Vedas

Vedas. Os Vedas, ou Livros de Sabedoria, consubstanciam a mais antiga literatura religiosa da Índia, fundamento do bramanismo, do hinduísmo e, indiretamente, do budismo. Encontram-se nesses livros a primitiva religião dos árias, habitantes do Industão. Admitiam eles 33 deuses, que se dividiam em 3 grupos de 11, ocupando o Alto Céu, a Atmosfera e a Terra. Os principais são Ágni (o fogo), Varuna (o Alto Céu), Indra (o Espaço Etéreo), Súria (o Sol), Xandia (a Lua), Ussas (a Aurora) e Rudia (Pai dos Ventos). Posteriormente a religião dos árias sofreu uma completa mudança. O seu deus principal passou a ser Brama, ao qual associaram uma divindade conservadora (Vixinu) e outra destruidora (Xiva), formando uma trindade (Trimúrti). Tomando por base essa nova fé, formou-se o regime das castas: da cabeça de Brama saíram os brâmanes (sacerdotes e reis); do braço, os xátiras (guerreiros); da coxa, os vaicias (negociantes e industriais) e dos pés, sudras (servidores). Abaixo de todas elas havia ainda a dos párias, que não podiam morar nas cidades, nem manter relações de quaisquer espécies com os membros das demais castas. Com o aparecimento de Gautama Buda no século VI a.C. surgiu o budismo, que se tornou religião oficial pelo Concílio de Patna, em 244; no reinado de Açaca, o budismo conquistou a Ilha de Ceilão, dali irradiando-se para o Extremo-Oriente. (1)

Vedas. Antigas escrituras da Índia — os primeiros livros remontam a 1500 a.C. — que constituem o mais primitivo testemunho da atividade intelectual que está na origem do hinduísmo. O termo significa "conhecimento", representando os Vedas a fixação escrita de tradições orais repetidas durante séculos, sendo por isso também conhecido por Shruti (ensino oral). Costumam compreender os quatro Vedas propriamente ditos, os Brãhmanas (comentários que explicam as cerimônias culturais), os Aranyakas (ou "Livros da Floresta", que interiorizam a reflexão sobre o sacrifício) e as Upanixades (desenvolvimento da interiorização no sentido especulativo e místico). Estas obras, compostas em sânscrito e recolhidas em 1131, livros provenientes de numerosas escolas e correntes, começaram a ser consideradas sagradas — infalíveis e independentes de qualquer autor humano e, portanto, eternas e imperecíveis — c. séc. III a.C., no âmbito da luta contra o desenvolvimento de heresias como o budismo e o jainismo.

Os quatro Vedas apresentam-se sob a forma de hinos, recolhidos posteriormente à sua composição em várias coleções, os Samhitas. São o Rig-veda (hinos), o Sama-veda (cantos), o Yajur-veda (liturgia) e o Atharva-veda (magia). No seu conjunto, estes livros centram-se no culto e perspectivam uma sabedoria religiosa. Postulam a existência de 33 grandes deuses, mais ou menos antropomorfizados. A prática assentava originalmente na realização do sacrifício dirigido a cada deus — ao ar livre, sem templos nem ídolos — , concebido como alimento e louvor dos devas invisíveis. Mais do que politeísmo, tratar-se-ia, segundo Max Müller, de um henoteísmo, pois os devas seriam agentes cósmicos que asseguram o ordenado curso do Universo, criaturas de um misterioso Criador, deus monoteístico, difícil de conhecer e que não necessita de alimento.

