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16/01/2021 21:51:19
A relação entre mulheres e trabalho é um tópico que envolve diversas discussões que perpassam a história da humanidade. Essa relação mudou muito, principalmente no último século, devido aos movimentos sociais feministas e as mudanças que eles trouxeram. Entretanto, os avanços são diferentes de acordo com as áreas de atuação: algumas se tornaram mais inclusivas, mas outras ainda demonstram um quadro majoritariamente masculino. A computação é uma delas.
Por mais que as mulheres tenham tido um papel essencial em muitas das grandes descobertas da computação, muitos de seus trabalhos não foram reconhecidos por décadas, e até hoje ficam na penumbra. Nomes como o de Ada Lovelace foram importantes desde o primórdio desta área, já que ela foi a responsável por um dos primeiros algoritmos criados, mas sua produção ficou oculta pelo nome de seu marido, a quem o crédito foi atribuído. Isto, na verdade, é quase que um padrão nas ciências em geral: a subjugação da obra da mulher. Infelizmente, a ocultação desse lado da história inclusive impede que até hoje algumas mulheres sejam reconhecidas por suas descobertas.
Mas se é difícil encontrar grandes nomes femininos no âmbito da computação, é ainda mais difícil encontrar mulheres negras reconhecidas no campo. Portais como o Canaltech divulgam listas com as dez mulheres mais importantes da tecnologia, mas ao descer pela página é possível observar que todas são brancas, sendo a maioria americana ou europeia.
Tendo em vista esta problemática, muitos projetos de incentivo ao trabalho de mulheres negras na computação têm surgido, como o PretaLab e mesmo o She’s Tech. Ambos são brasileiros e têm sido precursores na luta por mais igualdade de gênero e raça no mercado de trabalho da tecnologia.
“Para a mulher negra que historicamente é oriunda de classes subalternas, a utilização das tecnologias rompeu fronteiras para novas formas de lidar com novos conhecimentos em uma dimensão social. Kozinets (2014) ressalta a necessidade de compreendermos que a tecnologia não determina a cultura, mas, são codeterminantes e coconstrutivas, isso quer dizer que temos nossa cultura definida em padrões sociais e a moldamos pela tecnologia. Muito se tem perscrutado nas últimas décadas sobre a mobilização de mulheres negras no mercado de trabalho com o uso de tecnologias a partir do final do século XX. O impacto dessas inserções resultou, segundo Silva (2017), em uma mobilização de resistência que poderá implicar diretamente na desconstrução de discursos racializados e sexistas, partindo para mudanças que abrem espaços para o processo de produção tecnológica pela mulher negra. (LOBO, et al. 2018)”
Outra parte desta problemática encontra-se nas discussões sobre identidade de gênero e papel social. São questões culturais, mas que denotam-se nos preconceitos que acabam por se tornarem barreiras para a democratização do trabalho. Muitos estudiosos dedicam-se a entender estas diferenças que não são naturais, mas sim naturalizadas por anos de segregação e violência. Daí a importância dos estudos de gênero e sexualidade, uma vez que é através deles que a sociedade alcança mudanças positivas, rompendo com imposições sociais.
“Para Scheinbinger, isso ocorre porque a identidade de gênero denota como um homem ou uma mulher se apropriam individualmente de aspectos da ideologia de gênero como parte de seu senso do eu. Essas identidades podem até variar contextualmente, conforme o homem ou a mulher percebam o comportamento como mais ou menos adequado ao contexto social. No entanto, é essa expressão do eu que irá nortear a atribuição de gênero pelos outros. Os corpos constantemente operados em mulheres pelos discursos do que deve ser e como deve agir a mulher entram em constante disputa com os valores e práticas projetadas pela cultura da ciência.(LIMA, 2013)”
Para combater o cenário apresentado, além das já citadas PretaLab e She’s Tech, existem outras iniciativas como o PyLadies, PrograMaria, Minas programas e tantos outras, além disso, o mercado tecnológico vêm cada vez mais incentivando a inclusão feminina em seu corpo de funcionários, com programas voltados especialmente para mulheres na busca de amenizar o abismo social.
LOBO, Mory Márcia de Oliveira; FIGUEIREDO, Karen da Silva; MACIEL, Cristiano. A Mobilização de Resistência das Mulheres Negras na Computação e Tecnologias. In: WOMEN IN INFORMATION TECHNOLOGY (WIT), 12. , 2018, Natal. Anais [...]. Porto Alegre: Sociedade Brasileira de Computação, 2018 . DOI: https://doi.org/10.5753/wit.2018.3388.
LIMA, Michelle Pinto. As mulheres na Ciência da Computação. Rev. Estud. Fem., Florianópolis , v. 21, n. 3, p. 793-816, Dec. 2013 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-026X2013000300003&lng=en&nrm=iso>. access on 16 Jan. 2021. https://doi.org/10.1590/S0104-026X2013000300003.
8 iniciativas que mostram que lugar de mulher é na tecnologia. Olhar Digital, 2018. Disponível em: <https://olhardigital.com.br/2018/03/07/games-e-consoles/iniciativas-que-mostram-que-lugar-de-mulher-e-na-tecnologia/> Acesso em:15, Janeiro de 2021