Correios - O que você precisa saber sobre a crise

Artigo: Relação entre redução do efetivo, aumento de agências privadas e perda de qualidade operacional no Correios

Atualização em 07/12/2025 por A. Mariano

Introdução

Características dos Correios

Os Correios são uma empresa pública de capital fechado, com personalidade jurídica de direito privado, vinculada ao Ministério das Comunicações. Sua missão é regulada por seu Estatuto Social e pelo Decreto-Lei no 509/1969, que lhe confere a responsabilidade de planejar, implantar e explorar os serviços postais em todo o território nacional, inclusive em áreas remotas, como agente de integração nacional.

A empresa opera sob o princípio da universalização postal — garantindo acesso a serviços básicos de comunicação e logística à população brasileira, independentemente de sua localização. Presente em praticamente todos os municípios do país, a ECT atua como verdadeiro braço logístico do Estado e balcão de serviços ao cidadão, especialmente em localidades onde operadores privados não atuam por falta de interesse econômico.

Dessa forma, é imprescindível reforçar que os Correios não existem para gerar lucro, mas sim para prestar um serviço público essencial. Lucro não deve ser o critério central de avaliação de desempenho da empresa, e sim sua capacidade de atender com qualidade e capilaridade a toda a população brasileira.

O presente estudo e opinião considera as particularidades geográficas e logísticas do Brasil, cuja dimensão continental impõe desafios incomparáveis em relação a países menores. Enquanto nações europeias como Portugal (92 mil km2), Bélgica (30 mil km2) e Países Baixos (41 mil km2) operam com redes postais em territórios compactos, interligados e altamente urbanizados, o Brasil enfrenta enormes distâncias, desigualdades regionais e limitações graves de infraestrutura.

Diferente de países europeus com dimensões territoriais reduzidas e infraestrutura mais densa, o Brasil possui dimensões continentais, com graves deficiências na malha rodoviária, ferroviária e aeroportuária, o que torna a atuação dos Correios particularmente desafiadora.

Essa realidade reforça a importância de uma estrutura estatal de alcance nacional e eficiente, capaz de garantir serviços postais universais mesmo em locais remotos, não atendidos por operadores privados por razões econômicas.

O Brasil possui 8,5 milhões de km2 de extensão territorial, sendo o 5o maior país do mundo, com mais de 5.500 municípios, muitos deles localizados em áreas de difícil acesso, como a Amazônia Legal, o semiárido nordestino e o Pantanal. A infraestrutura de transporte apresenta desafios consideráveis:** mais de 60% das estradas brasileiras são de terra, com manutenção precária, e muitas regiões contam apenas com acesso fluvial ou aéreo sazonal. A precariedade na logística nacional exige um operador postal robusto, com presença física e compromisso público — características que apenas os Correios, enquanto empresa estatal, são capazes de cumprir de maneira contínua e socialmente abrangente.

Este estudo tem como objetivo demonstrar que a perda de qualidade operacional dos Correios está diretamente relacionada à diminuição do efetivo de trabalhadores e que o aumento de agências privadas e terceirizadas instensificam a perda de dinheiro público para estes entes privados. Essa relação está intimamente ligada aos sucessivos programas de desligamento voluntário e às mudanças no modelo de atendimentos adotados pela empresa nos últimos anos.



1. Redução do Efetivo de Trabalhadores

Os trabalhadores dos Correios, mesmo diante de sucessivos planos de desligamento, enxugamento de pessoal e desvalorização institucional, mantiveram-se como a principal força de sustentação da empresa. O atual quadro funcional encontra-se reduzido, envelhecido e adoecido, com sobrecarga em todos os setores operacionais. Apesar disso, os servidores demonstram resiliência e compromisso com a função pública, mantendo a empresa em funcionamento mesmo em condições adversas.

Contudo, sem a convocação imediata de aprovados no concurso de 2024, inclusive massivamente via cadastro reserva, o colapso operacional da empresa é iminente e pode ser irreversível. De acordo com informações publicadas no site oficial dos Correios (www.correios.com.br) e em seu perfil no Instagram institucional (@correiosoficial), o concurso público de 2024 previa mais de 3 mil vagas para áreas operacionais, além da formação de cadastro reserva. Até o momento, não houve convocação, o que agrava ainda mais a situação dos centros de distribuição e unidades de tratamento.

A falta de reposição de pessoal aumenta o envelhecimento do quadro e compromete diretamente a continuidade dos serviços. Em um cenário de expansão de demanda logística e redução drástica de efetivo, a única alternativa viável para impedir o colapso é o chamamento urgente dos aprovados e cadastro reserva.

Concursos e Desligamentos

● 2011: Concurso público com aproximadamente 9.190 vagas.

● 2014: Início do primeiro ciclo recente de desligamentos voluntários (PDV), com incentivo financeiro entre R$ 30 mil e R$ 150 mil, pagos em parcela única. O plano teve como foco aposentados e trabalhadores próximos da aposentadoria.

● 2017: Lançamento de um novo PDV nacional, dando continuidade ao ciclo iniciado em 2014, voltado a empregados com mais de 55 anos e 15 anos de empresa. Resultado: cerca de 5.500 desligamentos e economia estimada de R$ 700 milhões anuais.

● 2020: Novo PDI com foco em aposentáveis e servidores de alta remuneração. Adesão superior a 5.800 empregados.

● 2021: Novo PDI com 6.299 desligamentos, totalizando R$ 722 milhões em impacto financeiro.

