Caminho de Santiago de Compostela
El Camino
El Camino
Caminho Francês - setembro 2011
Introdução
Meus colegas, recebi o simpático convite do Laboratório da Qualidade de Vida da PGE RJ para falar sobre o Caminho de Santiago de Compostela e escolhi este setembro 2021 porque nele comemoro 10 anos dessa experiência fantástica, intensa em aventuras, inesperados, paisagens, sabores, tradições, cultura e simbolismos.
Por coincidência, comemoro estes 10 anos justamente num ano Jacobeo (Xacobeo, em galego), que é o ano santo que acontece quando o dia 25 de julho, dia de Santiago, cai num domingo. Isto ocorre em intervalos de 6-5-6-11 anos e o Xacobeo é um ano de comemorações especiais e festividades em Santiago de Compostela.
O Caminho tem uma história riquíssima. É uma rede densa de itinerários que atravessam a Europa há 1.200 anos e que convergem para a mítica cidade galega. Para lá se dirigiam, desde o século IX, peregrinos procedentes de toda a Europa, inclusive da Escandinávia e do Leste Europeu. Essa rede de itinerários traz uma história viva e é o cenário onde continuam se encontrando povos das mais variadas culturas e religiões. Por essa característica aberta, ecumênica, em 1993 recebeu da Unesco o título de Patrimônio da Humanidade.
“Em 1987, o Conselho da Europa outorgou a distinção de “Primeira Rota Cultural Europeia” ao Caminho de Santiago - em seu itinerário desde a França - por sua contribuição ao desenvolvimento da identidade europeia desde a Idade Média. O denominado Caminho Francês ou franco - navarro é o mais percorrido e é considerado artéria viva do Ocidente.
Em 2004, o Conselho da Europa reafirmou sua valoração do Caminho ao proclamá-lo “Grande Itinerário Cultural da Europa” porque representa "o significado do ser humano em sociedade, as ideias de liberdade e de justiça (...), um espaço de tolerância, de conhecimento e de solidariedade, um espaço de diálogo e reunião.
Também em 2004, o caminho Xacobeo recebeu o Prêmio Príncipe de Concórdia.” (Goethe Institut)
A tradição mística do Caminho começa no século IX, quando, segundo a crença, luzes sobrenaturais levaram um monge eremita a descobrir o túmulo do Apóstolo Tiago Maior nos restos de uma capela próxima a um cemitério romano (onde hoje está a Igreja de São Félix de Solovio), em um campo da Galícia, que, em razão das luzes misteriosas, foi batizado de Campo de Estrelas, ou Campus Stellae, em latim, daí a origem de “Compostela”. E aí nasceu a cidade.
Ao transmitir o convite, a Tatiana Benjoino me pediu para falar um pouco sobre o que o Caminho pode trazer para o aprendizado, para o crescimento pessoal.
O que posso dizer é que o Caminho, como toda a grande jornada, é uma experiência física, sensorial e emocional fabulosa, original, épica (!), que marca de um modo muito especial a todos os que têm a oportunidade de percorrê-lo. Guardo a memória do Caminho como um patrimônio pessoal.
Hoje em dia, a peregrinação não tem mais, necessariamente, o propósito religioso que tinha na sua origem medieval e tornou-se ecumênica, embora conserve a força simbólica do grande evento que é chegar a Santiago de Compostela, à imensa Praça do Obradoiro, diante da Catedral, visitar o túmulo do Santo, assistir à Missa do Peregrino, com a cerimônia impressionante do Botafumeiro, e receber a Compostela – o diploma de peregrino outorgado pela cidade.
Minha Compostela - 22.09.2011
Para ganhar a Compostela é preciso comprovar que cumpriu o trajeto, o que se faz por meio dos carimbos dos albergues estampados na Credencial do Peregrino.
Acredito que, independentemente de crença religiosa, a motivação do Caminho é muito parecida para todas as pessoas: aceitar um objetivo difícil, realizá-lo com os próprios meios, provar-se, persistir, experimentar viver com pouco, desfazer-se do supérfluo, percorrer um caminho milenar, embrenhar-se na natureza, enfrentar vento, sol, chuva, frio e calor, contemplar belas paisagens, conhecer tradições, e, no fim do dia, comer, beber vinho e encontrar camaradagem...
À medida que se progride no percurso a resistência física vai aumentando, o corpo vai se habituando e endurecendo com o trabalho, mas os sentimentos, por outro lado, vão se abrandando. É o efeito da dureza cotidiana e da simplicidade da vida, a partir da qual as pequenas coisas passam a ser valorizadas.
Penso nas duas grandes dimensões da minha experiência.
A primeira tem a ver com a aventura, o desafio físico e técnico, o planejamento necessário, a preparação minuciosa. Passei a viver intensamente o Caminho nessa fase de preparação. A viagem começa aí. É um período de curiosidade, inquietação, pesquisa, leituras, detalhamento, cálculo - de busca de informação e orientação de quem tem experiência. As histórias do Caminho, sejam reais ou ficção, tomam conta da imaginação. É uma fase de imersão, de encantamento e de grande excitação.
E, de repente, chega o grande dia! Hora de embarcar. O Caminho está começando para mim? O que será que vou encontrar? Como será realmente o que tantas vezes imaginei, estudei, repassei exaustivamente, percorri em detalhes mínimos? A expectativa é imensa, há uma certa irrealidade nesses momentos que antecedem, mas há também uma leveza de coração e uma energia contida: vontade de voar, de experimentar, está tudo por fazer, uma tremenda vontade de cair no mundo!
A segunda dimensão é a interior. É o modo como a jornada me afetou emocionalmente. Há, de fato, uma experimentação intensa de sentimentos, às vezes difíceis, como impaciência, ou desânimo, para alguns, mas que ao final deixa uma sensação única de realização, de objetivo cumprido e de paz.
O esforço exigido do corpo e da vontade, a disciplina, o ter que contar apenas com os próprios meios, ter que cuidar de si próprio sem perder um minuto de tempo, que é precioso na disciplina da estrada (ou, se acaba dormindo numa igreja, isto com sorte...), os longos períodos de solidão, a resiliência, a beleza natural, a história, a riqueza da cultura, e as pequenas dádivas do dia a dia, que a gente passa a valorizar cada vez mais - é curioso -, purificam, modificam os sentimentos de verdade.
