Olá, estudante! Seja bem-vindo a um universo repleto de sorrisos, brincadeiras e alegria! Quando falamos da fisioterapia na saúde da criança, temos que pensar no contexto geral que a envolve, o que inclui gestação, nascimento e desenvolvimento neuropsicomotor (Prado; Vale, 2012).
As primeiras funções motoras de um recém-nascido (RN) se manifestam de forma reflexa. Com o processo de amadurecimento neurológico, esses padrões automáticos evoluem para se tornarem habilidades motoras desenvolvidas e voluntárias.
A avaliação dos reflexos primitivos é um componente essencial do exame pediátrico. Ela permite descobrir, desde as primeiras fases da vida, se o bebê apresenta alguma alteração de base (Brasil, 2016). Quando relacionados a outros achados clínicos, os resultados dessa avaliação são cruciais para direcionar uma intervenção precoce, maximizando o potencial de desenvolvimento da criança (Golin; Souza; Sarni, 2009).
Para a correta aplicação das práticas voltadas ao desenvolvimento neuropsicomotor, é essencial compreender dois conceitos centrais:
Reflexo: abrange os padrões de movimento automáticos e involuntários presentes desde o nascimento, mediados pelo tronco encefálico. Esses reflexos primitivos atuam como mecanismos de proteção e facilitam as primeiras interações do bebê com o ambiente. Com o amadurecimento neurológico, espera-se que esses reflexos sejam inibidos, dando lugar ao controle motor voluntário. A ausência ou a persistência de reflexos além do tempo esperado pode indicar alterações no desenvolvimento neuropsicomotor.
Reação: as reações posturais são respostas motoras voluntárias ou semi-voluntárias que se desenvolvem ao longo do tempo, com base na maturação do sistema nervoso central. Elas permitem ao bebê adaptar-se a mudanças de posição e manter o equilíbrio e a postura frente a diferentes estímulos. São fundamentais para o controle postural, a proteção contra quedas e a aquisição de habilidades motoras mais complexas (Costa, 2009).
Tabela 1 – Principais reflexos primitivos
Fonte: adaptada de Prado e Vale (2012).
Após a fase reflexa, surgem reações motoras voluntárias e posturais, essenciais para o desenvolvimento de habilidades motoras:
Reação de Retificação. Endireitamento: permitem que o bebê desenvolva um melhor alinhamento entre cervical e tronco. O surgimento varia entre os 2 e 6 meses. Ela pode se dividir em:
○ Retificação cervical.
○ Retificação corporal.
○ Retificação labiríntica.
○ Retificação óptica.
Reações de Proteção: assim como o nome já diz, servem para proteger o bebê de quedas enquanto explora posições sentadas e transições para em pé. Surgem por volta dos 6 aos 9 meses. Pode ser dividida em:
○ Proteção para frente.
○ Proteção para os lados.
○ Proteção para trás (Prado; Vale, 2012).
Para a prática, os materiais e os equipamentos necessários incluem:
Boneca.
Tablado.
Luva.
Bola suíça.
Brinquedo.
Antes de iniciar os testes, uma preparação cuidadosa é fundamental. Essa etapa garante o conforto do bebê e a coleta de informações cruciais.
Anamnese Clínica: questione os pais ou cuidadores sobre a gestação, tipo de parto, idade gestacional, intercorrências e o índice de Apgar, se souberem.
Observação Comportamental: observe o estado geral do bebê (se está sonolento, alerta, irritado). O choro é uma forma de comunicação e deve ser compreendido, não apenas interrompido.
Criação de Vínculo: interaja com o bebê antes de iniciar a avaliação para criar um ambiente de confiança.
Ambiente: a avaliação deve ocorrer em um local tranquilo e com temperatura agradável. Considere o uso de luvas e evite o jaleco branco, que pode assustar a criança.
Os testes são organizados em grupos para facilitar a compreensão e a execução, mas eles não precisam ser aplicados sempre de forma estruturada. Alguns podem ser observados durante o brincar com a criança (Olhweiler; Silva, 2005).
Para cada item, descrever o achado e se ele é típico ou atípico para a idade.
1. Reflexo de Sucção
○ Posição de teste: bebê em supino.
○ Estímulo: introduzir o dedo mínimo (com luva) na boca do bebê.
○ Resposta: movimentos rítmicos de sucção.
○ Observação/Significado Clínico: se esse reflexo for fraco ou ausente, pode significar dificuldades na amamentação inicial e no desenvolvimento da musculatura oral.
2. Reflexo dos Pontos Cardeais
○ Posição de teste: bebê em supino.
○ Estímulo: tocar a bochecha do bebê em um dos cantos da boca, com dedo ou algum objeto, como mordedor, chupeta.
○ Resposta: o bebê vira a cabeça para o lado estimulado, abrindo a boca.
○ Observação/Significado Clínico: reflexo para facilitar a busca inicial pela amamentação.
3. Reflexo de Fuga da Asfixia
○ Posição de teste: bebê em prono.
○ Estímulo: o próprio posicionamento com o rosto no tablado.
○ Resposta: lateralização da cabeça para liberar as vias aéreas.
○ Observação/Significado Clínico: evita que o bebê sofra um sufocamento, antes que tenha capacidade de rolar.
4. Reflexo de Preensão Palmar
○ Posição de teste: bebê em supino.
