11 de junho de 2023
Marconi Gadêlha
Você conhece James Randi? É um dos nomes mais interessantes quando se trata do assunto que gira em torno da dicotomia ceticismo-crendice. Ele foi um mágico e cético canadense naturalizado americano, mais conhecido pelo seu desafio às alegações de sobrenaturalidade e pseudociência. Após a aposentadoria como mágico, aos 60 anos, dedicou maior parte de seu tempo a investigar os supostos fenômenos paranormais, ocultos e sobrenaturais. Foi uma espécie de padre Quevedo (parapsicólogo espanhol naturalizado brasileiro famoso por desmistificar muito do que se considera sobrenatural). Fundou a James Randi Educational Foundation (JREF, na sigla em inglês).
Com o apoio de outras entidades que promovem o ceticismo, a JREF patrocinava o “Desafio Paranormal de Um Milhão de Dólares“, prêmio que seria dado aos candidatos que pudessem demonstrar qualquer evidência de fenômenos paranormais, sobrenaturais ou poderes ocultos, testados em condições de comum acordo entre as partes. Até hoje, ninguém levou o prêmio.
Randi morreu em 20 de outubro de 2020, aos 92 anos sem nunca ter visto alguém ser capaz de passar nos testes realizados por sua fundação e levar a fortuna. Todos os candidatos foram desmistificados pela sua multidisciplinar equipe de cientistas e ilusionistas, ou simplesmente falharam ao tentar aplicar seus poderes paranormais.
Mas aqui vamos discorrer como, certa feita, James Randi se envolveu num famoso e interessante evento de mediunidade que envolveu todo um país.
Ele demonstrou como é relativamente fácil criar deliberadamente um evento e um fenômeno mentiroso, falso. Se fosse nos dias de hoje, diríamos que o Randi poderia fazer parte de algum gabinete secreto destinado à criação e propagação de fake news. O fato é que ele fez nascer um dragão; fez um país inteiro ver, chocado, que o dragão era só isso mesmo: um dragão numa garagem, um ser invisível e intangível, somente perceptível pelo único instrumento hábil a detectá-lo – a credulidade.
O caso se deu em 1988, na Austrália.
Jornais, revistas e estações de TV e de rádio começaram a receber, por meio de kits de imprensa e videoteipes, a boa nova que vinha tomando conta da América e que, agora, chegava ao continente da Oceania como uma dádiva.
Dizia o kit que, após um acidente de motocicleta em 1986, Jose Luiz Alvarez, um jovem com então 17 anos, passou a demonstrar comportamento diferente. Levado a um psiquiatra, o profissional constatou que José estaria canalizando uma entidade milenar chamada “Carlos”. Tal entidade, veio a se saber, que tinha 2000 anos de idade e que teria encarnado pela última vez na Venezuela, em 1900. A partir daí, quando Alvarez entrava em transe, o espírito Carlos, focalizado por um cristal, assumia o corpo e passava a proferir a sabedoria das eras.
O kit para a imprensa trazia uma lista de apresentações de Carlos pelos Estados Unidos, incluindo espetáculos em teatros e entrevistas em rádios e televisões. Entre as principais atrações de Carlos estavam a recepção na Broadway, uma entrevista em uma estação de rádio de Nova York, além de outras informações que garantiam a veracidade e popularidade do fenômeno norte-americano.
Na Austrália, Alvarez e seu empresário foram tratados como celebridades. Circulavam de limusine e se hospedavam nos mais luxuosos hotéis, à espera das apresentações à imprensa, que foram frequentes antes da atração principal: a apresentação de Carlos no Teatro Dramático da Ópera de Sidney.
Nos dias que antecederam a apresentação apoteótica, logo na primeira entrevista à imprensa, “Carlos” se manifestou, mostrando ser uma figura vigorosa, instruída e dominadora. Vieram algumas outras, em rádios e televisões que exigiam a presença de Alvarez, com seu empresário e seu enfermeiro, que checava o pulso e anunciava a presença de Carlos. Em alguns programas a autenticidade foi questionada. Ele reagia ofendido e encerrava a entrevista.