● 2024: Novo ciclo de desligamentos (PDV/2024), cuja primeira fase de adesão ocorreu entre 16 e 24 de setembro de 2024. Posteriormente, os Correios reabriram a possibilidade entre 6 de janeiro e 16 de fevereiro de 2025. Em abril, foi anunciada a prorrogação do programa até julho de 2025. Até o 1º trimestre, 3.472 empregados haviam aderido, sendo 392 desligamentos já efetivados com custo de R$ 36 milhões. Até o 1o trimestre de 2025, 3.472 empregados haviam aderido ao PDI, com gasto estimado de R$ 316 milhões, dos quais 392 desligamentos foram efetivados com desembolso de R$ 36 milhões..

Atualização:

Urgente: Enquanto este estudo alerta para a necessidade urgente de contratações, o plano aprovado em dezembro de 2025 prevê, paradoxalmente, a demissão de até 15 mil trabalhadores, aprofundando o círculo vicioso do esvaziamento operacional 


Os programas de desligamento voluntário — PDIs e PDVs — foram utilizados ao longo da década como ferramenta de redução de despesas com pessoal. Sua aplicação contínua, sem plano proporcional de reposição do efetivo, comprometeu severamente a capacidade operacional dos Correios, provocando perdas operacionais significativas e dificultando a manutenção da qualidade dos serviços prestados.


Quadro de Pessoal

A seguir, a evolução do quadro funcional dos Correios entre 2000 e 2025, com base em dados obtidos de registros administrativos:

Ano | Empregados Ativos

-------|----------

2000 | 88.082  

2001 | 91.694  

2002 | 99.498  

2003 | 104.343  

2004 | 109.087  

2005 | 110.043  

2006 | 12.566  

2007 | 113.993  

2008 | 117.248  

2009 | 113.621  

2010 | 112.944  

2011 | 123.247  

2012 | 125.909  

2013 | 132.349  ← pico histórico  

2014 | 130.319  

2015 | 128.877  

2016 | 123.902  

2017 | 117.079  

2018 | 112.921  

2019 | 108.240  

2020 | 103.276  

2021 | 94.790   

2022 | 96.536   

2023 | 92.448   

2024 | 91.889 (até abril)  


2025 | cerca de 85.000* 

(*) Estimativa com base em fontes acessadas em dezembro de 2025.

Fonte: Correios (base de dados institucional), TCU, Portal da Transparência



2. Estratégia Corporativa e Redirecionamento para o Segmento de Encomendas

Analisando as demonstrações contábeis dos Correios ao longo dos anos, observa-se uma mudança estratégica significativa na alocação de recursos operacionais, financeiros e de pessoal. A partir de 2016, as diretrizes corporativas passaram a privilegiar o segmento de encomendas, com expansão de infraestrutura, marketing e adaptação logística para atender o comércio eletrônico.

Em contrapartida, o segmento de mensagens — que inclui cartas e produtos do serviço postal universal (monopólio) — passou por uma redução acentuada no investimento, no efetivo e na prioridade operacional. Tal desbalanceamento estratégico levou a uma precarização crônica da entrega de mensagens, com impactos diretos na qualidade do serviço prestado à população.

Comparativo da Receita por Segmento (% do total da receita líquida operacional)

Ano      | Encomendas (%) | Mensagens (%)

-----------|-----------------------|----------------

2012     | 37%                    | 52%

2015     | 43%                    | 47%

2018     | 51%                    | 39%

2021     | 57%                    | 30%

2023     | 61%                    | 26%


2024     | 63%                    | 24%

Fonte: Demonstrações Contábeis (Correios 2012–2024).

Atualização:

2025 (9 primeiros meses) | Encomendas: mais de 66% | Mensagens: menos de 24%.

No primeiro semestre de 2025, a receita líquida total foi de R$ 8,185 bilhões, queda de 11,8% ante 2024. O serviço postal internacional sofreu queda acentuada, representando apenas 9,6% da receita bruta (contra 21,9% em 2024), impactado por mudanças regulatórias, concorrência e perda de qualidade pela queda expressiva do número de funcionários. 

Urgente:  


Essa reorientação comprometeu o serviço de correspondência tradicional, que historicamente sustentava o papel universal da empresa. A forma como a empresa passou a tratar o segmento de monopólio demonstra uma mudança estratégica abrupta e, em muitos sentidos, negligente. Diversos trabalhadores revelam que há um desinteresse institucional claro pelo segmento de cartas simples, mesmo sendo este historicamente o carro-chefe da empresa e que poderia estar hoje contribuindo imensamente mais. Uma simples carta comercial beira os R$ 3,70. O processo de migração para o digital, que deveria ser natural e gradual, foi extremamente forçado por decisões institucionais, como a redução proposital do efetivo, abandono da regularidade de entrega de cartas simples e priorização das encomendas. Isso acelerou a queda da demanda da sociedade por contas em papel, criando um ciclo vicioso que enfraquece a credibilidade da empresa, alimenta insatisfação dos clientes e favorece o discurso privatista. O abandono do segmento de mensagens ocorre em um país onde a exclusão digital ainda é realidade para milhões de brasileiros, e onde a segurança da informação continua sendo um grande desafio. Medidas operacionais como a DDA - distribuição domiciliar alternada de cartas e cartas registradas (dia útil sim, dia útil não) foram adotadas sem consulta pública ou regulamentação clara, forçando parte da população a migrar para meios digitais inclusive em regiões de baixa conectividade, onde essa mudança não ocorreria de forma espontânea.

Essa transição forçada acelerou a digitalização das comunicações postais no Brasil, prejudicando:

● A acessibilidade de idosos ou pessoas gerais com dificuldade em tecnologia, comunidades rurais e usuários sem internet;

● O caráter público do serviço universal postal, substituído por um modelo focado no mercado competitivo (dentro de uma estatal);

● A percepção social sobre a eficiência e relevância dos Correios.

