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16/02/2021 18:39:14
"Em um seminário realizado em 2006, a Sociedade Brasileira de Computação (SBC), reuniu pesquisadores para discutir quais seriam os principais desafios da pesquisa em computação no Brasil nos dez anos que se seguiram (2006 - 2016). Este seminário acabou resultando em um relatório redigido por diversos autores destacando os cinco desafios principais, um dentre os quais receberá uma atenção especial neste texto. O desafio é descrito no relatório como: “O acesso participativo e universal do brasileiro ao conhecimento” (CARVALHO et al 2006).
Mesmo no ano de 2020, quatro anos após ao período estabelecido pela SBC referente aos desafios supracitados, este desafio ainda persiste e continua relevante para o Brasil. Nossa nação é uma nação extremamente conectada, assim destaca a colunista Paula Pedroza em sua postagem na digital talks que, apesar de ser postada em 2019, mostra que mesmo naquela época, o brasil tinha 59% da população conectada à internet. Contudo, uma pesquisa publicada no mesmo ano pela CETIC.BR, a TIC domicílios 2019 mostrava que apesar do número crescente de conectividade 20 milhões de domicílios não possuíam internet, com 50% nas regiões rurais. Diversas famílias sem acesso aos meios que facilitam o acesso à informação.
Contudo, a precariedade do acesso à informação no nosso país não se limita somente à falta de acesso à informação e conhecimento, como também ao quão limitado é este acesso. Em sua coluna na Harvard Business Review, feita em 2016, a autora Fernanda Saboia mostra como o whatsapp se tornou meio facilitador não só para interações sociais, já que ninguém mais precisaria pagar mais caro para enviar SMS, mas também na maneira como médias e pequenas empresas fazem negócios e atraem clientes. Observações condizentes com a realidade recorrente do país, já que, como mostrado na pesquisa TIC domicílios 2019, o celular é mostrado como dispositivo mais utilizado para acessar a internet, com 59% das pessoas acessando a internet somente pelo celular.
Considerando as informações apresentadas, é razoável concluir que o celular não é só a principal ferramenta para as interações sociais e para os negócios, mas também para o acesso e divulgação de à informação e conhecimento. E, de fato, ter um celular com acesso a internet traz muitas comodidades, como a habilidade de comprar coisas sem sair de casa e comunicar-se remotamente com parentes em qualquer lugar do país, porém o mesmo meio que quebra as barreiras da distância e dos custos diminui os filtros de informações confiáveis, visto que os aplicativos de mensagem instantânea são os meios em que as Fake News tendem a se espalhar mais rapidamente.
O divulgador científico Átila Iamarino comenta em um de seus vídeos que notícias publicadas em jornais, ou até em grandes portais têm de passar pelo crivo de editores e revisores antes de ser publicada, sob o risco de penalização caso alguma informação inverídica seja disseminada. Este filtro, porém, é quase inexistente em aplicativos de mensagem instantânea, cabendo ao usuário conferir quais notícias são verdadeiras e quais são falsas. Prática que não é muito difundida, não só por aspectos inerentes a cultura brasileira, mas também devido a limitação de dados de planos de internet para celular, reduzindo ainda mais a diversidade de informação acessada pelo cidadão brasileiro.
Quando se fala em inclusão digital e acessibilidade também deve-se pensar na facilitação do acesso a internet e sistemas de computação para pessoas com deficiências e comorbidades. Em suas reflexões sobre os desafios apresentados no Simpósio Brasileiro de Fatores Humanos em Sistemas Computacionais de 2012, a autora Talita Pagani fala sobre a falta de adesão de diversos sites brasileiros à acessibilidade para pessoas com algum tipo de deficiência física. Onde a mesma comenta que a acessibilidade deve ser levada em consideração no desenvolvimento do sistema e que a mesma deve ser cuidadosamente planejada, para evitar que más adaptações para o ambiente do deficiente acabe dificultando o acesso ao invés de facilitar.
É evidente que muito progresso foi feito em relação ao acesso à informação e ao conhecimento no âmbito nacional desde 2006. O amadurecimento e diversidade das plataformas de comunicação encurtaram cada vez mais as distâncias entre cidadãos e empresas. Contudo, também é inegável o fato de que o acesso a internet, e portanto ao conhecimento, não é tão democratizado quanto deveria ser. Portanto, “o acesso participativo universal do brasileiro ao conhecimento” continua sendo um desafio extremamente relevante e atual. "
CARVALHO, André C. Ponce de Leon F. de. Et al. Grandes desafios da pesquisa em computação no brasil, 2006. Disponível em: https://www.sbc.org.br/documentos-da-sbc/summary/141-grandes-desafios/798-grandesdesafios-portugues , Acesso em: 15/02/2021
SABOIA, Fernanda. The rise of whatsapp in Brazil is about more than just messaging. Disponível em: https://hbr.org/2016/04/the-rise-of-whatsapp-in-brazil-is-about-more-than-just-messaging , Acesso em: 16/02/2021
PAGANI, Talita. Desafios e oportunidades de pesquisa em acessibilidade e inclusão digital no Brasil Disponível em: https://mwpt.com.br/desafios-e-oportunidades-de-pesquisa-em-acessibilidade-e-inclusao-digital-no-brasil/ , Acesso em: 16/02/2021
IAMARINO, Atila, Whatsapp: realidade paralela do brasileiro. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=yciSv-lN-x8 , Acesso em: 16/02/2021
TIC Domicílios 2019, Disponível em: https://cetic.br/media/analises/tic_domicilios_2019_coletiva_imprensa.pdf , Acesso em: 16/02/2021