Desço do carro com a minha mãe, o uber sai voado pelas ruas apertadas de Águas Claras, andamos com calma até a portaria, eles dizem que o pronto-socorro é seguindo à direita. Sempre gostei de hospitais, desde pequena os via como portais para outra realidade, em que o tempo é inexistente e o único fator importante é sair melhor do que entrou. Chegamos ao atendimento e pressionamos o totem de atendimento, olho para minha mãe preocupada. Essa é a primeira vez que acompanho alguém no hospital e, pela lei, já posso ser oficialmente acompanhante hospitalar. Fico orgulhosa disso.
Uma sala de espera é sempre um local ambíguo, pessoas tentando dormir, crianças e idosos doentes, os alarmes das fichas a cada doze segundos. Senha AA098 Triagem, Senha OT036 Consultório cinco. Senha AA202 Guichê três, será que esse é o sentimento de jogar na loteria? De esperar por um resultado que talvez nunca venha. Senha AA0204 Triagem dois, opa, essa é a nossa! Viro para a minha mãe e pergunto se ela está bem. Ela me faz um joinha com a feição atropelada por um caminhão, talvez tenha sido nas horas que fiquei jogando RPG ontem de noite, não, ela apenas está doente. Caminhando até a triagem, lembro da última vez que estive em um hospital, uma gripe ferrenha causada pelo estresse do terceiro ano, que bom que passou. Mesmo estando em férias que parecem eternas, alguns flashes às vezes ainda aparecem na minha cabeça, me pergunto de como vou estar daqui a um ano.
A enfermeira mede a pressão e fala com um sorriso sob a máscara que “tá tudo ótimo”. Deve ser a sopa que fiz, digo rindo, mas ninguém gostou da piada. Retornamos à sala de espera, sentamos e tudo volta a ser como era antes, os alarmes, as pessoas e a minha mãe passando muito mal do meu lado. A ofereço água, ela aceita com um sorriso e pega a garrafa. Começo a fazer crochê, conto os pontos e tá tudo certinho, conto de novo e tem mais pontos do que deveria, ignoro e continuo a crochetagem. Alguns minutos se passam e somos chamadas para o guichê, levanto rápido, derrubo o fio de crochê e ando rapidamente procurando a bainha. Depois da moça ter feito eu assinar uns papéis suspeitos, ela me entrega um adesivo de acompanhante, um objetivo de vida é realizado aqui, me encho de alegria, quase chego a pular, mas lembro que estou num hospital. Chego em minha mãe exibindo meu crachá de companheira, ela sorri para o meu entusiasmo.
Após a consulta com um médico simpático, descobrimos que ela tinha várias inflamações mas ia ficar bem, o hospital cumpriu mais uma vez a sua função, saímos de lá ligeiramente melhores. Apesar de ainda não ter a carteira de motorista, ai que dor, senti que talvez tenha cumprido algum papel como filha, de ter feito piadas ruins, e um checkup para o doutor. Ao sair do local, fiquei o observando e refletindo quando vai ser a próxima vez que vou pisar em um desses, e apesar de adorar hospitais, espero que seja daqui muito longe.
26/05/2025 20h57