“A coragem nem sempre ruge. Às vezes, a coragem é a voz calma no final do dia dizendo: Vou tentar de novo amanhã.” (Mary Anne Radmacher)
A dor crônica pode surgir de diferentes mecanismos no organismo. Entre eles, a dor nociplástica tem se destacado como um desafio diagnóstico e terapêutico, pois ocorre sem uma lesão evidente nos tecidos ou nos nervos.
O Distúrbio Temporomandibular (DTM), por sua vez, é uma condição que frequentemente envolve dor persistente na região da face e da mandíbula. Embora a DTM tenha múltiplas causas, muitas vezes elas não são perceptíveis provavelmente porque a sensibilização central e outros mecanismos nociplásticos desempenham um papel central.
Comparar as duas condições, dor nociplástica e sensibilização central, em termos das áreas envolvidas no processamento cerebral em cada caso, ajuda a entender mais uma diferença crucial entre a dor nociplástica de outros tipos de dor (nociceptiva, neuropática), e também mostra que esse processamento não é necessariamente o mesmo nas doenças crônicas em que a dor nociplástica se mostra predominante.
Essa postagem descreve as áreas do cérebro envolvidas na dor crônica, comparando dois tipos de dor: a dor nociplástica (um tipo de dor que ocorre sem inflamação ou lesão evidente) e a dor associada ao Distúrbio Temporomandibular - DTM (dor na região da mandíbula, músculos da face e articulação temporomandibular).
DTMs são um grupo de mais de 30 condições que causam dor e disfunção na articulação da mandíbula e nos músculos que controlam o movimento da mandíbula.
Por que comparar a dor nociplástica e a DTM?
A DTM é uma das condições clínicas em que a dor nociplástica pode ser predominante. Quando isso ocorre, a DTM torna-se um excelente exemplo para entender como o cérebro processa esse tipo de dor e como diferentes regiões cerebrais podem contribuir para a percepção dolorosa.
Ao comparar a DTM com a dor nociplástica em geral, conseguimos identificar tanto mecanismos comuns quanto características específicas, o que pode ajudar a personalizar abordagens terapêuticas.
O que essa análise nos revela?
Algumas regiões do cérebro envolvidas na dor nociplástica também estão ativadas na DTM, enquanto outras parecem ser exclusivas de cada condição. Isso nos ajuda a compreender por que certos pacientes com DTM têm sintomas mais difusos ou apresentam dor sem evidência clara de inflamação local.
A seguir, exploramos as diferenças e semelhanças entre a dor nociplástica e a DTM com base em estudos de neuroimagem, esclarecendo como o cérebro molda a experiência da dor e o que isso significa para o tratamento. Ambas as condições compartilham algumas áreas cerebrais envolvidas na dor, mas também possuem diferenças importantes.
1. Áreas do cérebro envolvidas na dor – O que ambas as condições têm em comum?
Tanto a dor nociplástica quanto a DTM ativam regiões que:
Interpretam a dor: Dizendo ao cérebro que algo está doendo.
Controlam a resposta à dor: Ajudando a lidar com a dor.
Processam as emoções ligadas à dor: Como ansiedade ou estresse causados pela dor.
As principais regiões envolvidas são:
Córtex cingulado anterior (ACC): Relacionado ao sofrimento emocional causado pela dor.
Córtex pré-frontal medial (mPFC): Ajuda a regular a dor e as emoções.
Córtex cingulado posterior (PCC): Contribui para a memória e a percepção da dor.
Córtex insular anterior (aIC): Liga a dor às respostas do corpo (como aumento da frequência cardíaca).
Córtex insular posterior (pIC): Analisa a localização e intensidade da dor.
Substância cinzenta periaquedutal (PAG): Regula os sinais de dor que vão para o cérebro, podendo aumentar ou reduzir a dor.
Isso significa que, independentemente do tipo de dor, o cérebro ativa algumas áreas semelhantes para sentir, processar e reagir à dor.
2. Áreas específicas de cada tipo de dor
Embora algumas regiões cerebrais sejam ativadas em ambas as condições, existem áreas específicas que são mais influentes em cada uma delas.
Áreas que aparecem apenas da DTM (dor na mandíbula e face):
Áreas motoras suplementares (SMA): Relacionadas ao controle dos músculos, o que pode influenciar a dor na mandíbula.
Córtex motor primário (M1): Controla os movimentos e pode influenciar a tensão muscular na região da face e mandíbula.
Córtex cingulado médio (MCC): Relacionado à forma como o corpo reage à dor, influenciando comportamentos como evitar certos movimentos.
Amígdala: Processa as emoções ligadas à dor e pode amplificar a percepção da dor em contextos emocionais negativos.
Áreas que aparecem apenas na dor nociplástica em geral (dor sem causa óbvia de lesão):
Córtex pré-frontal rostral (RPFC): Regula emoções e conflitos internos, o que pode influenciar a intensidade da dor percebida.
Giro supramarginal (SMG): Relacionado à percepção da dor e à forma como o cérebro interpreta sinais de dor vindos do corpo.
Isso indica que a dor na DTM pode estar mais ligada a problemas motores e musculares, enquanto a dor nociplástica pode envolver mais aspectos emocionais e interpretativos da dor.
3. Diferenças na forma como essas dores se conectam no cérebro
Além das áreas específicas, há diferenças na forma como os diferentes sistemas do cérebro se comunicam em cada condição:
Dor nociplástica: Há uma conexão mais forte entre áreas responsáveis por atenção, emoções e percepção da dor. Isso pode fazer com que a dor seja sentida de forma mais intensa ou difícil de ignorar, mesmo sem uma lesão evidente.
DTM: Há mudanças nas áreas do cérebro ligadas ao controle dos músculos e dos nervos faciais. Isso reflete o impacto direto da dor na mandíbula e nos músculos do rosto.
Resumo Final
Tanto a dor nociplástica quanto a DTM ativam partes do cérebro ligadas à percepção da dor e às emoções.
A DTM tem mais influência das áreas responsáveis pelo controle dos músculos e da mastigação.
A dor nociplástica envolve mais áreas que afetam a interpretação da dor e a forma como lidamos emocionalmente com ela.
Em ambas as condições, mudanças na comunicação entre diferentes áreas do cérebro podem tornar a dor persistente, mesmo quando não há uma lesão aparente.
Compreender essas diferenças pode ajudar a encontrar tratamentos mais eficazes para cada tipo de dor, seja através de terapias emocionais, técnicas de controle da dor ou tratamentos direcionados para os músculos e nervos afetados.
Fonte: Chronic pain blog.