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09/01/2021 17:09:32
Indo de encontro às tendências do mercado de trabalho em tempos de pandemia, a área de tecnologia da informação vem requisitando cada vez mais profissionais, com vagas abertas por meses e outras tantas a abrir. O movimento parece ser constantemente crescente, estimando-se que em 2024, o mercado necessitará de cerca de 70 mil novos profissionais anualmente, segundo a Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom). Há quem diga que se formam poucos profissionais ou que as vagas contém requisitos exagerados. Mas, no geral, o que causa essa grande demanda na área de tecnologia e por que motivo a oferta de profissionais está longe de ser equivalente?
O mercado extremamente aquecido de tecnologia parece não sofrer com turbulências mesmo em tempos difíceis. Em um mundo de crise sanitária onde precisa-se de menos contato humano, o mundo digital é o principal meio alternativo para resolver questões que envolvam interação humana. O mercado que já estava em crescimento, continuou sua ascensão em 2020, segundo dados da IDC Brasil (International Data Corporation). Por conta deste movimento, o aumento da procura por profissionais qualificados tem sido vertiginoso e a falta de profissionais qualificados já é notória. Segundo Fabiana Fabiana Verdicchio, diretora de RH da PagSeguro, o problema se encontra principalmente na escassez de profissionais suficientemente qualificados. Luís Eugênio Braga, diretor da Luz Inova Tecnologia, diz em uma entrevista para o Diário do Nordeste, que há uma ampla gama de vagas, entretanto, muitas delas requisitam profissionais mais experientes e especializados.
A questão da falta especialização e qualificação dos profissionais de TI é um ponto retroalimentado pelo íngreme crescimento da área. Um levantamento realizado pelo Semesp (Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo) em 2012 revelou que apenas um terço dos estudantes que ingressam nos cursos de tecnologia chegam a se formar. Ainda que seja antigo, o levantamento foi confirmado pela Brasscom em uma nova pesquisa em 2019, onde afirmam que 69% dos alunos de tecnologia não se formam. E a motivação em ambos os casos são as mesmas: estudantes que entram no mercado de trabalho durante o curso e acabam abandonando-o. Portanto, a situação se comporta como um ciclo de causalidade, onde estudantes abandonam o curso para trabalhar — por conta do alto índice de empregabilidade do setor — e, por conta disso, não se qualificam o suficiente para vagas que demandam conhecimentos mais específicos e complexos, causando uma escassez neste segmento do mercado.
A alta demanda por especializações estão modificando o âmbito acadêmico, é fato, pois cada vez mais se criam graduações em áreas mais específicas de tecnologia, que antes eram mais aprofundadas por cursos de pós-graduação, como Computação em Nuvem e Ciência de Dados. Estes cursos, por sua vez, abrangem bem menos conteúdo que um Bacharelado em Ciência da Computação ou Sistemas da Informação, tentando encaixar a sua grade curricular em cerca de 2 anos e meio. Este movimento pode ser a chave para preencher este setor do mercado carentes por especialistas nestas tecnologias, ao mesmo tempo que gera profissionais cada vez menos generalistas, o que até certo ponto é perigoso. A área de TI está sempre em constante mudança, com tecnologias novas surgindo e outras tantas se tornando obsoletas tão rapidamente. Este fator compromete profissionais mais particularizados, com falta de flexibilidade para atuar em diferentes domínios e restrito demais no seu próprio campo de conhecimento.
O aquecimento do mercado de tecnologia parece prejudicar a si mesmo em certo ponto. Enquanto as empresas tirarem de si a responsabilidade com a formação de seus empregados, este fator será ainda mais acentuado, uma vez que o setor de TI precisará cada vez mais de profissionais qualificados. Incentivar a permanência em seus cursos e investir na qualificação de sua mão-de-obra faz parte também do compromisso da empresa com seus funcionários e propicia os avanços tecnológicos do país com mais profissionais suficientemente capacitados dentro da área.
LAZARETTI, Bruno. Na contramão do mercado, empresas de TI lutam para preencher vagas abertas. UOL, São Paulo, 30 de set. de 2020. Disponível em: <https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2020/09/30/na-contramao-do-mercado-empresas-de-ti-lutam-para-preencher-vagas-abertas.htm>. Acesso em: 9 de jan. de 2021.
RIBEIRO, Felipe. Mercado brasileiro de tecnologia e comunicação crescerá 4,9% em 2020, prevê IDC. Canaltech, 8 de fev. de 2020. Disponível em: <https://canaltech.com.br/negocios/mercado-brasileiro-de-tecnologia-e-comunicacao-crescera-49-em-2020-preve-idc-160055/>. Acesso em: 9 de jan. de 2021.
PRACIANO Daniel. Mercado de TI tem grande demanda e déficit de novos profissionais. Diário do Nordeste, 8 de mar. de 2020. Disponível em: <https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/negocios/mercado-de-ti-tem-grande-demanda-e-deficit-de-novos-profissionais-1.2219900>. Acesso em: 9 de jan. de 2021.
EVASÃO escolar: 69% dos alunos dos cursos de tecnologia não se formam. Brasscom, 9 de set. de 2019. Disponível em: <https://brasscom.org.br/evasao-escolar-69-dos-alunos-dos-cursos-de-tecnologia-nao-se-formam/>. Acesso em: 9 de jan. de 2021.
ÍNDICE de evasão de alunos é maior na área de tecnologia da informação. G1, São Carlos e Araraquara, 26 de set. de 2012. Disponível em: <http://g1.globo.com/sp/sao-carlos-regiao/noticia/2012/09/indice-de-evasao-de-alunos-e-maior-na-area-de-tecnologia-da-informacao.html>. Acesso em: 9 de jan. de 2021.