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02/01/2021 16:28:54
Com o avanço das tecnologias móveis na última década, não demorou para as crianças de menos de 10 anos substituírem cada vez mais os brinquedos pelos dispositivos digitais, como concluiu estudo da Karpesky com a CORPA, mostrando que 49% das crianças brasileiras têm contato com um dispositivo conectado antes dos 6 anos de idade. E nos últimos anos, diversas pesquisas buscaram analisar o impacto do uso destes aparelhos no desenvolvimento cognitivo e social das crianças. Entretanto, os resultados são controversos principalmente por tentar abranger uma área de pesquisa bastante recente. Mas o que se tem de conclusivo nestes estudos para definir o bem ou o mal que este uso excessivo de smartphones e tablets na infância causam?
Com o objetivo de entreter e aquietar as crianças, os pais estão expondo os filhos cada vez mais cedo à tecnologias digitais. Mas o encontro dos pequenos com as telas é perigoso e contraindicado para grande parte da comunidade científica que faz pesquisas na área. O problema neste caso é exatamente esta ""aquietação"", neste ramo de estudos, isso é chamado de distração passiva, o que impede que as crianças interajam com o mundo ao seu redor de maneira ativa e social. Este processo é extremamente importante para a fase de maturação do cérebro nos primeiros mil dias de vida, como explica manual de orientação sobre o uso de telas da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), lançado em 2016.
O uso destes dispositivos pode afetar significativamente o sono, não apenas nos mais jovens, uma vez que a luz azul liberada pelos aparelhos digitais diminui de maneira mais nociva os níveis de melatonina, hormônio que age nos padrões de sono, segundo pesquisa realizada pela Universidade de Harvard. Sobre este ponto, os sistemas operacionais mais recentes, como Windows 10, Ubuntu 18, iOS, Android e MacOS, estão trazendo já no sistema os filtros de luz azul que podem ser agendados para ativar no final da tarde. É comum ver movimentos das empresas de tecnologia para auxiliar os pais neste aspecto, como por exemplo áreas de conteúdos infantis em serviços de streaming, como Youtube e Netflix, ou ferramentas de controle parental nos sistemas operacionais, como o da OneUI, da Samsung.
Entretanto, ainda que haja ferramentas que controle o uso dos aparelhos e tente reduzir os danos causados pelo seu excesso, a SBP não recomenda que crianças menores de 2 anos tenha qualquer contato com telas e que antes dos 5 anos o tempo de exposição seja de, no máximo, 1 hora. Entretanto, uma pesquisa da revista Crescer, alerta que 47% das crianças têm mais de 3 horas de contato com telas, o que é superior até o que é recomendado para adultos. Neste tempo de uso, o ideal é que seja gasto com jogos educativos e consumo de mídia adequada, que se configuram como pontos positivos no contato dos mais novos com os aparelhos digitais. Porém, esse controle de acesso geralmente não corre, cerca de 80% dos pais não sabem o que o filho acessa na internet, segundo pesquisa CyberHandbook, e, por conta disso, torna-se cada vez mais comum o contato dos mais novos à conteúdos impróprios, o que acentua ainda mais a nocividade destas ferramentas na infância.
É certo que os smartphones e tablets se estabeleceram no cotidiano trazendo diversos benefícios, tanto de comunicação quanto de informação. O acesso ao novo é instantâneo e, muitas vezes, involuntário. Todavia, é perigosa a exposição desmedida das crianças ao que nem os adultos conseguem controlar e usar de maneira saudável. Os números apresentados mostram que esse primeiro contato é extremamente apressado e sem filtros, o que pode causar diversos prejuízos ao bem-estar e desenvolvimento dos mais jovens. Entretanto, é irreal a ideia de isolar a criança da revolução tecnológica que se estabelece na sociedade dia após dia, com o excesso de influência interna (com os pais) e externa (com colegas de escola). Porém, o controle e o filtro são essenciais para tornar essa experiência mais benéfica que o contrário, estabelecendo, assim, uma relação saudável entre as crianças e a tecnologia.
SALAS, Javier. Abusar das telas afeta a inteligência das crianças. El País, 27 de set. de 2018. Disponível em: <https://brasil.elpais.com/brasil/2018/09/26/ciencia/1537960453_593059.html>. Acesso em 2 de jan. de 2021.
BERTONZIN, Bruno. Estudo revela a quantidade de crianças com menos de 10 anos que já possuem um celular. TudoCelular, 15 de jun. de 2020. Disponível em: <https://www.tudocelular.com/seguranca/noticias/n158183/estudo-criancas-uso-celulares.html>. Acesso em 2 de jan. de 2021.
PINHEIRO, Chloé. Menos telas, mais saúde, pede Sociedade Brasileira de Pediatria em manual. Bebe.com.br, 19 de fev. de 2020. Disponível em: <https://bebe.abril.com.br/desenvolvimento-infantil/menos-telas-mais-saude-pede-sociedade-brasileira-de-pediatria-em-manual/>. Acesso em 2 de jan. de 2021.
CAGLIARI, Roberto. Insônia: por que o celular prejudica tanto o sono?. Portal PEBMED, 28 de set. de 2018. Disponível em: <https://pebmed.com.br/insonia-por-que-o-celular-prejudica-tanto-o-sono/>. Acesso em: 2 de jan. de 2021.
CONTROLE parental: como garantir um ambiente seguro para seus filhos na internet. Olhar Digital, 12 de jul. de 2019. Disponível em: <https://olhardigital.com.br/2019/07/12/videos/controle-parental-como-garantir-um-ambiente-seguro-para-seus-filhos-na-internet/?gfetch=2019%2F07%2F12%2Fvideos%2Fparental-control-how-to-ensure-a-safe-environment-for-your-children-on-the-internet%2F>. Acesso em: 2 de jan. de 2021.