No dia marcado da grande apresentação no Teatro Dramático, o local estava lotado. A entrada era gratuita (o que serviu para amenizar a desconfiança dos que ainda supunham que tudo não passasse de engodo para auferir lucro). Jose Alvarez sentou num sofá baixo e relaxou, seu pulso parou e, de repente, voltou a bater ao mesmo tempo em que sua voz mudou para sons guturais. O corpo voltou a ficar rijo e ele voltou a falar. Carlos estava presente. Sua mensagem de sabedoria milenar se espalhou pelo recinto. A plateia ficou extasiada.
No domingo seguinte tudo veio abaixo.
O programa Sixty minutes revelava que o caso Carlos fora uma farsa do começo ao fim, elaborada com a finalidade de demonstrar a facilidade com que público e a mídia podem ser enganados por um curandeiro ou guru persuasivo e carismático. Para tanto o programa contatou o mágico James Randi, que sugeriu que fosse elaborado um logro a partir do nada. Ele lembrou de Jose Alvarez, um jovem artista, que era seu inquilino. O rapaz passou por intenso treinamento de como se comportar em TV, em entrevistas e perante multidões. Durante suas apresentações, ele nem precisava pensar nas respostas às perguntas, somente pronunciá-las, uma vem que James Randi estava sempre monitorando tudo e lhe passando informações por um ponto de rádio em seu ouvido. Toda a parafernália midiática foi montada em cima de mentiras. A documentação sobre as apresentações de “Carlos” nos EUA era falsificada. O “empresário” também era um homem aleatório, sem qualquer experiência com nada do tipo. Os folhetos eram impressões encomendadas; um vídeo mostrando Alvares sendo ovacionado em um teatro americano foi obtido simplesmente durante a apresentação real de uma dupla de mágicos (amigos de Randi) que, durante o intervalo, permitiram que o rapaz subisse no palco trajando bata e medalhão e pediram que o publico aplaudisse.
A enganação foi completada com a criação de uma falsa “Fundação Carlos”, que disponibilizava para venda (mas, de fato, nunca foi vendido nada) parafernálias místicas como um Cristal de Atlântida energizado por Carlos, as “Águas de Carlos”, verdadeiros líquidos bentos também energizadas pelo mestre ascenso e acondicionados em recipientes de cristal, além das “lágrimas de Carlos”, indicadas para unção durante meditação. Havia também um livrinho chamado “Os ensinamentos de Carlos”, que iniciava assim:
EU SOU CARLOS
VENHO DE MUITAS ENCARNAÇÕES PASSADAS AO SEU ENCONTRO.
TENHO UMA GRANDE LIÇÃO PARA LHE ENSINAR.
OUÇA COM ATENÇÃO.
LEIA COM ATENÇÃO.
PENSE COM ATENÇÃO.
A VERDADE ESTÁ AQUI.
O primeiro ensinamento do livreto vem com a pergunta “Por que estamos aqui?” A resposta: “Quem pode dar uma única resposta? Há muitas respostas para essa pergunta e para todas as estão corretas. É assim. Compreende?”. Por aí se pode deduzir o restante dos ensinamentos que, claro, foram digitados por James Randi em poucas horas num computador.
Quando a farsa foi revelada o restante da mídia ficou furiosa. O Sixty minutes e Randi afirmaram, contudo, que a imprensa não fez qualquer esforço para checar as informações sobre Carlos que, obviamente, nunca se apresentara nas cidades indicadas. A estação de rádio novaiorquina na qual a entidade teria dado inúmeras entrevistas simplesmente não existia, o que poderia ter sido facilmente verificado. Mas a credulidade é desenfreada e o pensamente cético ou crítico tende a ser sufocado pela necessidade de se acreditar em algo, principalmente se esse algo for fora do comum, sobrenatural ou “contra o sistema”.
O que fez o Sixty minutes, o principal programa da TV australiana? Expôs como são pífios os padrões para verificação de fatos e como a credulidade estaria disseminada em instituições consagradas à notícia e aos temas públicos. Nenhum dos que tinham sido enganados aceitou participar de uma retrospectiva do caso Carlos.