A tradição do peregrino é de simplicidade, de viver com o essencial, de aproveitar o que o Caminho dá e de comemorar com os demais. Apesar da dureza da viagem, por incrível que pareça, é exatamente nisso que consiste a sua graça. É uma experiência muito saborosa. Às vezes a gente conhece uma pessoa, conversa, come com ela, começa uma amizade e se separa na manhã seguinte. Há um sentimento de perda por isso. Mas alguns dias depois, inesperadamente, em alguma outra cidade, eis novamente a pessoa - que alegria! É como reencontrar uma velha amizade.
Os objetivos pessoais e o foco do Caminho podem ser bem diferentes. Alguns tem um propósito esportivo. Outros vão para pensar na vida, ou para deixar os seus problemas para trás, ou para tentar encontrar alguma resposta. Tem gente que viaja com vans apoiando para o transporte da bagagem, suprimento de bebidas e alimentação etc. Esse não é o verdadeiro espírito do peregrino.
Alguns talvez queiram turismo e aventura com pouco gasto. De fato, com a credencial se obtém acomodação nos albergues e o menu peregrino – de modo geral boa comida e farta incluindo o vinho –, é oferecido a preços módicos. A acomodação é comunitária e longe de ser confortável, é apenas suficiente para descansar o corpo e se reabastecer no final do dia. E como isso é bom!
Eu fui pela aventura, pelo esporte, e pela intensa curiosidade em relação a tanta história e a tantas histórias que fazem a magia do Caminho. Uma viagem que começa entre os bascos e termina entre os celtas tem que ter alguma coisa mágica...
Ao longo do percurso experimentei transformações no corpo e nos sentimentos.
Com o passar do tempo fui sentindo uma crescente ternura por todas as pequenas criaturas vivas, ao mesmo tempo que gratidão e um respeito profundo por tudo, do respeito civil - da ordem, da convivência -, ao respeito pela vida dos serem mais simples na natureza. É engraçado como enternecem a inocência e a luta deles pela vida - luta com a qual passamos a ser solidários, e vida que compreendemos estar compartilhando com eles neste mundo, cada qual com o seu destino.
Por outro lado, ao mesmo tempo em que o respeito e a compaixão se tornavam sentimentos centrais na jornada, e o prazer do encontro e da convivência muito desejado, houve longos períodos de total afastamento, de desejo de continuar completamente só e em paz naquelas trilhas, momentos em que a iminente aproximação de outros peregrinos era difícil de suportar. Sim, quantas vezes me desviei para evitar a indesejada proximidade.
Essa reação de intolerância, idilista, a dificuldade de aceitar a presença “inoportuna” daquele que nos é estranho, fruto talvez dos longos períodos solitários no espaço aberto, que se contrapõem a uma intimidade às vezes difícil na vida comunitária dos albergues, foi forte e chegou a ser perturbadora: em dado momento foi preciso fazer um esforço de reflexão e procurar corrigir. Eu estava me sentindo como aqueles colonos solitários dos Apalaches do século XIX, dos filmes americanos, que recebiam à bala qualquer um que se aproximasse da cabana.
E me lembro de ter decidido: está na hora de sair do isolamento e de humanizar a presença do outro! Enfim, a tolerância é uma lição difícil. Mas, nem sempre foi assim. Na maior parte das vezes era um sorriso, um aceno e a saudação muito cordial entre os peregrinos: “Buen Camino!”
Há quem seja mais gregário e prefira fazer o Caminho em grupo. Eu, por natureza, preferi fazer sozinho. Gosto de experimentar a solidão, não o abandono, a solidão sem esperança, mas o recolhimento voluntário. Gosto da intensidade dos sentimentos quando se está sozinho por muito tempo na paisagem imensa.
Em todo caso, posso afirmar que, qualquer que seja o temperamento, não há quem faça o Caminho que não se sinta tocado de uma forma especial.
Mas, toda a intensidade de vida - sensorial, física e emocional -, é interrompida de repente quando chego à Praça do Obradoiro, diante da Catedral. Voltar à vida cotidiana, às tensões do mundo, exceto pela saudade que eu estava sentindo da minha mulher e das minhas filhas, seria começar a gastar a reserva de leveza de sentimentos - o estado de graça...
Objetivo concluído – e já batia forte a nostalgia da vida no Caminho -, fiquei sem saber o que fazer. Lembrei-me de Fernando Pessoa (Opiário):
“Pertenço a um género de portugueses
Que depois de estar a Índia descoberta
Ficaram sem trabalho. A morte é certa.
Tenho pensado nisto muitas vezes.”
Não contarei os acontecimentos da minha viagem porque o Caminho, quase sempre, dá um livro para quem o faz. Vou fazer um breve resumo do início e do fim do percurso, isto é, dos Pirineus e de O Cebreiro, e dar algumas dicas para quem estiver interessado em fazer. Já me pediram para falar sobre o planejamento - darei linhas gerais. É muita coisa para este formato.
Fiz de bicicleta o Caminho Francês, ou Franco-Navarro, um dos mais tradicionais, que começa em Saint Jean Pied de Port, no país Basco francês, atravessa os Pirineus e segue pelo Norte da Espanha passando por quatro comunidades autônomas: Navarra, Rioja, Castilla y León e Galicia, terra dos meus antepassados. O Caminho termina em Santiago, local do túmulo do Santo, mas há uma tradição, que alguns seguem, de desfazer-se das roupas em Finisterra, no litoral, 80 km adiante. É simbólico, não necessariamente parte da peregrinação. Quem faz de bicicleta é chamado de “bicigrino”.
Meu percurso
Parti do Rio num voo da IBERIA destino Madrid no dia 31.08.2011. De lá, conexão para Pamplona onde resolveria que transporte usar para um trajeto de 100 km atravessando os Pirineus no sentido contrário até Saint Jean Pied de Port, ponto de início do Caminho Francês. No aeroporto de Pamplona conheci um grupo de quatro brasileiros que pensavam ir de ônibus e convenci o pessoal a tentarmos encontrar uma van, que me encarreguei de procurar e negociar. Acabou sendo a melhor coisa: mais rápido, prático e pelo mesmo preço que o ônibus.
Dados gerais do meu percurso
• 900 km (pelo odômetro), incluindo pedaladas exploratórias fora do roteiro principal.
