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06/02/2021 17:56:46
O avanço da tecnologia nos últimos anos tornou a informação muito mais abundante e fácil de consumir. Diariamente somos bombardeados de dados, notícias e relatos; informais ou formais, rotineiros ou inéditos, urgentes e alarmantes, verídicos e falsos. A correria do dia-a-dia muitas vezes tira a disposição de checar tudo o que chega a todo momento por redes sociais e portais de notícias e, muitas vezes sem mesmo perceber, absorvemos conteúdos inverídicos. Este processo várias vezes involuntariamente estimula apelos emocionais e conceitos pré-definidos que temos; e, consequentemente, pode levarmos à pós-verdade. Neste contexto, o assunto das fake news e pós-verdades são complementares. Mas isso sempre é verdade? Como esta conexão se dá a partir do que consumimos de falso diariamente?
As fake news viraram a palavra preferida na guerra ideológica extremamente polarizada que se vê no mundo nos dias de hoje. A convicção com que é proferida chega até dar a entender que realmente existam duas verdades contraditórias do mesmo fato, dada a feroz acusação recorrente nos palanques políticos e discussões de redes sociais. Mas não é por acaso, segundo o Jornal Estado de Minas, as fake news sobre o novo coronavírus já atinge 110 milhões de brasileiros. As pessoas não checam tudo o que consomem no dia-a-dia, tanto pela falta de intimidade com a tecnologia e desconhecimento de agências de checagens ou pela falta de tempo na correria cotidiana. O que consumimos diariamente sem controle passa por um filtro que não controlamos: o que se encaixa naquilo que acreditamos. As notícias que consumimos podem até não retratarem sempre as nossas crenças e ideias, mas embora consumamos todo tipo de informação, até sabendo que a veracidade pode ser questionável, aquelas que aceitamos estão mais ligadas ao que reforçam a nossa ideologia e crença, involuntariamente, independente de sua veracidade.
E por que isso acontece? A neurocientista israelense Tali Sharot — que trabalha no Laboratório do Cérebro Afetivo do Departamento de Psicologia Experimental da University College London, no Reino Unido — explica que os seres humanos se tornaram tão resistentes a mudar de opinião porque a maior parte das nossas crenças são verdadeiras. E isso também se encaixa no filtro ideológico que aplicamos involuntariamente. Em entrevista ao O Globo, Sharot exemplifica: se nos disséssemos que há um elefante voando lá fora, acharemos que a pessoa está maluca, pois sabemos que a lei da gravidade não permite isso e que elefantes não voam. Então, o cérebro rapidamente descarta esta informação porque não encaixa no que sabemos ou acreditamos que sabemos, aceitar informações contrárias as nossas certezas, em média, nos põe no erro. Justamente por a maior parte das coisas que acreditamos são verdades, como sabermos que há carros nas rodovias e que há pão na padaria.
O problema se aprofunda mais quando não conseguimos distinguir o que é fato e o que é crença, quando para muitas pessoas estes dois conceitos se unem em um só. Filtrar informação pela crença e não pelo que é fato nos faz reforçar apenas as ideias que acreditamos e nos isola em bolhas sociais. Yuval Harari diz em seu livro Sapiens, de 2011, que o espécie humana só prosperou mais que os demais hominídeos por poder se agrupar em maior número que qualquer espécie. E isso, por sua vez, se deveu a conseguirmos confiar nos outros a partir de uma crença em comum, sem precisarmos conhecer intimamente o próximo — como dezenas de milhares de fãs do Maroon 5 enchendo o Classic Hall, em Recife, conseguindo se organizar e se divertir cantando as mesmas canções, sem necessariamente conhecer uns aos outros, enquanto os funcionários permitem as suas entradas mediante a apresentação de um pedaço de papel colorido, por acreditarem conjuntamente no valor daquele artefato. Esta característica da espécie humana e o surgimento das redes sociais criaram o fenômeno das bolhas virtuais, onde pessoas com as mesmas crenças seguem outras pessoas com a mesma crença, que criam um ambiente que se auto isola pelo reforço das próprias verdades e sentimento artificial de que a maior parte das pessoas compartilham deste sentimento, pois é naquilo que eles são virtualmente imersos.
A internet veio para reforçar o crescimento das pós-verdades e fake news, isolando grupos de pessoas com sentimentos, crenças e costumes similares, e indicando a eles outros grupos que também reforçam os mesmos pensamentos. O ceticismo e a constante autocrítica são ferramentas importantes para estarmos sempre alertas naquilo que propagamos, pois, sem nem mesmo perceber, podemos já estar submersos dialogando dentro da nossa própria bolha.
HARARI, Yuval. Sapiens: Uma Breve História da Humanidade. 33ª edição. Porto Alegre, RS: L&PM Editores S. A., 2018.
FILHO, William Helal. Neurocientista explica por que as pessoas nunca mudam de opinião nas redes sociais. O Globo, 15 de set. de 2018. Disponível em: <[https://oglobo.globo.com/sociedade/ciencia/neurocientista-explica-por-que-as-pessoas-nunca-mudam-de-opiniao-nas-redes-sociais-23071786](https://oglobo.globo.com/sociedade/ciencia/neurocientista-explica-por-que-as-pessoas-nunca-mudam-de-opiniao-nas-redes-sociais-23071786)>. Acesso em: 6 de fev. de 2021.
FILHO, William Helal. Neurocientista explica por que as pessoas nunca mudam de opinião nas redes sociais. O Globo, 15 de set. de 2018. Disponível em: <[https://oglobo.globo.com/sociedade/ciencia/neurocientista-explica-por-que-as-pessoas-nunca-mudam-de-opiniao-nas-redes-sociais-23071786](https://oglobo.globo.com/sociedade/ciencia/neurocientista-explica-por-que-as-pessoas-nunca-mudam-de-opiniao-nas-redes-sociais-23071786)>. Acesso em: 6 de fev. de 2021.