Bernardo Gomes de Brito (1688-1760) compilou em dois volumes um conjunto de doze narrativas verídicas de naufrágios que se deram na época dos Descobrimentos, séculos XVI e XVII. A essa compilação chama-se História Trágico-Marítima. São relatos que impressionam pelo seu realismo. Antes de Bernardo Gomes de Brito reunir os relatos, estes circulavam sob a forma de folhetos de "cordel".
As carreiras da Índia e do Brasil, embora trazendo muita riqueza para Portugal, eram fonte de desastres, perdas de rotas e naufrágios e estas narrativas, com grande realismo (geralmente contadas por sobreviventes), mostram a vivência de episódios impressionantes de sofrimento e dor. A viagem aqui apresentada é apenas uma das narrativas e descreve o naufrágio por que passou Jorge de Albuquerque Coelho em 1565. «Em 1565 a tripulação deu início à viagem entre o Brasil e Portugal, mas logo à saída [a embarcação] encalhou e foi obrigada a regressar. Apesar de o acidente ser considerado por muitos um mau presságio, depois de consertada, a nau voltou a partir. Durante a viagem a tripulação foi atacada pelos [corsários] franceses, mas Jorge de Albuquerque tentou defendê-la durante 3 dias, apesar da escassez de homens e armamento. (...) [Entretanto,] rebentou uma violenta tempestade que destruiu [a nau] quase por completo, afastando-a da nau francesa. Durante vários dias sobreviveram no mar praticamente sem alimentos, sem velas e sem leme, mas com muita fé em Cristo e na Virgem Maria. Quando toda a esperança já parecia ter desaparecido e alguns marinheiros queriam ceder à tentação diabólica de comer carne humana, foi avistada terra e uma barca veio socorrer os poucos sobreviventes.»
Fontes: Adelina Moura, 'História Trágico-Marítima', 2017, em Português 10, Módulo 3
A propósito de Bernardo Soares escreve Fernando Pessoa numa carta para Adolfo Casais Monteiro, em 13 de Janeiro de 1935: «É um semi-heterónimo porque, não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela».
«O 'Livro do Desassossego' (...) é o nome da obra mais fragmentária de Fernando Pessoa, mas, ao mesmo tempo, mais profunda e complexa do seu pensamento. Em forma de um diário ficcionado de um ajudante de guarda-livros, surge como um retrato e uma confissão dramática do próprio autor. (...)
(...) publicado pela primeira vez em 1982, junta fragmentos autobiográficos, textos introspetivos, reflexões e pequenas descrições.»