• 18 paradas
• 17 etapas de percurso
• Média de 52,94 km/dia
• Maior percurso diário: 76,16 km
Início: SAINT JEAN PIED DE PORT (França)
Saint Jean Pied do Port (Donibane Garazi, em basco), é um lindo vilarejo medieval (século XI, mais ou menos) na Baixa-Navarra (Nafarroa Beherea), uma das províncias do país basco histórico. Fica no coração do País Basco francês. Teve importância histórica como entreposto comercial, cidadela e elo na rota de travessia dos Pirineus a partir de Roncesvalles (Orreaga), na Comunidade Autônoma da Navarra, Espanha. Os vestígios históricos que se encontram em toda a região são fascinantes. Em Roncesvalles a retaguarda do exército de Carlos Magno foi derrotada pelas tribos bascas. É o primeiro local de descanso do peregrino que atravessa os Pirineus.
Saint Jean Pied do Port (SJPP)
Chegada a Saint Jean Pied de Port
Proprietária do Auberge du Pèlerin
Saint Jean Pied do Port
Esquina do Navarre, onde comemoramos a chegada: bom prato de "charcuterie" e vinho da região
Nosso grupo de brasileiros da van Pamplona - Saint Jean Pied de Port
Detalhe da idade da casa: ano 1500
Montando a bike
Muros da Cidadela
Interior da Cidadela
Descanso no albergue (esperando o vinho)
Descobrindo recantos
Explorando a região
Despedida de Saint Jean Pied do Port
Puerta de España - Momento da partida rumo aos Pirineus!
Etapa SAINT JEAN PIED DO PORT -> RONCESVALLES (Navarra)
Saint Jean Pied de Port – travessia dos Pirineus - Roncesvalles
Os Pirineus
A travessia dos Pirineus, o primeiro grande obstáculo, oferece uma das paisagens mais lindas do Caminho Francês. Optei por atravessar a montanha pela chamada Rota de Napoleão. São 26 km entre Saint Jean Pied do Port e Roncesvalles, quase 20 km km de subida, o que exige grande esforço. A maior parte do trajeto pode ser feita por uma estradinha estreita e pavimentada, muito antiga (D428), mas a partir da chamada Cruz Thibault sai-se para as trilhas que atravessam os colos de Bentartea e Lepoeder, os pontos mais altos. São longos trechos de trilha bastante difíceis para bike, especialmente com chuva.
O tempo nessa região é muito instável e as tempestades são súbitas. É preciso verificar as condições meteorológicas esperadas para não ser surpreendido. Mas fui surpreendido. Fiquei quatro dias em SJPP porque o tempo na montanha estava ruim. Quando abriu, comecei travessia com um tempo lindo. No meio da subida veio a tempestade com ventos fortes, muito frio, neblina e pouca visibilidade.
Início da subida
Fiz a travessia da montanha com outro ciclista brasileiro, o Angelo Giovani, do grupo que conheci em Pamplona, o que foi sensato, considerados os riscos, mas por termos visões diferentes do Caminho nos separamos na manhã seguinte em Roncevalles, de onde preferi seguir sozinho.
Momento difícil
Parada para descanso
Referência às etapas de travessia dos Pirineus descritas no Guide du Pèlerin do século XII do monge francês e peregrino Aimery Picaud.
Subindo (inclinação de 15%)
E subindo
(empurrando a bike vem o companheiro de travessia Angelo Giovani...)
Paisagens do entorno do Refuge Orisson (Google)
Sopa para se aquecer no Refuge Orisson (altitude 800 m)
Clique aqui para ver a beleza da paisagem
Refuge Orisson - Encontro com peregrinos de Manaus!
O tempo começa a fechar no Refuge Orisson...
Tempestade brusca (temperatura 13°)
Deixa-se a estradinha D428 à direita, ao chegar à Cruz Thibault, e inicia-se uma trilha de subida difícil que passa pelos colos Bentartea (1.344 m) e Lepoeder (1.432 m). Esse trecho é perigoso se o tempo estiver ruim.
Trecho de trilha no colo Bentartea
Chegada ao Refúgio Izandorre (altitude 1.300 m)
Passando o Refúgio Izandorre, único abrigo possível, sobe-se até o Colo Lepoeder, a 1.400 m, a partir de onde começa a descida (uns 5 km) até Roncesvalles (altitude 952 m). Por causa da chuva e do vento forte não pude fazer fotos externas, mas incluo algumas fotos de outros peregrinos para dar uma ideia.
Esse trecho da montanha exige muito preparo físico, ter estudado as características do percurso, seus riscos e alternativas, e muito cuidado com as mudanças bruscas do tempo. O cansaço, a chuva, o vento, o frio e a neblina podem desnortear o peregrino, causar hipotermia e acidentes. São comuns os resgates de peregrinos exaustos, incapazes de continuar, inclusive de brasileiros. Há casos de mortes. Com condições meteorológicas adversas é preciso muito cuidado. Com bom tempo têm-se paisagens deslumbrantes.
Se não fosse o Refugio Izandorre, onde conseguimos acender a lareira e pude me aquecer e recuperar, eu teria ficado numa situação difícil. A Ingrid, essa peregrina da foto comigo, é belga e estava abrigada no Izandorre onde passaria a noite sozinha por medo de prosseguir a pé com o tempo fechado. Nos correspondemos depois e me contou que correu tudo bem. A partir de certa época do ano, a passagem pelos colos é interrompida.
O Izandorre (fotos de terceiros)
Albergue de Roncesvalles (construção do século XII)
Confraternização com peregrinos franceses em Roncesvalles
Tudo pronto para partir de Roncesvalles
Saída de Roncesvalles – flecha amarela indicativa do Caminho
A partir daqui, de Roncesvalles, mostrarei fotos do cotidiano através da Navarra, Rioja e Castilla y León e Galícia, até Santiago de Compostela, e inserirei, eventualmente, textos curtos. Destaco no final a famosa etapa do Cebreiro, linda passagem de montanha, entrada da Galícia e último grande obstáculo a transpor.
Embora tenha sido necessário encurtar a narrativa por limitações do formato, o percurso entre a Navarra e a Galícia, através de La Rioja e Castilla y León, constitui o maior trecho do Caminho. Atravessa uma grande variedade de regiões, paisagens e relevos. Nessa etapa estão cidades de grande importância histórica e cultural, como Logroño, Burgos, León, Astorga etc.
A partir de Burgos - especialmente a partir de Castrojeriz -, e até León, enfrenta-se um relevo plano, de uns 150 km, através das famosas “mesetas”, considerado um dos mais difíceis para os peregrinos porque o calor é intenso, a atmosfera seca, a paisagem monótona, vegetação baixa, campos de trigo e cevada, muito sol, quase sem sombra para se abrigar, e retas que parecem não acabar. Por ser um dos trechos mais penosos, há quem o considere o mais “pedagógico”. Há peregrinos que evitam a meseta e há os que desistem aqui. É verdade que os “bicigrinos” levam grande vantagem nesse tipo de relevo em relação aos peregrinos a pé.