Alvarez e Randi provaram que não é preciso grande coisa para brincar com nossas crenças, que somos prontamente influenciados e que é fácil enganar o público quando as pessoas estão solitárias e famintas de algo em que acreditar. E um fenômeno interessante ocorre. Quando um falso mestre é criticado muitos se apressam em defendê-lo. Vários idosos presentes na apresentação de Alvarez no teatro de Sidney ficaram indignados depois da revelação: “Não importa o que eles digam”, confidenciaram a Alvarez, “nós acreditamos em você”.
O astrônomo Carl Sagan expõs o caso no livro O mundo assombrado pelos demônios – dodo qual extraímos a presente narrativa – e conclui com as seguintes palavras:
“Mas o que me preocupa é que vai surgir um Carlos vendendo um peixe bem maior – atraente, dominador, patriótico, transpirando liderança. Todos nós ansiamos por um líder competente, incorruptível, carismático. Não deixaremos de nos agarrar à oportunidade de nos fortalecermos, de acreditarmos, de nos sentirmos bem. A maioria dos repórteres, editores e produtores – arrebatados como todos nós – se esquivará de um verdadeiro exame cético. Ele vai vender orações, cristais ou lágrimas. Venderá talvez uma guerra, um bode expiatório ou um amontoado muito mais abrangente de crenças que o de Carlos. (…)
Uma das lições mais tristes da história é a seguinte: se formos enganados por muito tempo, a nossa tendência é rejeitar qualquer evidência do logro. Já não nos interessamos em descobrir a verdade. O engano nos aprisionou. É simplesmente doloroso demais admitir, mesmo para nós mesmos, que fomos enganados. Se deixarmos que um charlatão tenha poder sobre nós, quase nunca conseguiremos recuperar nossa independência. Por isso, os antigos logros tendem a persistir, enquanto surgem outros novos.”
Nada mais correto. Num livro escrito em 1995, o famoso astrônomo, simplesmente analisando o comportamento humano aparentemente inato, faz uma espécie de profecia para os tempos em que estamos vivendo. Hoje, as enganações e mentiras deliberadas podem nascer tão facilmente a partir de literalmente qualquer um com um celular na mão e, com uma rapidez antes impensável, alcança milhões.
James Randi e o Sixty minutes tiveram um pouco de trabalho para elaborar o logro. Mas hoje está ficando cada vez mais fácil fazer nascer dragões em garagens. Cada vez mais fácil criá-los, alimentá-los e fazê-los se reproduzirem. Cada vez mais difícil, porém, exterminá-los ou controlá-los. Eles, definitivamente, são parte da nossa fauna. E eles se multiplicaram em diversas raças. Há os dragões simplesmente engraçados, inofensivos (alguma crença sobre a História ou uma mandinga popular); há os sérios e bravos (alguma proposição científica e filosófica como, por exemplo, as origens do Universo); há até os necessários (como a noção de existência do tempo “presente”). Muitos são arredios: uma vez nascidos têm vida própria, sem se deixar dominar por ninguém. Mas existem os mansos, sobre os quais muitos homens conseguem pôr arreios. James Randi pode ser considerado um libertador desse tipo de dragão. No campo do misticismo, da comunicação com outros planos, da cura espiritual, sempre vai haver aqueles que, aproveitando-se da ingenuidade ou desespero, apropriam-se do fato ou do fenômeno e o doma, o acorrenta para fins de exploração dos crédulos.
Com as benesses da tecnologia vem, também, o crescimento dos problemas. O Estado tenta criar mecanismo para controle das fake news e tutela dos meios por onde elas circulam. Uma briga de gato e rato (ou cavaleiro andante e dragão) num cenário onde as chamadas Inteligências Artificiais – IA vão atingindo níveis assustadores em que a realidade vai se tornando cada vez menos distinguível do irreal. São dragões em garagem que nascem quase que de geração espontânea, que se multiplicam indefinidamente. De quase inofensivos, pitorescos, até agradáveis ou engraçados, tem a raça que evoluiu para monstros verdadeiramente assustadores e ameaçadores. Urram, berram alto. Uma verdadeira praga que, infelizmente, sempre podem ser aprisionados por alguns “Jose Alvarez” que os usem para, deliberadamente ou não, ludibriar, explorar ou perseguir.
Indicações para aprofundamento
O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no escuro. Carl Sagan. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
http://criandocondicoesaliberdade.blogspot.com/2011/03/james-randi-o-cacador-de-charlatoes.html