Dor localizada e dor espalhada - o que isso tem a ver com o cérebro?
A dor crônica é frequentemente classificada apenas com base em sua intensidade, mas será que isso é suficiente? Um novo estudo da Universidade de Michigan Estados Unidos sugere que não. Ele mostra que diferentes tipos de dor podem coexistir em um mesmo paciente – e que isso pode ter grandes implicações para o tratamento.
Imagine que você tem dois tipos de problemas elétricos em casa: uma lâmpada queimada e um curto-circuito que afeta vários cômodos. Se o eletricista trocar apenas a lâmpada, o problema maior continuará. Algo parecido acontece com a dor crônica.
Pesquisadores analisaram os cérebros de 1.709 pessoas com diferentes condições de dor, incluindo dor pélvica crônica e fibromialgia. Eles descobriram que, em muitos casos, a dor não se restringia apenas à área inicialmente afetada – ela se espalhava pelo corpo. E, mais importante, os exames cerebrais desses pacientes revelaram alterações semelhantes às de quem tem fibromialgia, um exemplo clássico de dor nociplástica (um tipo de dor que surge de uma alteração no processamento da dor pelo sistema nervoso, sem inflamação ou lesão nos tecidos).
Ambos os grupos de pacientes com dor generalizada apresentavam alterações semelhantes na substância cinzenta e na conectividade cerebral nas áreas corticais sensoriais e motoras, em comparação com controles sem dor.
"Os pacientes com Dor Pélvica Urológica Crônica apresentam características de fibromialgia. Eles não apenas apresentam dor generalizada, mas também têm marcadores cerebrais indistinguíveis dos pacientes com fibromialgia”, disse Richard Harris, PhD, autor sênior do estudo e professor associado de anestesiologia e reumatologia na Universidade de Michigan.
A dor generalizada também foi associada a prejuízos nas funções físicas e mentais, independentemente da intensidade da dor.
Por que isso é importante?
Até recentemente, a medicina dividia a dor em 3 tipos principais:
Nociceptiva: Causada por inflamação ou lesão, como uma torção no tornozelo.
Neuropática: Resultante de um dano ou doença nos nervos, como na neuropatia diabética.
Nociplástica: Quando há alteração na forma como o cérebro e a medula espinhal interpretam a dor, sem lesão aparente.
Em 2017, a Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP) reconheceu oficialmente a dor nociplástica como uma categoria distinta. Isso permitiu compreender algo que já ocorria há muito tempo na prática clínica: muitos pacientes não têm apenas um único tipo de dor, mas sim uma dor mista – com elementos de mais de um desses mecanismos ao mesmo tempo.
No estudo da Universidade de Michigan, os pacientes com dor pélvica crônica apresentaram padrões cerebrais semelhantes aos de quem tem fibromialgia. Isso indica que a dor deles não era apenas localizada (como se pensava antes), mas também envolvia mecanismos de dor nociplástica.
O impacto no tratamento
Isso muda a forma como devemos pensar sobre a dor crônica. Se um paciente tem dor mista, tratar apenas a dor predominante pode não ser suficiente. Voltando à analogia elétrica: trocar a lâmpada queimada não resolve um curto-circuito.
Se a dor nociplástica estiver presente, estratégias que atuam no sistema nervoso central, como certos antidepressivos, neuromodulação e terapias baseadas em educação e modulação sensorial, podem ser mais eficazes do que apenas anti-inflamatórios ou opioides, que são voltados para a dor nociceptiva.
Conclusão
Este estudo reforça que a dor crônica não é um fenômeno único e simples – ela pode ser resultado de diferentes mecanismos sobrepostos. Compreender que a dor nociplástica pode estar envolvida, mesmo em condições tradicionalmente vistas como localizadas, é um passo essencial para oferecer tratamentos mais eficazes e personalizados.
Fontes: Assinatura cerebral e impacto funcional da dor centralizada: uma abordagem multidisciplinar para o estudo da rede de dor pélvica crônica (MAPP). Revista Pain. Brain Changes May Explain Chronic Pain Symptoms in Different Disorders, Study Suggests. Patricia Inacio Ph.D. Does Widespread Pain Stem from the Brain? MRI Study Investigates. Kylie Urban. Chronic pain blog.