Há um trecho notável entre Carrion de Los Condes e Ledigos, em plena Castilla y León, a Via Aquitania, que é um pedaço intacto da antiga estrada romana que ia de Bordeaux a Astorga, usada desde a Idade Média pelos peregrinos a caminho de Santiago de Compostela. É um trecho difícil por ser uma reta de 12 Km através do descampado, onde não há nada à vista, quase não se encontra uma sombra e o calor é intenso. Tive a oportunidade de ajudar com a minha reserva de água um peregrino que estava muito desidratado e nervoso – falta de planejamento, talvez, mas sabe-se lá!
O trecho final da etapa LEÓN-ASTORGA, que culmina no Cruceiro de Santo Toribio, de onde se tem uma ampla vista de San Justo de la Vega e Astorga, percorre um relevo de transição entre a planície e a região montanhosa chamada de Montes de León.
Etapa RONCESVALLES -> PAMPLONA
Roncesvalles – Burguete – Erro - Zubiri – Urdaitz – Larrasoaña – Huarte - Pamplona
Zubiri (Navarra)
Sesta em Larrasoaña
(12h e não se encontra mais ninguém nas ruas)
Albergue em Huarte (Navarra)
Uma forte dor na coluna, antiga protusão, me forçou a fazer um pouso imprevisto em Huarte, pouco antes de Pamplona, que era o objetivo. Era preciso relaxar, fazer exercícios de fisioterapia e tomar analgésico e antiinflamatório. Esse problema, que eu vinha tratando há meses, quase me tirou do Caminho, ou melhor, tentou me tirar. Mas, como eu escrevi, numa bravata para a Ingrid, a peregrina belga que encontrei no abrigo Izandorre, nos Pirineus: “do Caminho só saio numa maca!”. Foi bravata, mas eu tinha disposição para pagar o preço. E paguei.
A dor forte me acompanhou pelo resto do Caminho, com alguns episódios agudos, em geral ligados a situações, felizmente raras, em que foi preciso empurrar ou carregar a bicicleta para transpor obstáculos. Mas, pelo projeto, pela aventura, consegui suportar.
Albergue Municipal em Pamplona
Café da manhã, 7h45, Pamplona
Jantar rápido, hora do planejamento
Pamplona - boa loja de bike, alforges novos
Revisão geral
Boa dupla de bascos
Pamplona – passeio de reconhecimento
Centro de Pamplona
Belo edifício do Ayuntamiento (prefeitura). construído em 1423. Aqui, acontece anualmente o lançamento das Festas de San Fermín (06 a 14 de julho), padroeiro da cidade, que culminam com o "Encierro", quando os touros são soltos nas ruas.
Clique aqui para ver a corrida de touros!
Adeus Pamplona! Último abastecimento.
Etapa PAMPLONA -> ESTELLA/AYEGUI
Pamplona – Zizur – Astráin – Sierra del Perdón – Puente La Reina – Estella – Ayegui
A meta nesta etapa era pernoitar em Estella, onde cheguei às 20h, exausto, mas não consegui encontrar lugar em nenhum albergue! É uma situação angustiante. Me sugeriram tentar em Ayegui, uns 2 km acima, ligeiro aclive. Consegui acomodação por sorte às 21h num ginásio poliesportivo que recebe peregrinos. O lugar estava fechando - mais uns minutos e eu teria que passar a noite no saco de dormir.
Sierra del Perdón
Início da Sierra del Perdón pela “carretera”
Puente la Reina (Navarra)
Puente la Reina
Ayegui (foi onde consegui lugar para – digamos, assim - dormir...)
Banquete em Ayegui, dadas as circunstâncias
Cheguei às 21h exausto e faminto e a cozinha já estava fechada, tudo apagado. Consegui convencer um empregado a me servir o que tinha sobrado numa panela. Esse espaguete com um pedaço de frango, o pão e a água, foram um banquete! Grandes pequenas coisas que passam a ser valiosas quando se precisa.
Etapa AYEGUI (Navarra) -> LOGROÑO (La Rioja)
Ayegui - Villamayor de Monjardín – Los Arcos – Viana – Logroño
Bodegas Irache
Fonte de vinho gratuito! Infelizmente não bebo em serviço.
"Si quieres llegar a Santiago com fuerza y vitalidad..."
Ao longe, Villamayor de Monjardín (Navarra)
Villamayor de Monjardín (Navarra)
Subida para Villamayor de Monjardín (Google)
Logroño,
capital de La Rioja, fica no encontro de três regiões: La Rioja, Navarra e País Basco. Sem falar em importantes monumentos históricos, como a Iglesia de San Bartolomé (século XIII), construção gótica com bela fachada românica, a cidade oferece grande variedade de programas de visitação a vinícolas nos arredores e boa gastronomia. Infelizmente, com o tempo cronometrado e o estoicismo de um peregrino, me conformei com as especialidades abaixo. Umas tapas, porém, pude me permitir no final da tarde...
Albergue em Logroño
Logroño 5 Estrelas
Iglesia de San Bartolomé
Calle San Juan – lugar de excelentes tapas
Etapa LOGROÑO (La Rioja) -> SANTO DOMINGO DE LA CALZADA (Castilla y León)
Logroño – Navarrete – Nájera – Azofra – Ciriñuela – Santo Domongo de La Calzada
Logroño (La Rioja) – Santo Domingo de La Calzada (Castilla y León)
Santo Domingo de La Calzada
Albergue em Santo Domingo de La Calzada
Rotina diária...
Santo Domingo de La Calzada
Compras antes do jantar
Partida de Santo Domingo rumo a Villafranca Montes de Oca
Etapa SANTO DOMINGO DE LA CALZADA (La Rioja) -> VILLAFRANCA MONTES DE OCA (Castilla y León)
Santo Domingo de La Calzada – Redecilla del Camino - Viloria de Rioja – Belorado – Tosantos – Villambistia – Villafranca Montes de Oca
Engarrafamento no caminho
Rumo a Villafranca Montes de Oca
Encontro por acaso com Inês Serpa, presidente à época da AACS Rio
Associação Brasileira dos Amigos do Caminho de Santiago
Passando por Redecilla del Camino
Chegando a Viloria de Rioja
Viloria de Rioja – refeição típica durante o pedal
Disseram que o padeiro de Viloria passaria de carro para entregar os pães às 11h. De fato, chegou pontualmente num carro velho, todo empoeirado. Parou na praça, abriu a mala do carro e as pessoas vieram escolher os pães. A cena era realmente pitoresca. Comprei esse pedaço para comer com sardinhas e uns kiwis.