Tal decisão institucional, ao favorecer o setor mais lucrativo (encomendas), agradou a interesses do mercado concorrencial e possíveis compradores em um cenário de privatização iminente, em detrimento da missão pública de universalização do acesso à comunicação física no território nacional.



3. Impactos diversos, Operacionais e Financeiros - A DDA como Mecanismo de Gestão da Escassez nos Correios: Análise Técnica e Solução Urgente

A Distribuição Domiciliária Alternada (DDA), implementada nacionalmente a partir de 2014, consolidou-se como política operacional que institucionalizou a gestão da escassez de recursos humanos nos Correios. Este modelo não representou um avanço técnico, mas sim a normalização de condições de trabalho precárias e a operação com deficit crônico de pessoal, transformando a redução de efetivos em suposta "eficiência administrativa".

3.1. Gênese do Modelo: Da Escassez à Institucionalização

A implantação da DDA ocorreu em paralelo a um acelerado processo de desmonte do quadro funcional dos Correios. Entre 2014 e 2025, a eliminação de mais de 50 mil postos, muitos via PDVs/PDIs, reduziu o efetivo de mais de 130 mil para cerca de 80 mil trabalhadores atualmente, criando uma escassez que o modelo buscou administrar de forma estrutural. Na prática, a DDA institucionalizou essa precarização através de uma reengenharia territorial profundamente problemática: enquanto as zonas rurais já operavam com rotas de entrega de cartas tradicionalmente extensas para os carteiros pedestres, os distritos em áreas urbanas — tradicionalmente mais compactos (até 5 km) e com muito maior densidade de correspondência e objetos registrados — sofreram ampliações drásticas para até 8 km (teoricamente), também ignorando completamente as condições topográficas como aclives e as limitações de um quadro funcional que não apenas encolheu, mas também envelheceu significativamente.

O paradoxo revelador está na contradição operacional criada: apesar da redução objetiva da carga física transportada por um carteiro  — fruto tanto do sucateamento progressivo do serviço postal (maior parte) quanto dos avanços tecnológicos que diminuíram o volume de correspondências tradicionais —, os carteiros pedestres se viram obrigados a percorrer distâncias muito maiores. Essa distorção criou uma dinâmica de trabalho onde o esforço físico não diminuiu proporcionalmente à carga diminuída, mas se redistribuiu em percorridas mais longas e desgastantes, especialmente para carteiros veteranos. O resultado foi a aceleração do abandono do serviço postal tradicional, justificado retoricamente como "queda natural de demanda", quando na verdade decorria diretamente da degradação operacional imposta pelo próprio modelo.

3.2. A Falsa Eficiência: Dados versus Retórica

A narrativa oficial atribuiu a queda de 28% na receita do serviço postal (2012-2024) à "evolução tecnológica". Contudo, os dados desconstroem esta tese:

● Correlação temporal: A redução acelerou-se precisamente com a expansão da DDA (2014-2018); 

● Priorização estratégica: Enquanto o serviço postal definhava, os investimentos migravam para encomendas (63% da receita em 2024).

A DDA não surgiu para atender demandas orgânicas, mas sim para viabilizar cortes orçamentários e desvio da finalidade pública original, privilegiando o segmento competitivo em detrimento do serviço universal público.

Solução Estrutural: A experiência histórica demonstra que a única medida capaz de reverter o colapso é a recomposição imediata do quadro funcional. O concurso de 2011 mostrou este caminho ao repor 9.190 postos de trabalho. Em 2024, a urgência demanda: Convocação massiva dos aprovados (incluindo cadastro reserva) para recompor os postos eliminados por PDVs desde 2014, restabelecendo condições operacionais minimamente adequadas para a prestação do serviço postal.

Conclusão deste tópico: Superando a retórica da escassez, a DDA representa a contradição fundamental dos Correios: transformou um direito básico constitucional da sociedade em serviço secundário. Seu total insucesso operacional comprova que nenhum modelo funciona sem trabalhadores em número suficiente. A convocação do cadastro reserva não é medida paliativa, mas a única solução contra um sistema que confunde redução de direitos com progresso. Reconstruir o serviço postal exige reconhecer: tecnologia e inovação são complementos, não substitutos.



4. Expansão das Agências Privadas e Efeitos sobre a Captação e a Cobertura Social

4.1. Agências Próprias Fechadas e Expansão da Rede Terceirizada: Dados Oficiais (LAI)

As respostas oficiais obtidas via Lei de Acesso à Informação (LAI) revelam o avanço concreto da política de substituição da rede própria de atendimento dos Correios por unidades operadas de forma terceirizada. O conjunto de documentos analíticos, extraído de bases institucionais, evidencia o encolhimento progressivo da estrutura estatal.

De acordo com a planilha fornecida oficialmente pela empresa, ao menos 255 agências próprias (AC – Agências de Correios) foram fechadas entre os anos de 2010 e 2025, conforme registro nominal por unidade e data de encerramento das atividades. Essa redução expressiva da rede própria impacta diretamente a presença institucional dos Correios em regiões de menor rentabilidade, onde a operação pública é muitas vezes o único canal de acesso da população ao serviço postal universal.

Contudo, o processo de fechamento de agências não se limitou a localidades remotas ou economicamente deficitárias. Diversas unidades foram encerradas em capitais e grandes centros urbanos, como São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ), Belo Horizonte (MG), Recife (PE) e Porto Alegre (RS), bem como em cidades de médio porte com elevada relevância logística. Esse padrão indica que a diretriz institucional visou uma reestruturação generalizada da malha estatal, mesmo em regiões onde a presença pública seria altamente estratégica tanto para captação de receita quanto para o cumprimento da função social da empresa.

