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09/01/2021 16:19:57
Com o avanço da tecnologia, a presença do smartphone se tornou quase uma extensão do braço de jovens e adolescentes. A velocidade da busca e a aquisição de novos conhecimentos é quase imediata, seja no clique do mouse ou no deslizar dos dedos pelo celular. Entretanto, com toda essa facilidade, também existem fatores prejudiciais para essa constante exposição da tecnologia. Os benefícios e malefícios das tecnologias vêm sendo foco de atenção de diversos profissionais que lidam com as questões da saúde durante a infância e a adolescência. É de fundamental importância o bom senso e a informação adequada que os pediatras devem enfatizar para as famílias, crianças e adolescentes sobre este tema.
Inicialmente, é necessário ressaltar que os hábitos da criança e o desenvolvimento físico e cognitivo são formados durante a primeira infância - abaixo dos 5 anos de idade. Brincadeiras ativas e oportunidades para atividades físicas contribuem para o desenvolvimento de habilidades motoras e exploração do ambiente físico. Os pais possuem um papel fundamental na atividade física e na nutrição das crianças, para que o ambiente doméstico seja propício para esse desenvolvimento. Em contrapartida, na geração digital, a utilização de dispositivos, aplicativos, videogames e a Internet está cada vez mais presente em idades iniciais e em todos os lugares. A neuropediatra Liubiana Arantes Regazoni, da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), afirma que: “Essa é uma questão de saúde pública, uma vez que as crianças estão cada vez mais expostas às telas. E isso em um momento crucial para o desenvolvimento de habilidades que serão importantes para toda a vida”.
O professor aposentado do Departamento de Ciência da Computação do Instituto de Matemática e Estatística da USP, Valdemar Setzer, afirma que: “Tanto o computador como todos os outros meios eletrônicos exigem uma enorme autodisciplina e um enorme autocontrole, coisa que as crianças e jovens não possuem”. De acordo com Setzer, as crianças estão no processo de desenvolver a capacidade de discernir o que é bom ou ruim, verdadeiro ou falso, e expô-las a uma tela repleta de informações é uma porta para diferentes perigos. O uso prematuro e prolongado das tecnologias podem causar dificuldades de socialização e conexão com outras pessoas; aumento da ansiedade, violência, cyberbullying, transtornos de sono e alimentação, sedentarismo, problemas auditivos por uso de headphones, problemas visuais, problemas posturais e lesões de esforço repetitivo (LER); além de maiores vulnerabilidades como acesso à pornografia, às redes de pedofilia e exploração sexual online.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou um guia com orientações sobre atividades físicas, comportamento sedentário e sono para crianças menores de 5 anos referente a rotina infantil e a exposição às tecnologias. As recomendações para crianças menores de 1 ano devem ter pelo menos 30 minutos de atividade física e não devem ter contato com telas; entre 1 a 2 anos, as atividades físicas devem possuir pelo menos 180 minutos e não mais de 60 minutos de exposição a telas; e de 3 a 4 anos, o tempo para atividades físicas são pelo menos 180 minutos (com pelo menos 60 minutos de atividade moderada) e não mais de 60 minutos na frente das telas.
A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) lançou um próprio guia, intitulado Manual de Saúde de Crianças e Adolescentes na Era Digital. A publicação segue os posicionamentos da associação dos Estados Unidos, mas é um pouco mais rígida em relação aos infantes que ainda usam fraldas. O guia possui recomendações para pediatras, educadores e escolas, pais e crianças e adolescentes.
Percebe-se, portanto, que é necessário o controle dos pais, educadores e pediatras refletirem sobre as interferências, principalmente negativas, no desenvolvimento infantil com o fácil acesso a tecnologia por parte das crianças e manter um nível eficiente de controle e orientação no uso desses equipamentos eletrônicos. Seguir as recomendações da OMS e da SBP é importante para prevenir o desenvolvimento saudável das crianças.
Veja Saúde (2018). Tecnologia na infância: qual o limite?. Disponível em: https://saude.abril.com.br/familia/tecnologia-na-infancia-qual-o-limite/
SBP (2018). Saúde de Crianças e Adolescentes na Era Digital. Disponível em: https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/2016/11/19166d-MOrient-Saude-Crian-e-Adolesc.pdf
McCloskey (2018). Parent Perceptions of Mobile Device Use Among Preschool-Aged Children in Rural Head Start Centers. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29031581/
OMS (2019). Guidelines on physical activity, sedentary behaviour and sleep for children under 5 years of age. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789241550536
Setzer, Valdemar (2010). Crianças X computadores: benefícios e males da era tecnológica. Disponível em: https://www.ime.usp.br/~vwsetzer/entrev/delas-Filhos-160810.html