Belorado
Belorado
Belorado - Tosantos
Tosantos
Vista de Tosantos
(foto de terceiros)
Tosantos - Villambistia
Villambistia - parada pra refrescar
Amigos, desculpem a falta de um sorriso, mas depois de cinco horas e meia pedalando no sol, rir de quê?
Finalmente, Villafranca Montes de Oca (Castilla y León)
Jantar com peregrinos de São Paulo em Villafranca Montes de Oca
Breves amigos do Caminho
Amanhecendo em Villafranca Montes de Oca – hora de pedalar!
Etapa VILLAFRANCA MONTES DE OCA (Castilla y León) -> BURGOS (Castilla y León)
Villafranca Montes de Oca - Agés – Atapuerca – Serra de Atapuerca – Cardeñuela Riopico
Saindo de Vilafranca Montes de Oca começa a subida para transpor a serra e percorre-se uma região de belos bosques e reflorestamentos de pinheiros. Transposta a serra, vamos em direção a Agés e depois a Atapuerca, onde existe um importante sítio arqueológico (Yaciamentos de Sierra de Atapuerca). Lá, foram encontrados, em 1994, restos humanos com mais de 900 mil anos, que definiram uma nova espécie chamada de homo antecessor. O sítio arqueológico foi declarado Patrimônio da Humanidade pela UNESCO no ano 2000.
Agés
Atapuerca - sítio arqueológico
Sierra de Atapuerca (como passar com a bike?)
Entre Atapuerca e Burgos pode-se cortar caminho pela Sierra de Atapuerca. O terreno é pedregoso com trechos muito inclinados e intransponíveis para bicicleta a não ser empurrando ou até carregando nas costas (bike + bagagem = uns 28 kg!)
Cruz de Atapuerca – Matagrande
Matagrande, topo da Sierra de Atapuerca (Burgos ao fundo)
Final da descida da Sierra de Atapuerca
Só mais 13 km para chegar a Burgos
Chegada a Burgos
Albergue em Burgos
Em frente ao albergue, com a catedral ao fundo
Catedral de Burgos
A Catedral de Burgos, em estilo gótico, construção iniciada em 1221, sobre o edifício anterior, que era românico, é uma das mais importantes da Europa, de uma beleza e riqueza impressionantes. Apesar do pouco tempo disponível para cumprir o roteiro planejado, tratei de correr e consegui passar um belo final de tarde contemplativo dos tesouros artísticos e da história que a visita à catedral oferece. Para quem se interessar: http://catedraldeburgos.es/
Plaza Llana de Afuera - Burgos
6h44 – partida de Burgos
Etapa BURGOS -> BOADILLA DEL CAMINO
Burgos – Hornillos del Camino – Hontanas – Castrojeriz – Boadilla del Camino
Como mencionei no início, entre Burgos e León entra-se na região das grandes planícies - nas famosas “mesetas” -, que se estende por mais de 150 km. A partir daqui, a paisagem de montanha e bosques vai ficando aos poucos para trás. É um trecho considerado difícil para os peregrinos, tanto sob o ponto de vista físico - o sol é forte, há pouca sombra e o ar é seco -, quanto do ponto de vista psicológico, porque a monotonia da planície, das retas sem fim - onde se tem a sensação de avançar e avançar sem nunca chegar -, é um duro teste de paciência. Muitos evitam as mesetas, o que, na minha opinião, não tem a ver com o espírito do Caminho. Essa prova é mais amena para o bicigrino, sem dúvida.
À esquerda, a seta amarela indicando o caminho
Encontro com Helio Miyake (SP), com quem jantei em Villafranca Montes de Oca
Verdadeira máquina de caminhar alimentando-se de amêndoas, nozes e frutas secas, podia fazer 40 km sem dificuldades...
Rumo a Hornillos
Hornillos
Hontanas
Hontanas
Ruínas do “Monasterio de San Antón” (século XV) – entre Hontanas e Castrojeriz
Rumo a Castrojeriz
Chegando a Castrojeriz
Região de paisagens encantadoras!
Chegada a Boadilla del Camino
Relaxando no Albergue El Camino
Amigos do Caminho: o catalão Angel e o alemão Ferdinand
Eduardo – proprietário do albergue
Etapa BOADILLA DEL CAMINO -> TERRADILLHO DE LOS TEMPLARIOS
Boadilla del Camino – Frómista – Carrion de Los Condes – Ledigos – Terradillos de Los Templarios
Estamos nas “mesetas”
Rumo a Frómista
Casal de peregrinos seguia com um burrico carregando a bagagem
Eclusas de Frómista
Igreja de San Martín (ano 1066) - Frómista
Preciosidade da arquitetura românica!
Passei um bom tempo aqui, neste silêncio antiquíssimo
Marco da Via Aquitania - antiga estrada romana Bordeaux – Astorga
Via Aquitania – 12 km no descampado
Refeição de pão e mexilhões em um ponto de apoio na Via Aquitania - apenas uma mesa de pedra e uma árvore baixa
Albergue em Terradillos de Los Templarios
Estamos na planície e durante toda essa noite, que era de lua cheia, soprou um vento fortíssmo, seco, um assobio contínuo que tornava tudo misterioso e me deixava desperto, atento, sem conseguir dormir. Por fim, o cansaço venceu.
Partida de Tarradillos de Los Templarios, muito cedo. Ainda vento forte e contra, o que exige muito esforço do ciclista.