Paralelamente, outra planilha obtida por meio de solicitação formal junto ao Serviço de Informação ao Cidadão (SIC) mostra que os Correios mantêm atualmente mais de 6 mil agências terceirizadas ativas em todo o território nacional. Essa rede é composta por unidades com diferentes naturezas jurídicas — como AGFs (Agências Franqueadas), comunitárias, mistas e parcerias com prefeituras — e opera sob contratos comissionados ou convênios locais, com variados níveis de controle e padronização.

A análise cruzada desses dados permite confirmar que há uma política institucional deliberada de substituição da rede pública por estruturas privadas, com destaque para:

Essa conjuntura representa não apenas uma alteração de modelo operacional, mas uma ameaça concreta ao papel social dos Correios como prestador de um serviço universal, inclusivo e acessível à população. Além disso, a heterogeneidade da rede terceirizada dificulta auditorias, controle de qualidade e uniformidade de atendimento, comprometendo a imagem institucional da empresa e sua eficácia logística nacional.

É fundamental observar que quanto menor for o número de agências próprias operadas diretamente pelos Correios, maior será:

● A perda de boa parte da captação de receita para agentes privados (por meio de comissões e contratos fixos);

● A redução da capacidade estatal de promover inclusão e coesão social por conta do agravo financeiro pela perda de recursos para os operadores privados, que se instalam onde o fluxo de dinheiro é maior, resultando em perda de qualidade geral devido à diminuição do principal meio de sustentação financeira da empresa que é o subsídio cruzado, onde as poucas localidades lucrativas suprem as demais localidades que geram prejuízos operacionais. Se nessas localidades lucrativas os Correios perderem captação de receitas para as agências privadas, inviabiliza-se este pilar de sustentação. Essa mudança representa não apenas um problema financeiro, mas uma ameaça ao papel social dos Correios como prestador de um serviço universal e acessível à população.

Mas qual seria esse custo? o custo com agências franqueadas e privadas projetam R$1,7 bilhão anuais em 2025. Desde 2020, os relatórios contábeis e estratégicos dos Correios passam a evidenciar com maior clareza o impacto financeiro da diminuição acentuada de agências próprias e crescimento acelerado de agências privadas e franqueadas. É nesse intervalo que se consolida o modelo de expansão do atendimento pela rede privada e redução da estrutura estatal própria de unidades físicas.

A análise mais recente (2020 a 1T2025) reforça essa tendência. Mesmo com redução expressiva no quadro de pessoal e com os prejuízos acumulados advindos da perda de qualidade, a remuneração de agências franqueadas (AGFs) manteve-se elevada:

Custos com agências não próprias

● 2020: 1.975.876 bilhões

● 2021: 2.256.685 bilhões

● 2022: 1.957.233 bilhões

● 2023: 1.699.113 bilhões

● 2024: 1.742.944 bilhões

(até 9 meses/2025): R$ 1,377 bilhão

Os dados de 2025 revelam que 71% das localidades atendidas operam com prejuízo sob critérios de universalização. Com a inclusão da estrutura administrativa, esse índice sobe para 74%, e considerando todos os custos, chega a 89%. 

ATUALIZAÇÃO 3º TRIMESTRE 2025:

As demonstrações contábeis do 3º trimestre de 2025 confirmam a manutenção do modelo de terceirização, com despesas significativas direcionadas a unidades operadas por agentes privados:

Os dados reforçam que, mesmo com a grave crise financeira (prejuízo de R$ 6,057 bilhões em 9 meses), os repasses a operadores privados permanecem como despesa fixa relevante. O relatório não atualiza o número total de agências terceirizadas, mas o volume financeiro demonstra a consolidação do modelo que transfere receita pública para a iniciativa privada, comprometendo a captação direta pelos Correios.

A nota 6.1 do relatório contábil do 3º trimestre de 2025 revela ainda que as agências terceirizadas devem aos Correios o montante de R$ 145,9 milhões em serviços faturados, indicando possíveis tensionamentos no fluxo financeiro desta rede.


Podemos observar dois impactos principais:

1. Redução da receita líquida da ECT: nas agências privadas, os Correios repassam comissões a estes operadores, o que significa que a receita bruta gerada nas agências não se converte integralmente em receita líquida para a estatal.

2. Aumento de custos fixos: contratos mantidos com estes operadores privados mesmo em cenários de prejuízo.

Essa conjuntura reforça a tese de que o enfraquecimento da estrutura própria dos Correios comprometeu sua capacidade operacional e ajudou a agravar sua situação financeira a partir de 2022. Em localidades como a zona sul do Rio de Janeiro, onde se concentra o maior fluxo postal do estado, era normal ter muitas agências próprias próximas umas das outras para atender adequadamente toda a demanda que há naquela região. Sob o frágil argumento do sombreamento, utilizado por todo o Brasil inclusive, muitos clientes hoje em dia encontram agências privadas ou de concorrentes nesse espaço deixado pelo fechamento de agências próprias, observando que as decisões foram deliberadas para retirar dinheiro público dos cofres da estatal.



5. Queda da Qualidade Operacional

A realidade cotidiana nos centros de distribuição dos Correios revela que, em muitas localidades, a destruição decorrente do sucateamento já baixou a carga de serviço diário do setor de monopólio aos menores níveis históricos. Em diversas regiões do país, unidades operam com efetivos reduzidos ao mínimo, sobrecarregando trabalhadores pois muitas das posições de trabalho se encontram desocupadas, ampliando a percorrida dos carteiros remanescentes e prejudicando drasticamente a regularidade e a qualidade da distribuição postal.

