Origem das claves e sua função na escrita das notas musicais...
PIAN-003
A notação musical (representação gráfica da música) foi fruto de uma evolução ao longo de muitos séculos: suas origens remontam à antiga Grécia (séc. III a. C.) e ela foi evoluindo ao longo dos séculos até estabilizar no séc. XVII (apenas a partir do séc. XX, com a introdução de novas fontes sonoras, surgem novos elementos de grafia musical).
Inicialmente não havia linhas de pauta nem havia uma indicação de referência que permitisse identificar a altura exata das notas (figura 1). Com a introdução gradual das linhas de pauta, começou-se a indicar uma linha de referência para uma determinada nota, escrevendo no início de uma das linhas a letra correspondente a essa nota. As três notas usadas como referência são o FÁ, o DÓ e o SOL, representados inicialmente pelas letras F, C e G respetivamente; foram justamente essas letras que deram origem aos sinais gráficos atuais das CLAVES de FÁ, DÓ e SOL.
Figura 1: "Alleluia", por volta dos anos 922 - 926 (detalhe). Este manuscrito é parte integrante de uma coleção de cânticos litúrgicos gregorianos do Convento de São Galo na Suíça e encontra-se preservado até hoje na biblioteca do convento (figura 2). Acesse aqui o original desta imagem, assim como a coleção completa dos manuscritos digitalizados (e-codices – Virtual Manuscript Library of Switzerland)
Figura 2: Biblioteca do Convento de São Galo na Suíça
Figura 3: De Meister Boppe, "O hoer vnde starker almechtiger got'' , c. 1330 (detalhe). Da coleção de canções manuscritas de Jena ("Jenaer Liederhandschrift"), preservado na biblioteca da Universidade da Turíngia, na cidade de Jena, Alemanha ("Thüringer Universitäts- und Landesbibliothek"). Esta coleção também está disponível online (acesse aqui o original desta imagem assim como a coleção de manuscritos).
Figura 4: Motete "Omnium bonorum plena" de Loyset Compère, manuscrito do ano 1472 (detalhe). Acesse aqui a imagem na íntegra.
Exemplos de manuscritos com indicação de uma linha de referência com as notas FÁ, DÓ e SOL e a evolução da grafia segundo Wiechowicz Stanisław, compositor polonês. Os três detalhes de manuscritos aqui representados (figuras 5, 7 e 9) são anteriores ao ano de 1250 e pertencem à coleção da biblioteca do Convento de São Galo na Suíça.
CLAVE de FÁ
Símbolo atual da clave de fá
Figura 5: Detalhe de manuscrito com a nota FÁ (letra F) como referência para a segunda linha (ver manuscrito completo)
Figura 6: Evolução da grafia segundo Wiechowicz Stanisław
CLAVE DE DÓ
Símbolo atual da clave de dó
Figura 7: Detalhe de manuscrito com a nota DÓ (letra C) como referência para a segunda linha (ver manuscrito completo)
Figura 8: Evolução da grafia segundo Wiechowicz Stanisław
CLAVE DE SOL
Símbolo atual da clave de sol
Figura 9: Detalhe de manuscrito com a nota SOL (letra G) como referência para a segunda linha (ver manuscrito completo)
Figura 10: Evolução da grafia segundo Wiechowicz Stanisław
Cada uma das claves tem a sua nota de referência:
Esquema 1: Notas de referência para as claves de fá, dó e sol
As claves escrevem-se sobre a linha à qual queremos atribuir a nota de referência da clave; no entanto, o símbolo de cada uma das claves tem o seu ponto específico para posicionamento na linha desejada (esquema 2)
Esquema 2: Como posicionar e desenhar as claves de fá, dó e sol
Cada uma das claves pode ter diversas posições possíveis no pentagrama (esquema 3), no entanto algumas dessas posições já caíram em desuso:
CLAVE DE FÁ: atualmente na 4ª LINHA (anteriormente também na 3ª e 5ª linhas)
CLAVE DE DÓ: atualmente na 3ª ou 4ª LINHA (anteriormente também na 1ª e 2ª linhas)
CLAVE DE SOL: atualmente na 2ª LINHA (anteriormente também na 1ª linha)
Notar que:
Esquema 3: Posições mais comuns das claves de fá, dó e sol
Usamos três claves diferentes por motivos de clareza gráfica: cada clave, com a sua posição no pentagrama, vai permitir a escrita de notas predominantemente graves, médias ou agudas, evitando na medida do possível, o recurso a número excessivo de linhas suplementares.
A clave de sol na 2ª linha destina-se à escrita de sons predominantemente agudos, a clave de dó (na 3ª e na 4ª linha) à escrita de sons médios e, por último, a clave de fá na 4ª linha à escrita de sons graves.
