O uso da bicicleta como meio de transporte tem ganhado destaque nas discussões sobre sustentabilidade e mobilidade urbana em todo o Brasil. No entanto, a eficiência desse modal depende diretamente da qualidade e da segurança da infraestrutura oferecida pelas cidades. Recentemente, o projeto Ciclobservatório IFC, vinculado ao Instituto Federal Catarinense (IFC) – Campus Camboriú, trouxe luz a essa realidade na região ao apresentar os resultados detalhados de uma avaliação minuciosa da malha cicloviária de Balneário Camboriú e Camboriú.
Os dados, revelados durante o III Seminário Intermunicipal de Ciclomobilidade, mostram um cenário desafiador. Embora as duas cidades apresentem avanços em comparação a outros municípios brasileiros, os índices de desenvolvimento cicloviário ainda estão muito aquém do ideal. Balneário Camboriú atingiu apenas 10% da nota máxima possível, enquanto Camboriú alcançou meros 4%. O diagnóstico aponta para a urgência de melhorias estruturais, maior integração entre os bairros e a eliminação de obstáculos que colocam em risco a vida dos ciclistas.
Levantamento de dados
O processo de diagnóstico foi estruturado em diversas etapas ao longo de 2025. A equipe do Ciclobservatório IFC finalizou, em julho daquele ano, a coleta de dados de campo. O trabalho envolveu o mapeamento de todas as ciclovias, ciclofaixas e vias compartilhadas existentes nos dois municípios. Para garantir a precisão das informações, foi utilizado um aplicativo de georreferenciamento específico, permitindo registrar as condições reais de cada trecho percorrido.
Após a coleta, os dados foram enviados para a equipe mantenedora do Ideciclo - Índice de Desenvolvimento Cicloviário, que realizou a sistematização das informações em outubro. Esse processo transformou as observações de campo em indicadores numéricos e notas finais. A apresentação pública desses resultados serve como base para debates e tomada de decisões para acadêmicos, gestores públicos e a comunidade de ciclistas da região.
De acordo com a professora Roberta Raquel, coordenadora do projeto, "estes dados oferecem um diagnóstico técnico essencial para que os gestores planejem políticas de mobilidade urbana mais seguras e integradas."
Metodologia
A avaliação utilizou a ferramenta Ideciclo, desenvolvida pela Ameciclo (Associação Metropolitana de Ciclistas do Recife). Esta metodologia é referência nacional e já foi aplicada em diversas capitais brasileiras para medir a qualidade da infraestrutura voltada às bicicletas. O índice varia de 0 a 1, sendo que quanto mais próximo de 1, melhor é a estrutura oferecida ao cidadão.
Os parâmetros avaliados pelo Ideciclo são abrangentes e levam em conta:
Cobertura e Integração: o quanto a malha atende a cidade e se os trechos se conectam.
Tipo de Segregação: presença de barreiras físicas para proteger o ciclista.
Geometria: largura das vias e qualidade do pavimento.
Conservação: presença de buracos, bueiros ou falta de manutenção.
Sinalização e Segurança: existência de placas, pinturas e semáforos específicos.
Conforto: avaliação de obstáculos e riscos ao longo do trajeto.
A metodologia também respeita a hierarquia viária definida pelo Código de Trânsito Brasileiro (CTB). Vias arteriais, de alta velocidade, exigem ciclovias (segregadas fisicamente). Já vias coletoras ou locais admitem ciclofaixas (sinalizadas com tachões) ou compartilhamento com pedestres, desde que a velocidade dos automóveis seja compatível com a segurança do ciclista.
Para Daniel Valença, coordenador da Ameciclo, "padronizar a avaliação permite comparar cidades e identificar falhas estruturais com base em critérios técnicos, indo além do simples subjetivismo."
Resultados nas cidades
Os números revelam uma disparidade entre a extensão da malha viária total e o que é destinado às bicicletas.
A cidade de Balneário Camboriú possui uma malha viária de 383,6 km, dos quais apenas 65,9 km contam com vias ciclísticas, divididas em 70 segmentos. A nota final no Ideciclo foi de 0.110, contando com estruturas de boa qualidade, como a Ciclovia da nova Av. Martin Luther e com estruturas péssimas, como a calçada compartilhada na marginal da BR-101, que cruza a ponte sobre o Rio Camboriú.
