Quando eu era criança, sempre quando eu chegava em casa após um passeio com uma amiga eu tinha uma imagem quase perfeita de como seria a minha visão ao atravessar a porta do apartamento 408, eu entraria pela cozinha que estaria com a luz acessa, mas geralmente sem ninguém lá, andaria mais um pouco para encontrar a minha mãe lendo no sofá de couro enorme extremamente concentrada, daria um abraço nela, ela me perguntaria de como tinha sido e eu iria dizer que foi bem legal, veria meu irmão jogando videogame ou com seus amigos ou um jogo meio esquisito que ele ia explicar no almoço seguinte, e finalmente ia falar com o meu pai que estaria vendo um documentário ou pulando entre filmes na televisão à cabo e só mais tarde eu iria para o meu quarto para ficar um pouco na minha própria companhia. Mas em 2026 depois de anos e anos de sempre estar acostumada com a minha casa cheia, me deparo com ela constantemente vazia. Os barulhos de conversas e movimentações se transformaram em ruídos baixos de carros passando pela rua, do vento entrando pela janela e dos rangidos que o meu beliche faz quando me deito tarde da noite.
Durante os primeiros meses após o meu irmão se mudar e eu nunca cruzar horários com a minha mãe passava a maior parte do meu tempo dentro de casa fazendo TUDO que eu não podia fazer quando tinha uma família inteira aqui, ou seja eu fiquei escutando Hamilton no volume mais alto e fingindo que eu fazia parte do musical. Mas conforme o tempo foi passando e eu fui me acostumando com o fato de ser normal não encontrar ninguém, cada vez eu ficava mais em silêncio, acorrentada a mim mesma e aos meus pensamentos, que hora ou outra são esquisitos. Por exemplo, estranhamente voltei a vivenciar um medo muito antigo meu, que acho que nunca compartilhei com ninguém: Medo de dormir. São 1h30 agora e eu estou com sono desde às 22h mas não tive coragem de subir na minha cama e deitar até agora, preferi escrever um texto sobre ficar sozinha em casa com 19 anos, meio esquisito. Esse temor volta como quase uma necessidade de continuar no mesmo dia, de recear a escuridão silenciosa antes da luz do sol. Quando pequena uma coisa que aliviava esse sentimento era pensar que quando eu tivesse 90 anos provavelmente já estaria “curada” e não iria mais me preocupar com isso, mas agora esse plano só me deixa mais maluca ainda, eu genuinamente não quero pensar de como eu vou estar quando tiver essa idade, do jeito que o mundo tá eu espero não ter queimado de calor. Ultimamente o meu método é ver uma série ou ler um livro até eu parecer um zumbi de tanto sono e finalmente, dormir.
Ficar sozinha é engraçado, apesar de todas as lombras que eu crio na minha cabeça, eu amo muito poder escutar o barulho do meu computador, o da geladeira e principalmente observar o que sempre me cercava, mas o que eu nunca via. Assim, eu considero que aprecio mais tanto os meus momentos de solitude tanto quando alguém chega em casa.