Aluno: Artur Guilherme Wittitz
Data: 05/08/2024
Plauto e sua latinitas*
Ao pensarmos em modelos literários das mais diversas áreas e épocas, podemos elencar alguns autores bastante famosos, outros menos. No primeiro caso, podemos mencionar a importância de Shakespeare para o teatro inglês, podemos lembrar o papel que Cícero teve no desenvolvimento da antiga oratória romana ou podemos destacar a influência de Goethe para a literatura alemã. No segundo caso, infelizmente há várias pessoas que não são devidamente lembradas: temos poetas da Grécia Antiga como Píndaro e Safo, e há comediógrafos latinos como Terêncio que, apesar de elogio proveniente do próprio Cícero, não são minimamente citados dentro do atual público leitor.
A partir dessa comparação sucinta, gostaria de falar brevemente sobre outro autor “esquecido”, um comediógrafo latino que já fez muito sucesso no seu tempo e já foi objeto de muitos elogios, principalmente entre comentaristas da antiguidade. Falo neste caso de Tito Mácio Plauto, ou simplesmente Plauto, como se convencionou nomear.
Entre os comentadores antigos que o elogiaram, um deles foi Cícero, o mesmo que elogiou Terêncio. Na sua obra De Officiis, Livro I, Parágrafo 29, Cícero afirma que existem dois tipos de piada: a primeira seria vulgar e obscena, enquanto a segunda seria inteligente e elegante. Na sequência, afirma que Plauto é a do segundo tipo, assim como a antiga comédia ateniense e os livros dos filósofos socráticos.
Esse elogio de Cícero coincide com o de outros comentadores, os quais também elogiaram a latinitas e a elegantia da obra de Plauto. No geral, tal avaliação geralmente se refere ao “bom” uso do latim, sem elementos estrangeiros ou vícios na escrita. Porém, acredito que possamos atribuir um segundo sentido a esses elogios, especialmente à latinitas. Aqui, em vez de elogiar um “bom” uso do latim, atribuir latinitas ao texto significaria reconhecer um espírito latino no mesmo.
Para explicar o que seria um espírito latino, apresentarei de forma sucinta a elucidação realizada por Prescott quanto a um magistrado que se encontra na Aulularia de Plauto: o Magister Curiae. Farei isso devido à peculiaridade desse exemplo, o qual revela muito um dos objetivos de Plauto ao escrever comédias: trazer para o “espírito romano” as comédias novas da Grécia, as quais faziam bastante sucesso na sua época.
Em seu artigo “Magister Curiae in Plautus’s Aulularia 107”, Henry W. Prescott nos apresenta o seu argumento principal: Magister Curiae é uma tradução de um magistrado grego, e tal tradução não era sem efeito: seu entendimento seria muito claro para os ouvintes da peça. Nesse sentido, Prescott apresenta quem seria o paralelo grego: talvez o demarchos, mas o mais importante é que esse magistrado era alguém responsável por uma divisão política da Ática e tinha entre suas funções a distribuição de dinheiro da divisão política, assim como o magister curiae é responsável pela cúria de Euclião e distribui dinheiro para os membros da mesma.
Após essa hipótese, Prescott explica o papel dos curiones, magistrados que presidiam as cúrias romanas – mas não distribuíam dinheiro – e o papel dos magistri que presidiam os conlegia na cidade de Roma – os quais distribuíam dinheiro aos seus membros. Na sequência, através do Corpus Inscriptiorum Latinarum, apresenta registros que atestam a existência, em províncias romanas, de cúrias presididas por magistri, exercendo o mesmo papel dos mencionados curiones e magistri, isto é: os magistri curiarum realizavam rituais religiosos, administravam o erário e distribuíam eventuais sobras ou doações para os cidadãos do município provincial.
Com base nesses dados, Prescott afirma que o Magister Curiae não só existiu, mas também era um magistrado conhecido pela audiência da época. E, no caso de Plauto, a sua menção não é insignificante. É antes, segundo Prescott, uma interessante tradução que explica a ideia de um magister, e não um curio, presidindo uma cúria de uma cidade provincial e com competência financeira. E, no caso de Plauto, sua inspiração eram comédias novas gregas. Logo, o pano de fundo de suas comédias eram geralmente cidades gregas (no caso da Aulularia, uma rua de Atenas). Portanto, para ambientar corretamente a peça (em Atenas) e dar uma forma inteligível aos romanos (com latinitas), Plauto aparentemente escolheu traduzir o demarchos da peça grega que o inspirou por magister curiae. Esse magistrado poderia ser encontrado em cidades gregas conquistadas – as quais, após a conquista romana, foram naturalmente transformadas em cidades provinciais. Desse modo, é possível dizer que Plauto, em uma tacada só, fez uso de um magistrado provinciano para traduzir a especificidade da cultura grega, sem comprometer o entendimento da plateia. Em outras palavras: Plauto conseguiu dar um espírito latino a algo que não era, na sua origem, latino.
Exposta essa peculiaridade criativa de Plauto e o que quis se dizer com “espírito latino”, encerro aqui minha exposição com o seguinte argumento: Plauto não foi só um mero “adaptador” da comédia nova grega para o Latim. Foi, antes de tudo, um atento recriador da cultura grega para a cultura romana, traduzindo não palavra por palavra, mas vertendo o estilo grego para termos adequados à cultura romana. Portanto, sua leitura nos seria mais do que bem-vinda atualmente, até para se ensinar concretamente o que é uma “boa tradução” nos tempos hodiernos.
*Este texto foi escrito a fim de compor a avaliação final da disciplina de Teatro Antigo, ministrada pelo Professor Dr. Guilherme Gontijo Flores na Universidade Federal do Paraná (Primeiro semestre de 2024)