○ Estímulo: pressionar o dedo ou algum brinquedo na palma da mão do bebê.
○ Resposta: flexão dos dedos, segurando o dedo do avaliador.
○ Observação/Significado Clínico: se esse reflexo persistir após os quatro meses, compromete o desenvolvimento das habilidades manuais e de manipulação de objetos.
Figura 1 – Reflexo de preensão palmar
5. Reflexo de Preensão Plantar
○ Posição de teste: bebê em supino.
○ Estímulo: pressionar o polegar contra a planta do pé do bebê, logo abaixo dos dedos.
○ Resposta: flexão dos dedos do pé.
○ Observação/Significado Clínico: quando persistente após os 12 meses, atrapalha o desenvolvimento da marcha e do equilíbrio.
Figura 2 – Reflexo de preensão plantar
6. Reflexo Tônico Cervical Assimétrico (RTCA)
○ Posição de teste: bebê em supino, cabeça na linha média.
○ Estímulo: rotação da cabeça para um dos lados.
○ Resposta: extensão do braço e perna do lado facial e flexão dos membros do lado do occipital (posição de "esgrimista").
○ Observação/Significado Clínico: reaparece em condições patológicas, e a respectiva persistência pode indicar necessidade de avaliação neurológica.
Figura 3 – Reflexo Tônico Cervical Assimétrico (RTCA)
7. Reflexo de Moro
○ Posição de teste: bebê em supino, semi-sentado.
○ Estímulo: soltar a cabeça do bebê subitamente para trás (com amparo).
○ Resposta: abdução e extensão dos braços, seguida de adução e flexão (abraço).
○ Observação/Significado Clínico: reaparece em condições patológicas, e a respectiva persistência pode indicar necessidade de avaliação neurológica.
Figura 4 – Reflexo de Moro
Fonte: https://www.lecturio.com/pt/concepts/reflexos-primitivos/. Acesso em: 5 set. 2025.
8. Reflexo de Marcha Automática
○ Posição de teste: segurar o bebê em pé, com os pés tocando uma superfície plana.
○ Estímulo: inclinar o tronco do bebê levemente para a frente.
○ Resposta: movimentos alternados das pernas, simulando a marcha (Pederssetti; Sonoda, 2024).
9. Reflexo de Galant
○ Posição de teste: bebê em prono ou suspenso ventralmente.
○ Estímulo: deslizar o dedo ao longo da coluna do bebê, de um dos lados.
○ Resposta: inclinação do tronco para o lado estimulado.
○ Observação/Significado Clínico: se for persistente, indica alguma alteração patológica.
Figura 5 – Reflexo de Galant
10. Reflexo de Landau
○ Posição de teste: suspender o bebê em prono, com a mão sob seu abdômen.
○ Estímulo: a própria posição.
○ Resposta: extensão da cabeça, tronco e pernas, mantendo o corpo em um arco.
○ Observação/Significado Clínico: mostra o desenvolvimento do controle da musculatura extensora do corpo, a qual é necessária para habilidades, como andar.
Figura 6 – Reflexo de Landau
11. Reações de Retificação e Endireitamento
○ Devem ser observadas durante a execução dos movimentos do bebê e suas transferências posturais, priorizando a observação do alinhamento da cabeça em relação ao corpo de forma automática (Urzêda, 2009).
12. Reações de Proteção
○ Posição de teste: bebê sentado.
○ Estímulo: exercer um leve deslocamento anterior, lateral ou posterior sobre o bebê.
○ Resposta: colocar a mão para se proteger.
Documento de saúde pública do Brasil que pode ser baixado:
Diretrizes de estimulação precoce: crianças de zero a 3 anos com atraso no desenvolvimento neuropsicomotor.
No Capítulo 4.3.3, são explorados os reflexos primitivos.
BRASIL. Ministério da Saúde. Diretrizes de estimulação precoce: crianças de zero a 3 anos com atraso no desenvolvimento neuropsicomotor. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2016.
COSTA, P. P. et al. Influência da estimulação sensório-motora-oral em recém-nascidos pré-termo. Revista CEFAC, v. 11, n. 2, p. 200-207, 2009.
GOLIN, M. O.; SOUZA, F. I. S. de; SARNI, R. O. S. Avaliação neurológica pelo método Dubowitz em recém-nascidos prematuros com idade corrigida de termo comparada a de nascidos a termo. Revista Paulista de Pediatria, v. 27, n. 4, p. 402-409, 2009.
OLHWEILER, L.; SILVA, A. R. da; ROTTA, N. T. Estudo dos reflexos primitivos em pacientes recém-nascidos pré-termo normais no primeiro ano de vida. Arquivos de Neuro-Psiquiatria, v. 63, n. 2A, p. 294-298, 2005.
PEDERSSETTI, M. M.; SONODA, R. T. Reflexos primitivos: terapias optométricas. RECIMA21, v. 5, n. 3, p. e535006, 2024.
PRADO, C. do; VALE, L. A. F. Fisioterapia neonatal e pediátrica. Barueri: Manole, 2012.
URZÊDA, R. N. et al. Reflexos, reações e tônus muscular de bebês pré-termo em um programa de intervenção precoce. Revista Neurociências, v. 17, n. 4, p. 319-325, 2009.