Nos Vedas encontramos uma admiração pelos fenômenos da natureza, problemas da vida, origem do homem, do Universo e dos deuses. O Rig-veda, em alguns de seus hinos, prenuncia a ulterior reflexão upanixádica. Alguns dos mais importantes darshanas constituem-se como mentários e interpretações dos Vedas: a Purva-Mimamsa ("primeira exegese") e o Vedanta reclamam a sua autoridade a partir do próprio caráter infalível e eterno dos Vedas. (2)

Vedas (sânscr., conhecimento, saber sagrado). As quatro coleções principais de textos são o Rigveda (o livro das orações e dos hinos), o Yajurveda (o livro das fórmulas de consagração), o Samaveda (o livro dos cânticos) e o Atarveda (um livro de encantamentos mágicos e especulação filosófica). O texto mais famoso é o Rigveda (versos de sabedoria). O componente filosófico dos Vedas está contido principalmente nas seções conclusivas, ou comentários explicativos, conhecidos como Upanixades. (3)

Vedanta. A escola de filosofia hindu interessada sobretudo em proteger a verdade literal dos Upanixades, e por isso muito crítica em relação às tendências dualistas e realistas das outras escolas de filosofia indianas. O monismo mais puro (advaita ou não dualidade) só reconhece brahman (identificado com atman, tal como os Upanixades exigem), e está associado ao filósofo Shamkara. (3)

Upanixades ( sânscr. upanisad, o ato de algo que se senta). A coletânea de versos filosóficos que concluem os Vedas, constituindo o principal comentário filosófico original às escrituras hindus. (3)

Advaita (sânscr. não dualidade). Doutrina da escola vedanta atribuída a Shankara que defende a identidade entre o brahman e o atman; o mundo físico é um dos phenomena bene fundata (fenômeno bem fundamentado) e, tal como o eu, é unicamente uma manifestação de Deus. (3)


Vedanta. Corrente de pensamento hindu, é tecnicamente classificado como Uttara-Mimansa, ou seja, "última investigação" sobre os escritos sagrados: Vedas e Upanixades. A palavra Vedanta significa literalmente "o fim dos Vedas", procurando assim constituir-se como uma elaboração exegético-especulativa do conteúdo doutrinal dos Vedas. O seu texto fundamental é o Vedanta-sutra ou Brahma-sutra, composto por Badarayana entre 150 e 300 d.C. O objeto de sua investigação é Brahman, a realidade universal, identificado com o Atman, o aspecto mais íntimo de todos os seres. Outro objetivo é o de refutar as doutrinas opostas, sobretudo as heréticas, como o budismo, procurando batê-las no seu próprio terreno: o da argumentação.

Procurando mostrar a compatibilidade entre certas passagens dos escritos sagrados pretensamente contraditórias, o Vedanta-sutra postule entre as diferentes visões ou pontos de vista dos vários autores iluminados deve existir um acordo último, a verdade última. Esta manifesta-se de modo diferente, segundo as capacidades dos indivíduos, e o ideal do Vedanta será recolher o que existe de comum e universal nos vários testemunhos, sem pretensões a uma palavra final e definitiva. O conhecimento da verdade pode ser atingido ainda nesta vida, proporcionando a iluminação e a salvação, mas apenas por intuição direta e não por investigação ou análise lógica.

O princípio orientador da visão do mundo proposta pelo Vedanta é o não-dualismo (advaitismo), significando não a redução da pluralidade sensível a um único ser ou princípio explicativo (monismo), mas sim a relativização de todas as perspectivas que afirmam a realidade última do mundo da pluralidade como oposto à realidade de Brahman. Assim "toda a dualidade é falsamente imaginada": Brahman não é uno como oposto ao múltiplo, não é simples como oposto ao complexo, ele é sem dualidade, ou seja, fora de qualquer classificação. Nas escrituras, passam a ser tido como "grandes dizeres" apenas as afirmações não-dualistas. As passagens em sentido contrário são interpretadas alegoricamente ou pedagogicamente orientadas para o não-dualismo. (2)


Vedismo. Designa a visão do mundo própria aos povos da Índia védica (c. 1500-600 a.C.), expressa por escrito nos seus livros sagrados, os Vedas. As concepções desse período podem estender-se como a tentativa para responder a quatro grandes questões: como explicar a ordem cósmica; como podem os hemens contribuir para a manutenção dessa ordem; como explicar a origem do Universo; qual é a origem e a natureza do homem.

