindo da premissa epistemológica de que as narrativas fílmicas também são dispositivos disparadores para a constituição de um território vivo, assim posto instigou a questão norteadora, cujo objetivo geral é: analisar os modos como os conceitos de Território e Territorialidades emergem nas narrativas de dois filmes nacionais: Ó Paí, Ó e Ó Paí, Ó 2.
A investigação possui uma relevância acadêmica, ao conceber o cinema como linguagem de decodificação espacial na Geografia e pelo valor social ao evidenciar a resistência e a r-existência comunitária contra o processo de gentrificação no Pelourinho. Para operacionalização da pesquisa, definiram-se os seguintes objetivos específicos: discutir os fundamentos teóricos sobre narrativas, território e territorialidades no campo da Geografia; relacionar as narrativas contidas nos filmes Ó Paí, Ó e Ó Paí, Ó 2 na perspectiva socioespaciais sob a luz da Fenomenologia da Percepção; e apresentar de que modo a linguagem cinematográfica contribui para ampliar a compreensão e a decifração dos conceitos de território e territorialidades nas películas em questão.
As territorialidades humanas expressas em tela são percebidas e desveladas pelo método fenomenológico da percepção de Maurice Merleau-Ponty e teorizadas mediante a técnica de Análise de Conteúdo de Laurence Bardin, aplicada no exame exaustivo de dez cenas-chave. A fundamentação teórica promove um diálogo denso entre Yuval Noah Harari, Paul Ricoeur, Milton Santos, Rogério Haesbaert, Natanael Reis Bomfim e Jussara Fraga Portugal, articulando os conceitos de mimese, território, território usado, territorialidades, multiterritorialidade e geograficidade.
Os resultados do estudo evidenciaram que o cinema atua como um laboratório do sensível no qual o corpo negro se afirma como o primeiro território de luta e de resistência cultural contra processos históricos de exclusão. Identificou-se que, enquanto a obra de 2007 desvela embates corporais diretos e disputas por recursos vitais cotidianos, a película de 2023 expõe as pressões sutis e burocráticas da gentrificação e da especulação imobiliária, as quais tentam mercantilizar o espaço de vivência tradicional.
Em contraposição a esse assédio imobiliário, os moradores articulam processos de reterritorialização contemporânea que fundem táticas ancestrais (como os slams de poesia e a celebração do sagrado) às territorialidades digitais do ciberespaço mediadas por tecnologias e smartphones. Conclui-se que o cinema nacional é um potente instrumento de educação geográfica, capaz de revelar a espessura existencial e o protagonismo popular que ressignificam o Pelourinho como um território de inabalável r-existência cultural.
Palavras-chave: narrativas; território; territorialidades.
Conforme afirma Xavier (2018, p. 20):
[...] o cinema supera as formas do mundo exterior e ajusta os eventos às formas de nosso mundo interior - atenção, memória, imaginação e emoção, Munsterberg exalta esta "vitória da mente sobre a matéria" como fonte de um prazer genuíno, fornecido apenas pelo cinema. Como cientista, ele se marca pela prática de uma psicologia cujas bases estão em Kant (para uma caracterização mais detalhada, ver Dudley Andrews, Major Film Theories, 1976). Como homem que pensou o cinema, nos fornece um curioso ponto de partida, uma vez que já nos lança no tema da relação entre "organização das imagens" e "movimento da subjetividade", o qual encontrará diferentes formulações conforme o autor e os aspectos particulares de sua reflexão.
Nesse sentido, a imersão contemplativa em Ó Paí, provoca, antes de qualquer análise racional, uma experiência sensorial avassaladora. O filme não apenas mostra um espaço geográfico, um território, um lugar, um bairro, uma cidade ou um cortiço; ele transporta o corpo do espectador para dentro dele, gerando uma sensação palpável de estar vivendo naquele ambiente. O espaço não é um pano de fundo inerte; ele se manifesta como uma entidade viva, quase real, que transmite energia, calor, emoção, que sempre pulsa ao som de uma canção, que respira e pulsa como se estivéssemos vivendo na realidade do espaço e de seus moradores, seus dramas e as alegrias.