Em São Paulo, embora a carga ainda seja considerável em relação ao restante do país, também se registra o menor nível histórico. Entretanto, a situação é particularmente crítica: sendo o estado de maior fluxo postal do Brasil, enfrenta problemas distintos das demais diretorias regionais. O caos operacional é mais cristalino, com um expressivo número de problemas pontuais ligados a obrigações administrativas como alugueis de imóveis, pagamento de fornecedores e até transportadoras parceiras terceirizadas. Também podemos destacar que há, em São Paulo, uma maior pressão exercida pelas gigantes privadas do setor logístico (lobby privatista inclusive de dentro da câmara dos deputados), que visam ampliar sua participação neste mercado bilionário, que é o maior do país, retirando mais ainda a fatia de encomendas das mãos dos Correios.

Além disso, relatos Brasil à fora de denúncias podem indicar que, desde muito tempo, eventualmente parte dos gestores se viram obrigados a ocultar indicadores relativos ao volume de cartas simples paradas em suas unidades, em decorrência da DDA e de falta de efetivo, por dificuldades operacionais sistêmicas e por receio de perda de funções. Essa ocultação, longe de resolver o problema, torna mais grave o processo de deterioração do serviço postal de monopólio. A falta de transparência pode impedir que a diretoria executiva tome conhecimento pleno da gravidade da situação, resultando na não abertura de vagas necessárias no concurso público. Essa distorção de realidade contribui para a manutenção da escassez de efetivo, gerando um ciclo de precarização que afeta diretamente a população e mina a credibilidade da empresa, trazendo problemas como:

● Crescimento de reclamações por atrasos de objetos simples, forçando as pessoas a migrarem para o digital.

● Redução da capilaridade de atendimento.

● Sobrecarga sobre o quadro remanescente.

Hoje em dia, perdemos no campo do monopólio e também no concorrencial. Perdemos duplamente. Tudo se resolveria simplesmente com contratações. 

Os dados financeiros de 2025 revelam que as despesas gerais e administrativas explodiram para R$ 3,4 bilhões no 1º semestre, puxadas por precatórios e RPVs (R$ 1,6 bi) e provisões trabalhistas. 


6. Resultados Financeiros


O prejuízo acumulado nos nove meses de 2025 já atinge R$ 6,057 bilhões, quase o triplo do registrado no mesmo período de 2024 (R$ 2,140 bilhões). No terceiro trimestre, o prejuízo foi de R$ 1,690 bilhão.

Como reportado pelo G1 e UOL em novembro de 2025, o prejuízo semestral bateu recordes históricos, confirmando a aceleração do colapso financeiro projetado neste estudo 


6.1 Dados financeiros críticos do 3º trimestre de 2025:


A auditoria independente das demonstrações contábeis de 2024 (Relatório Consult Auditores 1-04/25, de abril de 2025) revela a profundidade da crise financeira e contábil, emitindo uma opinião com ressalva. Para além do prejuízo operacional, a empresa acumula passivos contingentes e obrigações atuariais de magnitude bilionária que pressionam sua continuidade:

Este estudo aponta como principais causas desses prejuízos, além das questões acima e de efetivo reduzido:

Esses fatores combinados geraram uma erosão progressiva do resultado financeiro, agravada pela estagnação das receitas e pela crescente dependência de modelos terceirizados que não compensam, em retorno financeiro, o que custam à operação. A opinião com ressalva do auditor sobre as demonstrações de 2024 é a confirmação formal de que a crise não é apenas operacional, mas também de governança e controle.

Assim, os prejuízos estruturais registrados a partir de 2022 representam a culminação de decisões acumuladas desde o início da década anterior.

Urgente: 

TCU (via UOL, 13/11): A acusação de que os Correios esconderam R$ 1 bi de prejuízo em 2023 é a confirmação de que há sérios problemas contábeis. O TCU também descobriu que a empresa não tem tecnologia para calcular seu próprio passivo judicial.



7. Banco Postal: Rompimento e Efeitos

Segundo as representações, a não renovação do convênio com o Banco do Brasil, que mantinha o Banco Postal operando em agências dos Correios, resultou em perda significativa de capilaridade e de receita. A decisão afetou principalmente pequenos municípios, onde os Correios atuavam como único agente financeiro disponível para serviços bancários essenciais. A ausência de um novo parceiro financeiro comprometeu severamente o papel social e econômico da empresa em regiões menos assistidas, limitando o acesso da população a operações básicas como saques, depósitos e pagamentos.

Segundo reportagem do jornal Extra, publicada em janeiro de 2020, o Banco do Brasil e os Correios encerraram formalmente o convênio do Banco Postal . Apesar de o Banco do Brasil afirmar que manteria os serviços bancários nas agências dos Correios temporariamente, os efeitos da ruptura foram imediatos, principalmente em localidades onde os Correios eram o único ponto de acesso a serviços financeiros básicos.

O crédito tributário referente à resilição contratual com o Banco do Brasil foi atualizado para R$ 319,105 milhões, com decisão favorável do CARF em maio/2025 e utilização integral para compensação autorizada pela Receita Federal em outubro/2025. 