1 — A ordem cósmica, tal como a ordem social, que resulta da colaboração de muitos, deve resultar da colaboração de agentes cósmicos invisíveis: os devas. Cada aspecto da realidade, humana ou natural, encontra-se regulado por uma divindade com função específica: Varuna, Mitra, Indra...

2 — Os homens podem contribuir para a conservação da ordem cósmica, da qual depende a estabilidade social e o seu próprio bem-estar, através da técnica do sacrifício (Yajna).

3 — Não existe um modelo único para explicar a origem do Universo e, para tal, há duas séries de mitos cosmogônicos.

4 — A concepção védica do homem caracteriza-se por uma atitude otimista diante da vida. As explicações apresentadas sobre a origem da Humanidade são também variadas. Supõe-se que o homem é composto por dois elementos: o corpo e um princípio vital, assente no coração e designado com vários nomes (asu, vida; prana, hálito; manas, mente), capaz de perdurar para além da dissolução do corpo. Refere-se também a possibilidade de um corpo "subtil" capaz de se sentar na companhia dos deuses e dos antepassados e desfrutar com eles a vida bem-aventurada. A ideia de que os atos sacrificiais se projetam numa vida para além da morte está bem patente na convicção védica de que o prolongamento dessa vida será proporcional à correção com que forem executados os ritos funerários. A cremação é também uma forma de sacrifício e as sucessivas oblações fornecerão o alimento ao além-vida. Aparece ainda nos Vedas a ideia de um céu ou inferno sancionadores. A ideia da reencarnação e da sua articulação com o Karman, a ação humana, está ainda ausente e só surgirá na época upanixádica. (2)


Vedismo. Pesquisas mais recentes mostram que a doutrina dos deuses dos Veda já representa uma tentativa de interpretar os acontecimentos universais na sua totalidade, com seus poderes diversos, em que algumas vezes deuses representam várias forças da natureza e suas funções cósmicas, sem, no entanto, estarem sempre identificados com estas.

Lugar preponderante entre os deuses cabia a Indra, que não era apenas um deus das tempestades mas que, por lutar contra as forças inimigas do cosmos, deu continuidade ao processo criador. Neste contexto, uma função especial é desempenhada por Soma, bebida ritualística embriagante feita de plantas que crescem nas montanhas e que é louvada em vários hinos como elixir da vida (amritam) dos deuses e dos homens. O deus mais importante dos brâmanes era Agni, que era tanto o fogo como o deus do fogo sacrificial (cf. lat. ignis). Leva as oferendas dos homens aos deuses, por cuja boca comem e bebem. No Rigveda 10,121 Agni é mesmo louvado como o único espírito de vida dos deuses, gerado pelas águas primitivas quando estas receberam o universo como embrião. Agnis, que também é chamado de "touro das águas", pode-se reconhecer o princípio primitivo do fogo masculino que penetra nas águas femininas.

Uma das concepções de deuses mais profundas no Vedismo é Varuna, que foi interpretado como deus celeste (juntamente com as estrelas como atalaias) e associado a Urano na pesquisa mitológica natural mais antiga.


(1) EDIPE - ENCICLOPÉDIA DIDÁTICA DE INFORMAÇÃO E PESQUISA EDUCACIONAL. 3. ed. São Paulo: Iracema, 1987.

(2) LOGOS – ENCICLOPÉDIA LUSO-BRASILEIRA DE FILOSOFIA. Rio de Janeiro: Verbo, 1990.

(3) BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de Filosofia. Consultoria da edição brasileira, Danilo Marcondes. Tradução de Desidério Murcho ... et al. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.

(4) LURKER, Manfred. Dicionário de Simbologia. Tradução Mário Krauss e Vera Barkow. 2. ed., São Paulo: Martins Fontes, 2003