Nos esquemas 4 e 5, ilustro como seriam escritas todas as notas naturais do piano recorrendo apenas à clave de sol e recorrendo às claves de sol e fá; o esquema 6 mostra o âmbito de uso de cada uma das claves nas suas posições mais usuais.
Esquema 4: Escrita, apenas na clave de sol, de todas as notas naturais do teclado do piano
Esquema 5: Escrita de todas as notas naturais do teclado do piano (clave de sol e fá)
Esquema 6: Âmbito das claves de fá, dó (3ª e 4ª linha) e sol
As claves são sempre o primeiro símbolo a escrever no início do pentagrama: não apenas no início da música, mas sim no início de cada novo pentagrama.
A clave inicial não precisa ser obrigatoriamente mantida ao longo de toda a música: no decorrer da música é possível mudar de clave, sempre que necessário, e quantas vezes forem necessárias. Ao mudar de clave, há no entanto algumas regras a observar (esquema 7):
Esquema 7: Exemplos de mudanças de clave
O piano abrange sons da região grave, média e aguda, mas outros instrumentos não: uns produzem sons predominantemente graves, outros médios, outros agudos... O mesmo acontece com as vozes: umas são graves, outras médias e outras agudas. Assim sendo, cada uma das claves será mais apropriada para determinados tipos de instrumentos ou vozes.
No seguimento, primeiro um esquema que dá uma visão geral do uso das claves em alguns instrumentos e vozes (esquema 8) e depois alguns detalhes sobre esses mesmos instrumentos, com vídeos e ligações externas para quem quiser conhecê-los melhor.
Esquema 8: Alguns instrumentos e vozes, suas extensões e claves
Instrumento de corda
Extensão: dó 3 - lá 6
Claves: dó na 3ª linha e sol
Instrumento de corda
Extensão: dó 2 - lá 5
Claves: fá, dó na 4ª linha e sol
Instrumento de sopro
Extensão: si bemol 1 - mi bemol 5
Claves: fá e dó na 4ª linha
Fontes das imagens:Figura 1: commons.wikimedia.orgFigura 2: Por Stiftsbibliothek St. Gallen, sob licença CC BY-SA 3.0 , via Wikimedia Commons.Figura 3: Jenaer Liederhandschrift (Thüringer Universitäts- und Landesbibliothek Jena, Ms. El. f. 101)Figura 4: commons.wikimedia.orgFigura 5: St. Gallen, Stiftsbibliothek, Cod. Sang. 383, p. 19 – Sequentiae. Hymni (http://www.e-codices.unifr.ch/en/list/one/csg/0383/19) Figura 6: Imagem retirada de Wiechowicz Stanisław, Ćwiczenia w starych kluczach. Część pierwsza. 3-głosowe utwory dawnych mistrzów (XIII-XVIII w.). Cracow, Polskie Wydawnictwo Muzyczne, 1953. Licença CC BY 4.0. Via Wikimedia Commons Figura 7: St. Gallen, Stiftsbibliothek, Cod. Sang. 383, p. 73 – Sequentiae. Hymni (http://www.e-codices.unifr.ch/en/list/one/csg/0383/73) Figura 8: Imagem retirada de Wiechowicz Stanisław, Ćwiczenia w starych kluczach. Część pierwsza. 3-głosowe utwory dawnych mistrzów (XIII-XVIII w.). Cracow, Polskie Wydawnictwo Muzyczne, 1953. Licença CC BY 4.0. Via Wikimedia CommonsFigura 9: St. Gallen, Stiftsbibliothek, Cod. Sang. 383, p. 70 – Sequentiae. Hymni (http://www.e-codices.unifr.ch/en/list/one/csg/0383/70) Figura 10: Imagem retirada de Wiechowicz Stanisław, Ćwiczenia w starych kluczach. Część pierwsza. 3-głosowe utwory dawnych mistrzów (XIII-XVIII w.). Cracow, Polskie Wydawnictwo Muzyczne, 1953. Licença CC BY 4.0. Via Wikimedia CommonsEsquemas 1 a 9: criados por Alexandra Torrens para os cursos de piano erudito da CAT - Casa Alexandra TorrensBibliografia:Bosseur, Jean-Ives: "Do Som ao Sinal, História da Notação Musical", tradução de Marco Aurélio Koentopp, 2014, editora UFPR (Universidade Federal do Paraná), ISBN 078-85-65888-78-3Dolmetsch Music Theory & History onlineWikipedia.orgSymphony Orchestra Library Center: Ranges of Orchestral InstrumentsVienna Symphonic Library: INSTRUMENTOLOGY ""Claves" de Alexandra Torrens está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 4.0 Internacional. CAT - Casa Alexandra Torrens
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