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16/01/2021 21:40:16
Ada Lovelace desenvolveu o primeiro algoritmo conhecido da história e é conhecida como a primeira programadora do mundo. Grace Hopper foi almirante da Marinha americana, analista de sistemas e a principal motivadora do comitê que culminou na criação do COBOL, linguagem largamente utilizada em sistemas corporativos no mundo até hoje. Hedy Lamarr foi atriz hollywoodiana e responsável pelo projeto da tecnologia que possibilita a existência do Bluetooth e Wi-Fi. O que todas essas mulheres têm em comum, é fácil de identificar: todas possuem uma enorme bagagem de pioneirismo e marcos históricos para a computação, são responsáveis por impactar significativamente tudo que conhecemos sobre a computação atualmente. O outro ponto em comum é que elas tiveram seu estrelismo ofuscado por nomes como Bill Gates, Mark Zuckerberg, Steve Jobs e outros diversos homens que, assim como elas, deixaram marcas em seus segmentos de atuação com reconhecimento completamente opostas. Dado esses pontos conflitantes, são levantadas algumas questões sobre a realidade da presença feminina na computação como um todo.
Segundo o artigo “Um Panorama da Presença Feminina na Ciência da Computação” de Moreira, estudos mostram que, até em países mais desenvolvidos, como Suíça, Holanda e Reino Unido, a presença feminina é extremamente reduzida, chegando a apenas 10% de ingresso de estudantes na área de tecnologia. No Brasil, essa realidade não é diferente. A primeira turma do curso de Ciência da Computação do Instituto de Matemática e Estatística (IME) da Universidade de São Paulo (USP) contava com 20 alunos, sendo 14 mulheres e 6 homens, onde elas representavam um total de 70% dos alunos da turma que se formou no ano de 1974. Em 2016, houve um aumento do número de vagas para 41, entretanto somente 6 desse total eram do sexo feminino. Simone Souza, presidente da Comissão de Graduação do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da USP (ICMC-USP), afirma que “entre 1990 e 2000, a proporção de gêneros se equilibrou e a partir de 2000 a quantidade delas foi caindo ano a ano"". Este declínio está fortemente relacionado com estereótipos, reafirma Souza, inferindo que após o ano de 1984, foram lançados os primeiros computadores pessoais com materiais de divulgação voltados para o público masculino, começando, assim, um desinteresse das mulheres e ainda adiciona que o quase inexistente incentivo voltado à trazer mais meninas para as áreas exatas impacta diretamente nessa estatística, ramificando de uma forte questão cultural que mostra como ""desde a nossa infância, os pais preferem bonecas para as meninas e videogames para os meninos.
Em contrapartida, diversos movimentos surgiram ao longo dos anos para incentivar as mulheres na área de tecnologia. Um dos maiores exemplos desses movimentos chama-se Women Who Code (WWC), uma organização internacional sem fins lucrativos que busca prover suporte e serviços para mulheres que pretendem ou estão ingressando na área de tecnologia, fomentando seus conhecimentos técnicos através de um ambiente quase que totalmente familiar e agradável, rico em empatia e senso de pertencimento; a WWC está presente em mais de 60 cidades, distribuídas em mais de 20 países, marcando um total de 167.000 membros globalmente até o ano de 2018. Outro grande exemplo é a AnitaB.org, uma outra organização non-profit localizada em Palo Alto, na Califórnia, que tem como missão apoiar e oferecer os mais diversos tipos de insumos que permitam reter cada vez mais mulheres na computação e no mercado de tecnologia da informação. Algumas outras iniciativas como o PrograMaria, {reprograma}, além das comunidades universitárias voltadas às meninas como o grupo CIntia, do Centro de Informática da Universidade Federal de Pernambuco, travam lutas diárias a fim de reforçar a necessidade da representatividade feminina, do senso de comunidade e, fundamentalmente, o constante crescimento pessoal, profissional e acadêmico de cada uma dessas mulheres por volta de incentivos.
Conclui-se, portanto, que são muitos os obstáculos que trouxeram para a realidade atual da mulher na computação. É preciso construir novas maneiras de incentivar o retorno das mulheres para a área que elas mesmas ajudaram a criar. A luta pela representatividade é inacabável, incansável, de uma resistência esplendorosa, onde todos possuem um papel claro e fundamental nessa caminhada. Por isso, é necessário incentivar as meninas desde cedo para o mundo da tecnologia, oferecer a elas a oportunidade de conhecer, se familiarizar e abraçar este novo mundo para que elas também possam servir de inspiração para outras meninas.
Moreira, Josilene Aires (2014). Um Panorama da Presença Feminina na Ciência da Computação. Disponível em: http://www.ufpb.br/evento/index.php/18redor/18redor/paper/viewFile/1935/853
G1 (2018). Como as mulheres passaram de maioria a raridade nos cursos de informática. Disponível em: https://g1.globo.com/educacao/noticia/como-as-mulheres-passaram-de-maioria-a-raridade-nos-cursos-de-informatica.ghtml
Jornal da USP (2018). Por que as mulheres “desapareceram” dos cursos de computação?. Disponível em: https://jornal.usp.br/universidade/por-que-as-mulheres-desapareceram-dos-cursos-de-computacao/
Progra{maria} (2016). Mulheres enfrentam preconceito e isolamento em cursos de computação. Disponível em: https://www.programaria.org/preconceito-mulher-cursos-computacao/
Take Blip (2019). A volta das mulheres na computação. Disponível em: https://take.net/blog/devs/a-volta-das-mulheres-na-computacao