“Viver com dor crônica é como tentar ficar confortável em um sofá de cacto.”
Como a dor acontece no sistema nervoso? Pela ação de “mecanismos de dor”. Um mecanismo de dor se refere ao conjunto de processos biológicos, neurológicos e fisiológicos específicos que estão envolvidos na forma como a dor é gerada, processada e sentida pelo corpo.
Doenças crônicas como fibromialgia, artrite, DTM, endometriose, cefaleia e dor lombar crônica, por citar as mais relevantes, se caracterizam por compartilhar ao menos 3 mecanismos de dor: Sensibilização Central, Neuroplasticidade Desadaptativa e Disfunção das Vias de Modulação da Dor.
Eu penso que tanto profissionais da saúde como pacientes deveriam conhecê-los e por isso vou apresentar sucintamente cada um deles em três passos: a sua Descrição Cientifica, destinada ao profissional; a Tradução do anterior em palavras simples; e uma Analogia, para finalmente esclarecer qualquer dúvida porventura remanescente em ambos.
A tal divisão não significa que eu subestime o intelecto do paciente. Apenas pensei em poupá-lo de termos pouco conhecidos, como sinais neurais, hipersensibilidade, mudanças desadaptativas, mecanismos endógenos, modulação etc.
Sensibilização Central: O Volume da Dor Aumentado
Descrição científica:
Este é um processo no sistema nervoso central (cérebro e medula espinhal) onde há uma amplificação dos sinais neurais, resultando em hipersensibilidade à dor. Estímulos que normalmente não seriam dolorosos (alodinia) podem se tornar dolorosos, e estímulos já dolorosos podem ser sentidos de forma mais intensa (hiperalgesia).
A sensibilização central é considerada um fator chave na manutenção da dor crônica em diversas condições, incluindo fibromialgia, e também pode estar presente em pacientes com artrite reumatoide e DTM, especialmente quando a dor se torna mais generalizada e persistente.
Tradução:
Na dor crônica, o sistema nervoso central – o cérebro e a medula espinhal – passa por um processo de amplificação dos sinais nervosos. Isso significa que a sensibilidade à dor aumenta de forma anormal.
Analogia:
Pense num alarme de carro que ficou extremamente sensível. Uma brisa suave que nunca o ativaria, agora o faz disparar com toda a intensidade. Da mesma forma, coisas que antes não lhe causariam incômodo – como um simples abraço, o peso do lençol ou uma pequena pressão – agora podem doer muito.
E se algo já causava uma dor suportável, agora pode parecer insuportável. Isso acontece porque o “volume” da dor no seu sistema nervoso está muito alto, fazendo com que ele reaja de forma exagerada a estímulos leves.
Neuroplasticidade Desadaptativa: O “Caminho da Dor” Reforçado
Descrição científica:
A dor crônica pode levar a alterações na estrutura e função do sistema nervoso, um fenômeno conhecido como neuroplasticidade. No entanto, em condições de dor crônica, essas mudanças podem ser desadaptativas, contribuindo para a persistência da dor.
Por exemplo, pode haver uma reorganização das áreas cerebrais envolvidas no processamento da dor, tornando o sistema nervoso mais eficiente na transmissão e percepção dos sinais dolorosos, mesmo na ausência de dano tecidual contínuo significativo. Essa neuroplasticidade desadaptativa é observada nas três condições mencionadas.
Tradução:
Quando a dor persiste por muito tempo, o sistema nervoso aprende a sentir essa dor com mais facilidade. É como se um caminho no seu cérebro, usado para transmitir a dor, ficasse cada vez mais largo e mais fácil de percorrer. Mesmo que a causa inicial da dor esteja diminuindo, esse “caminho da dor” continua ativo.
Analogia:
Imagine uma trilha na floresta. No começo, é difícil de ver e de andar. Mas se muitas pessoas passarem por ali repetidamente, a trilha fica bem marcada, larga e fácil de seguir, mesmo que não haja mais ninguém passando naquele momento. Da mesma forma, a dor crônica “abre” e reforça caminhos no seu sistema nervoso, fazendo com que a dor continue sendo sentida mesmo quando não há uma lesão grave acontecendo o tempo todo.
Disfunção das Vias de Modulação da Dor: O “Freio da Dor” com Defeito
Descrição científica:
O corpo possui mecanismos endógenos para modular a dor, tanto inibindo quanto exacerbando os sinais dolorosos. Em muitas condições de dor crônica, incluindo fibromialgia, artrite reumatoide e DTM, há evidências de disfunção nesses sistemas de modulação da dor. Isso pode resultar em uma redução da capacidade de inibir a dor ou em uma facilitação aumentada da transmissão da dor, contribuindo para a cronificação do quadro doloroso.
Tradução:
O corpo tem seus próprios mecanismos para controlar a dor, como se fossem “freios” que diminuem os sinais dolorosos. Na dor crônica, esses “freios” podem não estar funcionando corretamente. Ou eles não conseguem reduzir a dor como deveriam, ou, em alguns casos, até facilitam a passagem dos sinais de dor.
Analogia:
Pense no pedal de freio do seu carro. Se ele não estiver funcionando bem, você pode ter dificuldade em parar o carro quando precisa. Da mesma forma, se os “freios da dor” do seu corpo não estiverem funcionando direito, a dor pode continuar intensa e persistente, mesmo que o problema inicial esteja se resolvendo. Em alguns casos, é como se o pedal do acelerador (da dor) estivesse um pouco preso, dificultando ainda mais o controle.
Para que serve entender os mecanismos de dor?
Diagnóstico Preciso
Identificar os mecanismos de dor predominantes em um paciente ajuda a refinar o diagnóstico, especialmente em condições de dor crônica onde a causa original pode não ser mais evidente.
Tratamento Direcionado
Compreender o mecanismo da dor permite aos profissionais de saúde escolherem tratamentos mais eficazes. Por exemplo, uma dor primariamente causada por sensibilização central pode responder melhor a medicamentos e terapias que atuam no sistema nervoso central do que a tratamentos focados em tecidos periféricos.
Personalização do Tratamento
Diferentes mecanismos de dor podem exigir abordagens terapêuticas distintas. Entender qual mecanismo é mais ativo em um indivíduo permite personalizar o plano de tratamento.
Educação do Paciente
Explicar os mecanismos da dor de forma acessível ao paciente pode ajudá-lo a entender melhor sua condição, reduzir o medo e a ansiedade associados à dor, e aumentar a adesão ao tratamento.
É importante lembrar que os três mecanismos podem trabalhar juntos, tornando a experiência da dor crônica muito complexa e diferente para cada pessoa. Entender um pouco sobre como esses “problemas no sistema de alarme” podem estar acontecendo no seu corpo é o primeiro passo para buscar as melhores formas de tratamento e aprender a lidar com a dor.
Fontes: A Surprising Way That Exercise Improves Your Mind. Scott C. Anderson. Emotional and Physical Pain Activate Similar Brain Regions. Alan Fogel, PhD. Chronic pain blog. Science in Our World: Certainty and Controversy. Penn State.