Etapa TERRADILLOS DE LOS TEMPLARIOS -> LEÓN
Terradillo de Los Templarios – Sahagún – Bercianos – El Burgo Ranero – Reliegos – Mansilla de Las Mulas – León
Descanso no caminho para León
(pedal de 72,26 km + 3,9 km nos arredores)
Chegada a León
(com a incursão nos arredores, foi um estirão cansativo de 76 km)
Albergue em León
Rua do albergue Santa Maria de Carbajal - León
Início do jantar em León - a sempre “ensalada mixta”
Catedral de León (ano 1205)
Catedral de León, 8h00, rumo a Astorga
Etapa LEÓN -> ASTORGA
León – Hospital de Órbigo – Saltibañez de Valdiglesias - Astorga
Chegando a Saltibañez de Valdeiglesias
Cruz del Valle
Trilhas no caminho para Astorga
Crucero de Santo Toribio - no fundo do vale, Astorga
Albergue em Astorga
Rua do albergue - Astorga
Súbita chuva de granizo em Astorga
Catedral de Astorga
Com o peregrino Iggy, holandês
Etapa ASTORGA -> MOLINASECA
Astorga – Santa Catalina de Somoza – El Ganso – Rabanal del Camino – Foncebadón – Cruz de Hierro – Manjarín – El Acebo-Molinaseca
A partir de Astorga o relevo vai mudando aos poucos e começa a paisagem de bosques e montanha através dos Montes de León. O panorama é lindo e o trecho exige muito esforço porque consiste num aclive contínuo passando por vilarejos como Santa Catalina de Somoza, Rabanal del Camino, Foncebadón, Manjarín e El Acebo. Passa-se a sentir a subida a partir de Rabanal. O ponto de maior altitude é Manjarín, com 1.458 m. Entre Foncebadón e Manjarín fica a famosa Cruz de Ferro (Cruz de Hierro) onde os peregrinos, segundo uma antiga tradição, devem deixar uma pedra e pedir proteção. Em Manjarin começa uma descida deslumbrante até Molinaseca.
Nessa “mesón” me recomendaram um suco de laranja muito especial com gengibre e mel, verdadeira "brujería", para turbinar a subida até Manjarín!
Passando por El Ganso
A partir de Rabanal começa a subida
Rabanal del Camino
Foncebadón em ruínas (para quem leu Paulo Coelho...)
Vistas a partir de Foncebadón
Cruz de Hierro, altitude 1.500 m, ponto mais alto do Caminho
Como manda a tradição, deixei aqui uma pedra.
Encontro com atletas brasileiros patrocinados
Manjarín – 1.458 m – povoado de maior altitude do Caminho
Vista nos arredores de Manjarín
A esta altura, nos Montes de Léon, o aviso é tudo o que o ciclista quer
Vista entre Manjarín e El Acebo
El Acebo
Saindo de El Acebo
De El Acebo a Molinaseca são 10 km de descida espetacular!
Chegada à Molinaseca
Molinaseca
Centro de Molinaseca
Albergue em Molinaseca
Etapa MOLINASECA -> VEGA DE VALCARCE
Molinaseca - Ponferrada – Villafranca del Bierzo – Vega de Valcarce
O Castelo dos Templários (século XI), em Ponferrada, é impressionante, de grande riqueza histórica e considerado um dos mais importantes do noroeste da Espanha. No seu interior foram encontrados vestígios de um assentamento pré-histórico, da Idade do Ferro. Para quem se interessar: https://castillodelostemplarios.com/
Castillo de Los Templarios
Castillo de Los Templarios
Saindo de Ponferrada
Iglesia de Santiago (século XII) – Villafranca del Bierzo
Puerta del Perdón – Igreja de Santiago – Villafranca del Bierzo
Villafranca del Bierzo
Almoço debaixo de viaduto ao abrigo de uma chuva repentina!
Chegada a Vega de Valcarce, temperatura 13°
Jantar em Vega de Valcarce, amanhã cedo: Cebreiro
O Cebreiro
O Cebreiro, na Serra do Courel (extremo sudoeste da cordilheira Cantábrica) é o último grande obstáculo do Caminho. É um dos vilarejos de maior altitude da rota (1.330 m), lugar mágico, santuário, riquíssimo em história, com suas “pallozas” celtas, testemunho de um assentamento pré-românico, o Museu Etnográfico e a pequena igreja de Santa Maria A Real do Cebreiro, que data do século IX, onde, diz a tradição, no século XIV aconteceu o Milagre das Santas Espécies. Por ela passaram, ao longo dos séculos, entre tantos outros peregrinos, São Francisco de Assis, em 1.215, e os Reis Católicos, Fernando e Izabel, em 1.486, com os quais ocorreu no local um fato estranho, motivo de um presente da rainha ao vilarejo.
O lugar é lindo e disse dele o escritor galego Ánxel Fole:
"Terra de Caurel, aspra e forte, de inxente beleza... Terra brava de lobos e águias; terra outa de fragas e devesas."
A subida até o alto do Cebreiro, pela N -VI, via Pedrafita, partindo de Vega de Valcarce, onde pernoitei, é de 17 km. É um bom esforço, sobretudo com bagagem. Depois, tem-se ainda uns 8,5 km até o Alto do Poio, sem elevação significativa e mais uns 6 km de algum alívio até começar a descida que leva a Triacastela (outro pernoite). A etapa Vega de Valcarce – Triacastela é de 49,4 Km.
Cheguei à Vega de Valcarce no dia 19 de setembro à tarde com uma temperatura de 13°. Na manhã seguinte comecei a subir às 8h00 com uma temperatura de 5°. No meio do caminho abriu o sol e começou um relativo calor. Breve parada em Pedrafita para comer alguma coisa e descansar um pouco. De lá até o alto do Cebreiro são mais 4,7 km de subida.
Ao chegar ao alto do Cebreiro já fazia frio. O meu cronograma estava apertado e não previ pernoitar - do que me arrependi -, porque a experiência do cair da tarde e do nascer do sol na montanha, naquele lugar tão antigo e místico, é profunda e mágica.
A descida em direção a Triacastela oferece uma mudança notável na paisagem e nos aromas, que passam a ser intensos de flores, frutas, temperos, feno e fermentações. Entra-se em contato com uma Galícia rural, pequenas propriedades, plantações, gado, vilarejos antiquíssimos... Por toda parte se vêm os hórreos galegos – encimados por cruzes -, pequenos silos sobre pilotis para a secagem, cura e guarda de cereais.
De Triacastela, onde pernoitei, a Santiago de Compostela são mais ou menos 160 km, com pernoite em Portomarín e em Arzúa.
Deixei Triacastela às 9h do dia 20 de setembro, manhã gelada, uns 8° talvez. De Portomarín em diante a temperatura ficou muito agradável.
19.09.2011 - Finalmente o início da subida do Cebreiro pela N-VI (temperatura 5°)
Subida pela N - VI (Google)
Entrando na Galícia!
Parada em Pedrafita
(faltam 4,7 km de subida até o Cebreiro...)
O Cebreiro!
17,39 km de subida (via Pedrafita)
Relaxando
---------------------------------------- Vilarejo pitoresco! ---------------------------------------
Museu Etnográfico
O charme do Cebreiro
"Pallozas" celtas
Santuário de Santa Maria A Real do Cebreiro
Iglesia de Santa Maria A Real do Cebreiro (século IX)
(foto de terceiros)
Relicário
Registro da passagem de São Francisco de Assis (ano 1214)!
