Abri os olhos e lá estava eu. A brisa passava por nós debaixo de uma árvore, seu sorriso, seu olhar castanho, até hoje lembro dele. Sua mochila azul, seu casaco amarelo, seu cheiro de morango, sempre se destacando diante uma multidão. Essas sempre foram coisas que me encantavam sobre ela. Estranho pensar como ela é (ou era), seu jeito, sua forma de enxergar o mundo, até o seu nome soava bem, Chiara.
Andava em sua frente com provavelmente o maior sorriso que já saiu de minha boca, ela sorria de volta dançando a música que estava tocando, uma de suas favoritas. Começamos a dançar pela bela melodia que os enrolava magicamente, a cada passo leve de meu pé descalço sob a folha macia da grama tudo parecia ser mais distante de nós, por que, sinceramente, nada mais importava. Por um movimento falho de um de meus passos, tropeço e desabo no chão, me fazendo cair. Enquanto atinjo o chão tudo parece desmoronar, o cheiro do morango havia estragado e virado um chorume de sentimentos.
Acordo do sonho num ônibus indo para casa, ele não estava cheio, o que me causava conforto. Meu irmão me encara assustado, eu sorrio mas ele não retribui o sorriso, que provavelmente estava falso. Me desembrulho dentre diversos cadernos que se encontravam em minhas mãos.
-ELA NÃO ME AJUDOU A LEVANTAR Digo assustada
-Tá tudo bem? Pergunta meu irmão quando acordo do sonho.
-Claro
-Você não parece bem
Eu sei
Encaro meu irmão por exatos vinte segundos e lágrimas caem dos meus olhos, ele me abraça enquanto o ônibus passa por um quebra mola e sinceramente não lembro de nada que aconteceu depois.
Acordava mais uma vez com o peso de mil cavalos sob as minhas costas. O som do despertador apesar de ser incômodo era rapidamente engolido por uma avalanche de pensamentos, nenhum com uma linha de raciocínio limpa. Com uma tremenda dificuldade, levantei, um abismo de dores começou a crescer no meu pulso esquerdo, gritei, gritei até os meus pulmões incharem. Entretanto, quanto mais eu demonstrava dor, sentia mais angústia e mais o meu ao redor diminuía e eu era engolida pela minha própria escuridão.
A dor é quebrada quando vejo uma figura luminosa entrando levemente em meu quarto, seus passos são silenciosos e acolhedores. De repente meu pulso volta ao normal, e apesar de ainda existir algumas manchas nele as chances de serem de canetinha são maiores do que qualquer outra coisa. A figura que agora parece mais um vulto e vai ficando cada vez mais nítida.
-Você não sai do quarto há dois dias, e a festa de apresentação da faculdade é hoje, você deveria ir. Diz meu irmão
Me reviro em uma pilha de roupas diversas vezes até conseguir soltar uma palavra da minha boca.
-Quem vai tá lá? pergunto.
-Bom, seus amigos, ou ex amigos… Você ainda fala com eles? Sei lá também, Staff e professores, vai que você ganha alguma preferência de algum professor...
O encaro por exatos um minuto e dezenove segundos e aceito ir para a festa.
A parte de me arrumar sempre foi a mais difícil, o amontuado de roupas diversas buscando por um portador era aterrorizante. Casacos e meias pendurados no meu corpo parecendo parasitas famintos que se fossem tirado de seu hospedeiro morreriam, me descolo deles uso minhas forças e me jogo em minha cama novamente. Uma peça acabou me escolhendo, jaqueta jeans, par de botas e um vestido preto, típico adolescente que acabou de descobrir um novo estilo musical. Saio do quarto e encontro meu irmão sentado no sofá como tivesse todo o tempo do mundo, e ele realmente tinha.
Saímos de casa, a ida foi tranquila e rapída, os engarrafamentos parecem ficar menos frequentes nessa época do ano. Sempre me surpreendi com a facilidade de me irmão de se enturmar, menos de um minuto na confraternização e ele já se foi. Passo meu tempo em um canto desse salão enorme que me circula, observo as pessoas, seus jeitos, seus olhares e mesmo assim continuo invisível.
Após uma hora e meia sentada olhando para o teto, decido levantar, não era possível que ninguém estava me vendo naquela festa. Levanto procurando por meu irmão mas avisto a pessoa que menos queria ver, a Chiara.
O mundo para, não consigo ouvir nada além dos batimentos do meu peito, meu coração começa a acelerar a medida que minhas mãos ficam encharcadas. Minha visão fica turva e nevoada, e ela aparece.
-Eai! Diz ela com simpatia
Fico confusa, olho para seu rosto que apesar de tudo, ainda eram belos. Me pergunto por quê ela está falando comigo
-Oi… Retruco com ressentimento
-O que têm feito?
-Nada de mais.
-Vai falar que passou o verão todo tentando me superar?
-Bem…Sim
-Você tem que começar a viver, já faz tempo
Chiara logo se levantou e começou a falar com todos em nossa volta, o mundo realmente girava em torno dela. E eu não participava mais disso e teria que aprender a lidar com isso. No final eu talvez era apenas descartável, como um… Papel de bala?
-O que mais é descatável?
-Um saco de pão? Diz o psicólogo
-Exatamente!!!
-Mas você não deveria falar que é descartável..
-Enfim foi isso que fiz no final de semana!!
- E foi assim que você superou seu termino de namoro?
-Simples assim
-Talvez precisamos de mais sessões pra discurtir isso.
02/01/24