Já Camboriú, com uma malha viária maior, de 480,2 km, mas possui apenas 41,5 km de infraestrutura cicloviária, distribuída em 41 segmentos. A nota obtida foi de 0.044, refletindo uma carência estrutural profunda. Dentre as melhores, destacam-se ciclofaixas no bairro Monte Alegre e, dentre as piores, pode ser citada a Ciclofaixa da Av. Santo Amaro.
Embora Balneário Camboriú apresente um índice numericamente superior, ambas as cidades sofrem com a falta de continuidade. O levantamento destaca que o resultado geral é positivo se comparado a outras cidades brasileiras onde o Ideciclo foi aplicado, mas, na prática, as notas são muito baixas dentro da escala do Ideciclo, denunciando que a infraestrutura atual ainda é tímida diante da demanda real e com qualidade insuficiente para atrair usuários.
Interpretação
A interpretação dos dados pelo Ciclobservatório IFC vai além dos números frios, focando na experiência do usuário. Um ponto crítico levantado é que, muitas vezes, a infraestrutura existe no mapa, mas não oferece segurança subjetiva ou real. Um exemplo emblemático é o novo trecho da ciclofaixa da Avenida Santa Catarina. Apesar de ser uma obra recente, ela provoca extrema insegurança devido à estreiteza da via e à proximidade com veículos em alta velocidade, sem barreiras físicas de proteção.
A falta de integração é, talvez, o maior entrave para que mais pessoas adotem a bicicleta como transporte diário. Em Balneário Camboriú, por exemplo, não existe uma via ciclística que conecte o Centro ao Bairro dos Municípios, região que concentra uma grande quantidade de trabalhadores que dependem da bicicleta. Em Camboriú, a ciclofaixa da Rua João Garcia, recentemente instalada, falha ao não se conectar com o bairro Santa Regina.
Para que a malha seja eficiente e segura, as cidades precisam adotar larguras determinadas pelo Manual de Sinalização Cicloviária do Contran - Conselho Nacional do Trânsito, mas não é que ocorre nas cidades avaliadas: em Balneário Camboriú, 69 % das vias ciclísticas estão abaixo da largura mínima de 2,00 m (42 km) e 93 % estão abaixo da largura desejável de 2,50 m (56 km). Em Camboriú, a situação é ainda pior: 78 % das vias ciclísticas estão abaixo da largura mínima de 2,00 m (36 km) e 88 % das vias não estão abaixo da largura desejável de 2,50 m (39 km).
A manutenção é outro gargalo. O estudo contabilizou 951 buracos, bueiros rebaixados e outros obstáculos nas vias analisadas, o que representa um obstáculo a cada 113 m, ou quase 9 obstáculos a cada quilômetro. Esses problemas obrigam o ciclista a realizar desvios bruscos, o que pode resultar em quedas ou colisões com veículos motorizados.
Além disso, a sinalização nos cruzamentos foi apontada como deficiente. A maioria dos semáforos não possui indicação específica para ciclistas, e a falta de pintura de ligação nas interseções deixa o usuário vulnerável aos motoristas que forçam a própria preferência.
Os resultados completos da avaliação, incluindo o ranking nacional e mapas detalhados de cada segmento analisado, podem ser consultados no site oficial do Ideciclo em https://ideciclo-camborius.vercel.app/index.html .
Sobre o Ciclobservatório IFC
O Ciclobservatório IFC é um projeto institucional do Instituto Federal Catarinense, Campus Camboriú, que se consolidou como uma das principais vozes técnicas sobre ciclomobilidade na região. Com foco no ensino, pesquisa e extensão, o projeto busca promover a bicicleta como um meio de transporte sustentável, econômico e saudável.
Embora o nome tenha sido oficializado em 2023, o grupo herda um vasto histórico de atividades e pesquisas realizadas por seus membros em anos anteriores. Atuando em parceria com a União de Ciclistas do Brasil (UCB), o Ciclobservatório não apenas aponta falhas, mas propõe soluções baseadas em dados científicos para auxiliar o poder público e sensibilizar a sociedade civil sobre a importância de cidades feitas para pessoas.
Para mais informações sobre as ações do projeto, acesse o portal do Ciclobservatório IFC em https://sites.google.com/view/ciclobservatorioifc/avaliacao .
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