“Bicho" é a palavra apropriada para o tipo de presença cênica de Pacino. Com discretos 1,68 m, sempre teve um tipo de velocidade singular de movimentação amplamente utilizada pelos diretores que souberam extrair o seu melhor ( pense no corre-corre de Um Dia de Cão, de Sidney Lumet, em 1975). A voz meio rouca, o sotaque e a prosódia característicos, os gritos e gestos de família ítalo-americana, todo um conjunto de relações do corpo transformaram Al Pacino numa marca registrada de si mesmo” - Marcelo Miranda, jornalista e crítico de cinema.
Apesar de ter feito dois dos maiores filmes da história, Poderoso Chefão o Poderoso Chefão II, Al Pacino ainda era visto como um ator muito introspectivo em seus papéis, e Um Dia de Cão provou para o mundo a possibilidade de se tornar um camaleão.
Resumo da ópera para àqueles que não assistiram ao longa:
Quando o inexperiente criminoso Sonny Wortzik (Al Pacino) lidera um assalto a um banco em Brooklyn, as coisas rapidamente correm mal e desenvolve-se uma situação de reféns. Enquanto Sonny e o seu cúmplice, Sal Naturale (John Cazale), tentam desesperadamente manter o controle, um circo mediático desenvolve-se e o FBI chega, criando ainda mais tensão. Gradualmente, as surpreendentes motivações de Sonny por detrás do assalto são reveladas e o seu impasse com as forças da lei encaminha-se para o seu inevitável fim.
Retirado de: https://www.rottentomatoes.com/m/dog_day_afternoon
“Um Dia de Cão” começa mostrando a naturalidade das ruas de Nova Iorque com toda sua beleza e movimentação, para após sermos introduzidos para a nossa localização principal, o banco. O longa, nesse sentido, se permite brincar com o cotidiano e com o evento que inspirou o filme, pois foi gravado com apenas nove quarteirões de distância do acontecimento real, cujo é inspirado. Além disso, a própria cidade age como uma personagem autônoma, vibrando, e acompanhando Sonny com a mesma intensidade e adrenalina que nós, os espectadores.
Nessa perspectiva, o filme segue uma ambientação familiar mostrando as histórias de cada personagem. Descobrimos sobre suas vidas e vontades, de uma maneira leve e peculiar para um grande assalto. Mesmo sendo reféns, todos agem com irreverência perante as situações, passam mal, fofocam e até criticam as ações dos assaltantes.
Mas o longa é focado principalmente em Sonny, o ladrão de banco que assume a responsabilidade, interpretado por <3Al Pacino<3 como um homem compulsivo e complexo. Ele é esperto, malandro, lutou no Vietnã, e ainda está executando o assalto a fim de obter dinheiro para seu amante ter uma operação de mudança de sexo. E para melhorar, ele também é casado com uma mulher estridente com três filhos, e tem uma mãe terrivelmente possessiva. Sonny não é explicado ou analisado apenas apresentado, como qualquer um. Por outro lado, Sonny é muito obviamente insano. Ele roubou um banco porque precisava de US $ 2.700; ele fez um pacto com seu parceiro para se matar se eles falharem; ele é abusivo em relação a ambas as suas esposas. Não é que Sonny seja mau, apenas que ele esteja perturbado. Então o que é Sonny? Ele não é nem herói nem vilão, e nem ninguém. Penso que desta forma Lumet satiriza maravilhosamente a nossa obsessão com uma dicotomia entre o bem e o mal.
Subsequente, as cenas de Sonny fora do banco, enfrentando centenas de espectadores e policiais, têm energia elétrica. O público sente a carga, mesmo reconhecendo que a situação se tornou desarticulada, às vezes comicamente. Mas o diretor, Sidney Lumet, também observa momentos menores com igual atenção, as cenas em que Sonny fala com seu amante são delicadas e intensas, com um foque enorme para o personagem de Al. E essa direção é feita perante todo o longa, com poucos cortes e se assemelhando à uma peça teatral, nas performances e na movimentação de cena.
Em outro prisma, a película é extremamente positiva em quesitos sociais, principalmente a causa LGBTQIA +, em que na época era totalmente dissipada por políticas negativas para a própria comunidade. E para um ator como o Al se arriscar a fazer uma personagem homossexual é de tamanha coragem e garra para produzir arte. Desde que eu vi o filme pela primeira vez me vejo encantada e surpreendida.
Porém, o mais encantador do longa é o Al Pacino! Digno de uma das melhores performances jamais vistas em toda a história do cinema. A sutileza e eletricidade de sua atuação é apenas algo belíssimo de se ver. Acredito plenamente que foi este filme que fixou o Al como essa lenda. Eu nem vou me prolongar nessa parte porque como uma pequena apreciadora do próprio eu genuinamente não consigo expressar, é arrebatador.
Em suma, “Um dia de cão” é sobre um evento que foi o culminar de desigualdades econômicas e sociais. Um ato totalmente sem sentido de alguém que queria fazer a coisa certa, mas não conseguia descobrir como fazê-la. As tensões do filme e as preocupações da protagonista ecoam o que muitos de nós sentimos hoje, e o que vemos em notícias.
NOTA DA AUTORA:
Oi!
Muito Obrigada por ter lido mais um texto meu! Fico imensamente alegre quando posso compartilhar minhas paixões com o público, espero de coração que tenha gostado;
Até a próxima;
Ana Fulgêncio