8. Impacto Atuarial nos Planos de Saúde e Previdência: Consequência Direta da Redução de Pessoal e má administração

O plano de saúde dos Correios, gerido pela operadora Postal Saúde desde 2013, atende empregados da ativa, aposentados e dependentes. Com um número expressivo de vidas cobertas nos anos de pico (estimativas não oficiais apontam centenas de milhares, como 400 mil vidas), os custos com assistência médica variaram entre R$ 1,2 bilhão e R$ 1,5 bilhão por ano, perfeitamente absorvido pela empresa se não fossem os ataques ao bem público dos últimos anos, conforme valores registrados nas demonstrações contábeis oficiais da empresa. A sinistralidade elevada (estimada acima de 90%) foi agravada pela redução contínua do efetivo e pelo envelhecimento dos quadros. Com má gestão e menos trabalhadores contribuindo, dizem que a conta tem se tornado insustentável para a empresa, que ainda sofreu reveses judiciais obrigando o restabelecimento parcial do custeio para aposentados (justo diga-se de passagem). O atendimento tem sido péssimo, motivo de descontentamento geral. O correto era a empresa arcar com 100% do valor pois os trabalhadores adoecem muito em decorrência da precarização proposital do trabalho e não é justo que, ao final de carreira, arquem com 100% da mensalidade, fora a coparticipação! um absurdo.

As demonstrações contábeis auditadas de 2024 trazem a dimensão concreta desse desequilíbrio: está reconhecida uma obrigação atuarial (passivo futuro) de R$ 2.293.939 mil (R$ 2,29 bilhões) relacionada ao plano de saúde. Este valor decorre da estimativa do subsídio cruzado necessário para cobrir os benefícios dos aposentados, embora a administração, baseada em decisão judicial, argumente que não deveria ter essa despesa. Na prática, os cálculos atuariais evidenciam um déficit crônico no custeio global do plano, agravado pelo envelhecimento da base de beneficiários sem a reposição de contribuintes ativos. 

Em maio de 2024, conforme noticiado pela Revista Oeste, os Correios realizaram uma transferência de R$ 7,6 bilhões ao Postalis com o objetivo de honrar compromissos passados e recompor parcialmente o equilíbrio financeiro do fundo de pensão dos empregados. Trata-se de um dos maiores aportes já feitos pela estatal para cobrir déficits acumulados historicamente. Fora diversas denúncias públicas e notórias sobre fraudes e má aplicações financeiras.

O relatório de auditoria de 2024 quantifica a obrigação da empresa com o Postalis em R$ 7.801.760 mil (R$ 7,80 bilhões). Este valor representa o déficit atuarial do plano de benefício definido, calculado após um Plano de Equacionamento de Déficit que incluiu a redução de benefícios futuros dos participantes e a "confissão de dívida" financeira e atuarial pela ECT. É importante destacar que, para o cálculo desse passivo, a administração utilizou premissas atuariais sensíveis e uma taxa de desconto baseada em títulos privados – uma prática contábil incomum no Brasil, onde a referência são os títulos do Tesouro Nacional. Essa escolha metodológica, embora tecnicamente permitida, introduz maior subjetividade e pode afetar significativamente o valor reportado. 

Até setembro/2025, confome relatório de auditoria independente já de 2025, a obrigação atuarial total dos Correios com planos de saúde e previdência atingiu R$ 10,574 bilhões, sendo R$ 7,889 bilhões referentes ao Postalis e R$ 2,661 bilhões à Postal Saúde. O cálculo do Postalis, no entanto, aponta um valor R$ 280 milhões superior ao registrado pela estatal 

Concluindo então que esses dois sistemas — saúde e previdência — atualmente dependem de boa gestão e equilíbrio atuarial entre ativos e inativos. Desde 2012, os Correios perderam cerca de 50 mil trabalhadores sem reposição alguma. O resultado é um quadro funcional cada vez mais envelhecido, com menor entrada de arrecadação e aumento contínuo de despesas. A reposição urgente de pessoal por meio de concurso público não é apenas uma necessidade operacional, mas também um fator fundamental para a sustentação financeira e jurídica dos regimes internos de proteção social dos trabalhadores dos Correios. Sem a entrada de novos contribuintes ativos e jovens, o desequilíbrio atuarial desses sistemas tende a se aprofundar, transformando-os em um poço sem fundo para os recursos da empresa e dos próprios trabalhadores. 



9: Iniciativas de recuperação e modernização (2025)

Diante da crise financeira e operacional sem precedentes, a administração dos Correios anunciou em 2025 um conjunto de medidas estratégicas:

Atualizaçao:

Obs: Sem a reposição urgente do efetivo humano, tais iniciativas correm o risco de não surtir efeito prático, mantendo a empresa em estado de colapso operacional.

Urgente:


Obs: Soluções apenas financeiras, sem a reposição de pessoal, são inviáveis. Não resolverão o problema. Apenas enriquecerão os agentes bancários que ganharão fortunas com esses empréstimos.




10. Decreto governamental 12.464/25

DECRETO REAFIRMA O PAPEL ESTRATÉGICO DOS CORREIOS COMO OPERADOR PÚBLICO ESSENCIAL

Em 21 de maio de 2025, o Governo Federal publicou o Decreto nº 12.464, que regulamenta os serviços postais e telegráficos no Brasil, reafirmando a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT) como:

Detentora do monopólio público sobre serviços postais estratégicos (Art. 3º, §2º):

Garantidora da universalização (Art. 24):

Responsável por serviços não atendidos pela iniciativa privada:

Proteção contra concorrência em áreas estratégicas:

Atividades correlatas exclusivas (Art. 11 e Art. 23):

Compromisso com a soberania nacional:


Atuações em situações de emergências ou calamidade pública



11. Conclusão

A partir da análise de fontes sindicais confiáveis, é possível observar que boa parte dessas políticas da diretoria executiva dos Correios da última década foi implementada sob um modelo de sucateamento institucional deliberado, com o objetivo político de justificar uma futura privatização. Os PDVs e PDIs foram aplicados sob forte pressão e metas de desligamento, com denúncias recorrentes de assédio institucional para indução à saída de trabalhadores experientes. As federações também denunciam que a substituição de agências próprias por franqueadas resulta em repasse de receita pública a operadores privados e perda de controle operacional. Essas fontes destacam ainda que a política de terceirização crescente, aliada à retirada de direitos, gerou sobrecarga de trabalho, aumento de adoecimentos e colapso em centros logísticos. 

