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09/01/2021 20:23:16
A presença da informática no âmbito da educação vai muito além das aulas de conhecimentos básicos que foram introduzidas nas escolas já há algumas décadas. A cada ano surge uma nova abordagem para tratar do desenvolvimento tecnológico nos modelos de ensino e aprendizagem, que vem se transformando rapidamente e trazendo desafios para as escolas. Pensar sobre as ferramentas pedagógicas exige um entendimento a respeito das práticas de ensino, que não podem ser pautadas apenas na afinidade ou não de uma instituição com a informática, mas sim nos processos de aprendizagem.
Partindo do cenário brasileiro, temos no Plano Nacional de Educação (PNE) vigente as principais diretrizes para políticas educacionais. Em suas metas estão presentes algumas possibilidades do uso da informática na educação pública, como quando menciona a necessidade de institucionalizar um programa de composição de acervo digital de referências bibliográficas e audiovisuais e da instalação de mais laboratórios nas instituições de ensino.
Os processos de globalização consideram o meio digital como o principal caminho para o compartilhamento de informações, mas é preciso encarar as desigualdades sociais presentes no mundo. O relatório para a Unesco da Comissão Internacional sobre Educação de 1998 já previa essas dificuldades, quando mencionava que
""Na futura aldeia global, a impossibilidade de aceder às tecnologias informáticas mais recentes pode ter repercussões negativas em todos os níveis de ensino científico e tecnológico, quer se trate da formação de professores ou do sistema educativo propriamente dito, mesmo no nível do ensino superior. Para integrar a aprendizagem da ciência e da técnica na educação para todos, como preconiza a Comissão, é preciso acabar com o desnível, em matéria de ensino científico e tecnológico, entre países industrializados e os que não o são. Sobretudo, é preciso descobrir meios inovadores de utilizar as tecnologias informáticas e industriais para fins educativos, mas também e principalmente, como garantia de qualidade da formação pedagógica e como meio de levar os professores de todo o mundo a comunicarem-se entre si.”
Mesmo tendo sido escrito há mais de 20 anos, as necessidades apresentadas pelo relatório ainda não foram supridas. Desigualdades de acesso à tecnologia ainda fazem parte da realidade do Brasil e do mundo, e dificultam a democratização do uso da informática na educação.
Entretanto, é importante considerar a relação da informática e educação não só no âmbito político-pedagógico, mas também nas realidades particulares, que englobam diferentes grupos sociais. As metas propostas nos planos de educação são de grande importância para a educação formal, mas a tecnologia está presente também em outras modalidades de educação, como a informal e a não-formal.
Na educação popular, método que valoriza as diferentes realidades culturais e conhecimentos prévios dos grupos sociais, há uma perspectiva de que o uso das novas tecnologias impõe formas de pensamento e valores da cultura ocidental norte americana, dominando a originalidade e a pluralidade de identidades próprias das culturas dos países latino-americanos. Esse ponto remonta mais uma vez às desigualdades e barreiras para a democratização do uso da informática.
Considerando os pontos abordados até aqui, pode-se afirmar que a maior barreira para a democratização do acesso à informática é a desigualdade social que ainda faz parte da realidade de muitos países. Há ainda outros pontos que podem ser observados, como os impactos da tecnologia nos processos de aprendizagem e os benefícios e malefícios deste uso na primeira infância, mas é difícil discutir esses temas de maneira efetiva quando ainda não há uma uniformidade na utilização dessas ferramentas.
Com isso, é possível concluir que este campo de conhecimento ainda trará muitas discussões, tanto no meio acadêmico quanto no das políticas públicas, já que as realidades estão sempre em transformação e trazendo novos dados para aqueles que se dedicam a destrinchar a relação entre a educação e o meio digital. O que não se pode negar é a importância de discutir esse tema tão diverso e capaz de trazer inovações quase que ilimitadas para o processo de ensino e aprendizagem.
DELORS, J. et al. Educação: um tesouro a descobrir: relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 1998.
BRASIL. Lei n.13.005, de 25 de junho de 2014. Aprova o Plano Nacional de Educação – PNE e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF., 26 jun 2014. Disponível em: http://pne.mec.gov.br
P. PONTUAL; T. IRELAND (Orgs.). Educação Popular na América Latina: diálogos e perspectivas. Brasília, MEC/UNESCO, 2006.