Santa Maria A Real do Cebreiro
Talha românica - século XII
Rumo ao Alto do Poio
Alto do Poio (agora começa a descida!)
Deixando o Cebreiro
O encanto da Galícia rural
Típico "Hórreo Gallego"
Albergue em Triacastela
“Caldo Gallego” em Triacastela
Etapa TRIACASTELA -> PORTOMARÍN
Triacastela – Samos – Sarria – Portomarín
Destaco em Samos o mosteiro medieval beneditino de São Julião de Samos, fundado no século VI
Samos
Mosteiro de Samos
Sarria
Castelo de Sarria
(foto de terceiros)
Rumo a Portomarín
Trecho difícil de passar com a bike
Rumo a Portomarín
Chegando em Portomarín
Portomarín
Albergue em Portomarín
Etapa PORTOMARÍN -> ARZÚA
Portomarín – Palas de Rei - Arzúa
Peregrinos deixando Portomarín
Saindo de Portomarín “envolto em brumas”...
Trecho Portomarín – Palas de Rei
Próximo a Palas de Rei
Coto – divisa das províncias de Lugo e A Coruña
Almoço a caminho de Arzúa – Fabada Asturiana e mejillones!
Trilhas rumo a Arzúa
Saindo de Arzúa
Etapa Final – ARZÚA -> SANTIAGO DE COMPOSTELA
Faltam apenas 45 km!
Capela de Santa Irene
------------------------------- Chegada a Santiago de Compostela -------------------------------
Monte do Gozo
Monte do Gozo – entrando em Santiago de Compostela
22.09.2011 – 16h09!
Monte do Gozo
(foto de terceiros)
Santiago de Compostela ao fundo
Fonte: site do Albergue do Monte do Gozo (Xunta de Galicia)
"Desde as primeiras menções no Códice Calixtino, no s. XII, o Monte do Gozo tem sido sempre reconhecido pelos peregrinos como um lugar de imenso valor emocional e espiritual. É porque esta colina de 380 metros é o lugar do Caminho Francês de onde se podem ver as torres da Catedral pela primeira vez.
Um exemplo da sua importância, é o facto de que ao longo da história, o Monte do Gozo aparece como o segundo lugar mais visitado do Caminho, estando atrás unicamente da Catedral. É também o cenário de lendas, milagres e tradições centenárias, como a de nomear Rei da Peregrinação ao primeiro caminhante que chegava ao topo cada dia.
A importância simbólica do Monte do Gozo explica, que no ano de 1989, o Papa João Paulo II escolheu o Monte do Gozo para celebrar os atos centrais das Jornadas Mundiais da Juventude. Como comemoração desta visita, no topo do monte encontra-se um monumento e obra da artista brasileira Yolanda D’Augsburg Rodrigues.
Além disso, durante o Ano Santo de 1993, adicionaram no miradouro do Monte do Gozo as Esculturas de Peregrinos, realizadas pelo escultor galego, Acuña".
Chegada à cidade!
Convento e monumento de São Francisco
Chegada à Catedral – Praça do Obradoiro
22.09.2011 – 17h17
Final do Caminho!
22 de setembro! A chegada a Santiago de Compostela é emocionante! Grande movimentação de peregrinos na Praça do Obradoiro, concentrações de ciclistas, encontro conhecidos e reconheço gente que vi ao longo do Caminho. A excitação é grande, tomar pé na nova realidade, trocar informações, entender como funciona a obtenção da Compostela, providenciar acomodação para uns dias (agora sim um pequeno hotel, com algum conforto, porque ninguém é de ferro), fazer um reconhecimento da cidade, providenciar material especializado para embalar a bike para o voo, programar a Missa do Peregrino, que assisti no dia 23, aliás, com uma das homilias mais inspiradas que já tive a oportunidade de ouvir - em homenagem ao Padre Pio di Pietrelcina, comemorado nesse dia.
A programação nesses dias em Santiago foi intensa e a temperatura estava agradabilíssima. Flanar pela cidade, visitar os locais históricos, lançar-se sem cerimônia às especialidades da cozinha galega e a um bom vinho. É hora de entrar de corpo e alma no caldo gallego, nas mariscadas, vieiras, gambas, pulpo, tortilla, empanada e na deliciosa Tarta de Santiago, à base da amêndoas e raspas de limão. Como perdi quatro quilos ao longo do percurso, tinha crédito moral para qualquer excesso...
À tarde e à noite há apresentações de música ao vivo nas ruas, da Orquestra Municipal e conjuntos de música de câmara a grupos folclóricos de gaita galega e tambores.
Um programa muito divertido à noite é ir a uma “queimada”, que na sua origem era um ritual de purificação para afastar os maus espíritos e as meigas que espreitam, no qual eram pronunciadas palavras de esconjuro e servida uma bebida em chamas, preparada com aguardente, açúcar, cascas de limão ou laranja, grãos e pedaços de maçãs e uvas, segundo a tradição de cada região. Hoje as “queimadas” de rua tornaram-se diversão turística, tanto pela bebida em chamas, quanto pelas palavras de esconjuro, algumas grosseiras. E a bebida sobe rápido!
Há quem diga que a verdadeira queimada ainda é praticada, mas é preciso ter conexões locais para ser convidado.
O Caminho é cheio de lendas e eu trouxe as minhas. Um encontro estranhíssimo aconteceu comigo em Vega de Valcarce. Já em Santiago de Compostela minha câmera escorregou da mão e, para meu desespero, caiu três andares pelo vão da escada do hotel. Eu tinha uma grande quantidade de fotos ainda não salvas e aceitei esse triste desfecho. Mas, inacreditavelmente, continuou funcionando e pude recuperar todas as fotos e ainda fazer as fotos finais da viagem. Tudo salvo e organizado, já no Rio, a guerreira, missão cumprida, parou de funcionar para sempre... Por fim, tive a sorte (sorte?) de pedalar 900 km por todo tipo de terreno sem ter um pneu furado sequer. Ciclistas conhecidos meus tiveram os seus pneus furados várias vezes.
Amigos, encerro aqui a minha narrativa esperando ter transmitido um pouco dos sentimentos que experimentei na aventura do Caminho de Santiago e depois das últimas fotos deixo algumas dicas para quem se interessar.
Buen Provecho!
Cenas de Santiago de Compostela
Vistas da minha janela na Pensión Rodrigues
Acordando...
Orquestra Municipal
Missa do Peregrino
Túmulo do Santo
Claustro da Catedral e a Fons Mirabilis de 1122!