O futuro dos Correios depende, em grande parte, da valorização de seus trabalhadores e da reposição urgente do efetivo. O atual quadro de pessoal encontra-se enxuto para o tamanho imenso deste país, exausto, envelhecido e com altos índices de adoecimento — o que impacta diretamente a produtividade, qualidade do serviço e por que não, nos custos do plano de saúde. Ainda assim, é a força desses profissionais que tem mantido de pé a estrutura da empresa pública.

Entretanto, sem a convocação dos aprovados no concurso de 2024, incluindo os de cadastro reserva, não haverá sustentação operacional, financeira e institucional para os Correios no curto prazo. A recomposição do efetivo é essencial não apenas para restaurar a qualidade dos serviços, mas também para equilibrar os planos de saúde e previdência e garantir a continuidade da missão social da estatal.

Os dados do 3º trimestre de 2025 confirmam a aceleração do colapso financeiro: prejuízo acumulado de R$ 6,057 bilhões em apenas 9 meses, patrimônio líquido negativo de R$ -10,410 bilhões, e dívida total de R$ 1,921 bilhão. A convocação imediata dos concursados não é mais uma opção estratégica, mas a última alternativa para evitar o colapso total da empresa pública. 

11.1 O ex presidente Fabiano seria o grande responsável?

Diante de toda análise histórica apresentada neste estudo, é muito provável que estejamos vivenciando hoje o resultado final das políticas adotadas lá de trás, de muito tempo. O atual presidente, diferentemente dos que passaram recentemente, costuma utilizar de seu espaço e alcance institucional para defender os Correios públicos e de qualidade, assim como faz elogios e defesa expressa aos funcionários. Isso molda opinião e gera tendências nos mais diversos campos. Que sua gestão apresenta problemas graves como a continuação do desmonte via desligamentos PDVs e fechamentos de agências próprias, isso é indiscutível. Mas não podemos negar que investimentos estão sendo feitos em estrutura (como novas frotas e smartphones) e imagem, acordos coletivos estão sendo assinados com recuperação de direitos históricos (ainda não todos). É importante destacar que infelizmente esta gestão executiva (dentro de mais um governo de esquerda) também mantém a principal política dos últimos anos, que é a mais pedida e importante para o capital privado, a de não concretização de políticas de contratação de pessoal concursado, apesar do atual concurso público realizado. Por que não aproveitar essa que pode ser a última grande oportunidade de salvar a empresa? agora este concurso tem 2 anos de vigência por lei pós homologação e a empresa ja afirmou recentemente que só irá mexer nisso a partir de 2027. Será que as forças que defendem a privatização são tão fortes assim que ninguém prioriza mais este assunto? dito isso, a tese de que este presidente é o grande culpado por tudo que agora esta acontecendo, não se sustenta no geral. A bomba plantada de muito tempo está explodindo agora.

Urgente: sobre governança 



12. Solução Proposta: Contratação já para suprir os desligamentos recentes

Diante de todos os elementos analisados — o esvaziamento do quadro funcional, a sobrecarga dos trabalhadores remanescentes, o envelhecimento da força de trabalho, a pressão sobre os sistemas de saúde e previdência, e a agora revelada crise contábil com passivos atuariais bilionários (R$ 10,1 bilhões em saúde e previdência) e provisões judiciais de R$ 2,7 bilhões —, a convocação dos aprovados no concurso público de 2024 deve ocorrer de forma célere e em número suficiente para repor pelo menos todos os desligamentos promovidos pelos PDVs e PDIs dos últimos anos, que somam cerca de 18 a 20 mil desligamentos até março de 2025, segundo dados oficiais. A urgência é tamanha que, sem essa reposição mínima, nenhum plano de modernização tecnológica ou reestruturação organizacional surtirá efeito. Mais grave: sem a recomposição da base de contribuintes ativos e jovens, os sistemas de saúde e previdência da empresa caminham para o colapso financeiro, confirmado pelas obrigações reconhecidas nas demonstrações de 2024.

A estratégia de enxugamento de pessoal não foi acompanhada de ganho em produtividade nem de um modelo de gestão mais eficiente. Ao contrário, intensificou a terceirização e comprometeu a qualidade dos serviços. Os dados contábeis provam que essa estratégia também falhou financeiramente, criando passivos ocultos que hoje ameaçam a continuidade operacional da empresa.

Este estudo sustenta que o desequilíbrio entre o corte de efetivo e o crescimento da dependência de terceiros comprometeu não apenas a qualidade dos serviços prestados pelos Correios, mas também sua sustentabilidade financeira e contábil, como atestado pela opinião com ressalva dos auditores independentes.

Além disso, é possível afirmar que os elementos analisados — incluindo os programas de PDV e PDI, a substituição crescente de agências próprias por privadas, os antigos repasses excessivos de dividendos ao governo, as mudanças contábeis desfavoráveis, a ausência de planejamento de longo prazo, talvez o pior de todos, a DDA, e a má gestão dos passivos atuariais e contingentes — atuaram como agentes diretos de sucateamento da estrutura operacional e financeira da empresa.

Sem pessoas em número suficiente, principalmente para atender, tratar e distribuir, não há marketplace, inteligência artificial, automação ou digitalização que mantenha a empresa de pé. O esvaziamento operacional compromete inclusive a capacidade de absorver inovações, já que falta gente até mesmo para garantir o básico. Da mesma forma, nenhum artifício contábil ou reestruturação atuarial conseguirá esconder por muito tempo a insustentabilidade de um modelo que demite seu presente e hipoteca seu futuro com dívidas bilionárias. Portanto a única solução estrutural de curto, médio e longo prazo, já viável legalmente e logisticamente, é o chamamento imediato dos concursados, não apenas para o preenchimento das vagas diretas anunciadas, mas por meio de um chamamento amplo e massivo do cadastro reserva, a exemplo do que foi feito em 2011. Além disso, é necessário o encerramento imediato da abertura de novas franquias de agências, revertendo a tendência de terceirização que compromete a sustentabilidade e o caráter público da empresa. Esta medida é urgente não só para recompor a operação, mas também para injetar contribuições novas e vitalidade nos combalidos sistemas de saúde e previdência dos Correios. Sem isso, qualquer debate sobre futuro será meramente teórico, pois os Correios correm o risco concreto de deixar de funcionar como empresa pública essencial à soberania e à cidadania no Brasil.




Referências

EXTRA. Correios e BB encerram acordo do Banco Postal, mas serviço será mantido. Disponível em: https://extra.globo.com/economia-e-financas/correios-bb-encerram-acordo-do-banco-postal- mas-servico-sera-mantido-24049542.html. Acesso em: maio 2025.

REVISTA OESTE. Correios transferem R$ 7,6 bi ao fundo de pensão Postalis. Disponível em: https://revistaoeste.com/politica/correios-transferem-r-76-bi-ao-fundo-de-pensao-postalis/. Acesso em: maio 2025.

BRASIL. Decreto-Lei no 509, de 20 de março de 1969. Dispõe sobre a transformação da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos em empresa pública. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/. Acesso em: maio 2025.

BRASIL. Lei no 12.490, de 16 de setembro de 2011. Altera a natureza jurídica da ECT. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/. Acesso em: maio 2025.

CORREIOS. Demonstrações Contábeis e Financeiras – anos 2011 a 2025. Disponível em: https://www.correios.com.br/. Acesso em: abril-maio 2025.

GAZETA DO POVO. Correios: lucros, prejuízos, receitas e despesas (2001–2020). Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/. Acesso em: maio 2025.

PORTAL DA TRANSPARÊNCIA. Dados de pessoal, contratos e gastos públicos – Correios. Disponível em: https://www.gov.br/transparencia. Acesso em: maio 2025.

TCU – Tribunal de Contas da União. Relatórios e auditorias sobre os Correios. Disponível em: https://www.tcu.gov.br/. Acesso em: maio 2025.

CORREIOS. Demonstrações Contábeis Intermediárias – até 3º Trimestre/2025. Disponível em: https://www.correios.com.br/. Acesso em: dezembro 2025.

CONSULT AUDITORES INDEPENDENTES. Relatório dos auditores independentes sobre a revisão das informações contábeis intermediárias da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos – ECT. Curitiba, 24 nov. 2025. 8 p. Relatório referente ao 3º trimestre de 2025. Disponível em: https://www.correios.com.br/. Acesso em: 10 dez. 2025.

OLIVEIRA, Vanilson. Correios suspendem negociação de empréstimo após veto do Tesouro. Correio Braziliense, Brasília, 03 dez. 2025. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2025/12/7305400-correios-suspendem-negociacao-de-emprestimo-apos-veto-do-tesouro.html. Acesso em: 10 dez. 2025.

PORTINARI, Natália. Correios esconderam prejuízo de R$ 1 bi no balanço de 2023, aponta TCU. UOL, São Paulo, 13 nov. 2025. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/colunas/natalia-portinari/2025/11/13/tcu-aponta-que-correios-esconderam-prejuizo-de-r-1-bi-no-balanco-de-2023.htm. Acesso em: 10 dez. 2025.

PORTINARI, Natália. Como os Correios entraram na sua maior crise (e não vão sair tão cedo). UOL, São Paulo, 15 nov. 2025. Disponível em: https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2025/11/13/como-os-correios-entraram-na-sua-maior-crise-e-nao-vao-sair-tao-cedo.htm. Acesso em: 10 dez. 2025.

RESENDE, Thiago; MOSQUÉRA, Júlio. Em crise, Correios aprovam contratação de empréstimo de R$ 20 bi para reestruturar estatal. G1, Brasília, 29 nov. 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/noticia/2025/11/29/em-crise-correios-aprovam-contratacao-de-emprestimo-de-r-20-bi-para-reestruturar-estatal.ghtml. Acesso em: 10 dez. 2025.

RODRIGUES, Larissa; NORBERTO, Cristiane. Correios buscam R$ 6 bi do Tesouro ainda em 2025 e empréstimo menor em 2026. CNN Brasil, São Paulo, 07 dez. 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/economia/correios-buscam-r-6-bi-do-tesouro-ainda-em-2025-e-emprestimo-menor-em-2026/. Acesso em: 10 dez. 2025.





Estudo elaborado por A. Mariano, 2025.

Nota sobre o uso e finalidade deste estudo

Este estudo reflete uma opinião fundamentada em fatos, documentos públicos e na experiência vivida neste período, com o objetivo de oferecer uma nova perspectiva crítica e construtiva sobre os desafios enfrentados pelos Correios. Não se trata de um documento institucional, mas de um esforço analítico e técnico com base em dados amplamente disponíveis.