Vistas a partir da Catedral
Amigos noruegueses – excelentes ciclistas
Casamento (música com gaitas e tambores)
Universidade de Santiago de Compostela
Noite em Santiago de Compostela
Queimada!
Parque de La Alameda – finalmente barbeado!
Desmontando e acondicionando a bike na caixa de papelão
Aeroporto de Lavacolla, Santiago de Compostela, 26 dias intensos, hora de voltar pra casa!
Particularidades do Caminho
> Símbolos
• A Vieira do peregrino
• A espada de Santiago Matamoros (crença importante durante a Reconquista)
• As flechas amarelas indicativas do Caminho (las flechas amarillas) – são a orientação mais importante para os peregrinos
Vieira e Espada de Santiago Matamoros
Flecha Amarela
Flecha Amarela em trilhas
> Preocupações diárias de um ciclista no Caminho (“bicigrino”)
O dia do peregrino começa muito cedo, em geral acorda-se entre 5h30 e 6h00. Às 7h30, na maior parte das vezes já estamos na estrada. Não há tempo a perder porque os albergues têm muitas vezes horários rígidos. Atenção, não é muito comum o europeu dar “jeitinho”. Além disso, a jornada diária é pesada. As tarefas diárias têm que ser cronometradas, a roupa tem que secar, tudo tem que estar pronto para partir muito cedo. Às vezes estou exausto e é muito frio ou muito ventoso lá fora no início da manhã e o que eu quero é apenas dormir... Coragem peregrino, isso vai te fazer bem para o espírito, vai te dar a têmpera do Caminho... (😒)
Há momentos de grande cansaço, de limite corporal, há uma fase dores musculares pelo esforço ininterrupto (por volta do 6º dia), que são o sinal de que está hora de descansar um pouco, de parar por um dia para o corpo se adaptar. A alimentação dosada ao longo do percurso diário é muito importante, mas acabei não seguindo a regra como devia e tive episódios de hipoglicemia, de perder completamente o “gás”, que seriam totalmente evitáveis.
Planejar o percurso do dia:
- Verificar a distância percorrida e a distância a percorrer na etapa
- Recalcular a média diária a ser mantida
- Examinar a altimetria e as características do terreno
- Examinar as alternativas de percurso
- Avaliar o esforço físico necessário x as condições físicas
- Decidir o percurso
Encontrar um albergue para dormir (às vezes angustiante)
Carimbar a credencial
Tomar banho
Lavar e secar a roupa
Abastecer-se do necessário para o trecho seguinte
Fazer a refeição principal do dia (jantar no meu caso)
Dormir (às vezes é difícil com a cacofonia dos dormitórios dos albergues)
> Exemplos de refeições típicas no menu peregrino
"Tarta de Santiago"
Amêndoas, ovos, raspas de limão...
> A bicicleta (2011)
• Mountain Bike Caloi Elite 2.7 - Shimano Deore equipada para viagem com bagageiro, guidão estendido, bar ends etc.
• Ciclocomputador, luzes de sinalização etc.
• Pneus mistos para trilha e estrada com fitas antifuro para aro e pneu
• 2 alforges traseiros de 20 litros (inicialmente Northpack, ruins, substituídos em Pamplona por excelentes Ortlieb Back Roller Classic alemães)
• 1 bolsa de guidão de 6,5 litros
• 2 caramanholas de 750 ml
• Kit completo de ferramentas básicas para manutenção, lubrificante, seleção de peças críticas de reposição, pequena quantidade de sabão em pó (desengraxante)
Embora o ideal seja reduzir ao máximo a carga, se possível para em torno de 10 kg - e mesmo tendo calculado minuciosamente o peso de cada item -, acabei levando um excesso de sobressalentes e exagerando na bagagem: 17 kg!
Para ter à mão tudo que poderia precisar, e precisei de pouco, paguei um preço alto em energia dispendida.
Aspectos do planejamento
• Atencção especial ao programa de treinamento físico (treinos de subida livre, subida com carga, musculação, perda de peso)
• Lista de albergues e serviços encontrados nas localidades
• Distâncias e alternativas mapeadas
• Dados meteorológicos históricos (temperaturas médias e pluviometria) analisados
• Altimetria das etapas mapeada
• Planejamento da roupa para enfrentar as condições prováveis e eventuais emergências (inclusive peso dos itens)
• Planejamento do equipamento, peças sobressalentes, itens para manutenção (inclusive peso dos itens)
• Esboço do plano de etapas (provavelmente haverá mudanças ditadas pelas circunstâncias)
• Guias, tabelas, lista de contatos e endereços úteis para apoio ou emergências, lista das lojas de bicicleta, bloco de notas etc.)
Itens de sobrevivência
• Esteira isolante
• Saco de dormir (5 graus)
• Conjunto impermeável
• 2 mantas aluminizadas para emergências térmicas
• Kits de primeiros socorros e medicamentos essenciais (acondicionados em sacos Ziploc)
• Utilidades (canivete, corda de nylon, arame, lanterna, pilhas, sabão em pó, alfinetes, pregadores, máquina fotográfica, celular, sacos de lixo, sacos Ziploc etc.)
• “Nécessaire” com gancho de fixação
• Itens de higiene pessoal (inclusive, vale precaver-se: papel higiênico)
• Mapas (não levei GPS, orientei-me por mapas)
Documentos
• Passaporte
• Prova de seguro Schengen
• Caderneta de vacinação
• Declaração de vínculo trabalhista
• Passagem de ida e volta
• Credencial do Peregrino
• Porta documentos velado
Dica
Para quem estiver interessado, a primeira coisa a fazer é procurar a Associação Brasileira dos Amigos do Caminho de Santiago (AACS). Lá se obtêm, além da Credencial do Peregrino, as informações relevantes e orientações para o planejamento da viagem. As reuniões mensais, que aconteciam na primeira sexta-feira do mês, na Casa de Espanha, agora estão sendo feitas virtualmente. É possível entrar em contato com outros peregrinos, obter informações de gente que conhece a fundo o Caminho e ouvir relatos extremamente interessantes. Atualmente (2021) a presidente é a Silvia Machado
https://www.caminhodesantiago.org.br/
contatoaacs@caminhodesantiago.org.br
É possível encontrar na internet uma enorme variedade de informações sobre o Caminho, sob as mais diferentes perspectivas. Para quem gosta de histórias, acho interessante o site do peregrino Oswaldo Buzzo: http://www.oswaldobuzzo.com.br/
Buen Camino!
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