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20/12/2020 18:01:25
"Em um mundo onde o acesso a uma rede de informação e comunicação quase infinita cabe em um bolso, não é de se surpreender o altíssimo uso do mundo virtual como uma analogia mais prática e rápida ao mundo físico e tangível. As redes sociais, mais do que ninguém, se beneficiam deste movimento, uma vez que, como disse Aristóteles, Marx e Engels, o homem é um ser social. Porém, a necessidade social gerada em torno das ferramentas de comunicação virtuais impossibilita o combate ao vício por supressão e se torna cada vez mais necessário o auto conhecimento para a devida dosagem diária de ""mundo virtual"". Mas como essas plataformas se enraizaram nos costumes cotidianos e qual o real efeito prejudicial que elas trazem?
Em Sapiens, de 2011, Yuval Noah Harari explica que o Homo sapiens prosperou mais que as demais espécies por conta de sua capacidade de manter estruturas sociais mais complexas. Um grupo de chimpanzés, por exemplo, consegue manter-se em grupo até um certo número, limitado a quantidade de conexões interpessoais que ele consegue manter, estabelecendo um nível de confiança suficiente para permitir-se participar de um determinado grupo. O ser humano funciona diferente, as conexões e relações de confiança entre os Homo sapiens não necessitam de contato direto, mas se estendem à capacidade de se acreditar piamente em algo em comum e compartilhar dos prazeres da mesma experiência. Mais de 100 mil pessoas conseguem se concentrar pacificamente na Praça São Pedro para assistir o anúncio do novo papa após o conclave de 2013 por compartilharem a mesma fé e outras 60 mil se aglomeram no Rock In Rio pela fascinação comum pela banda Metallica. A capacidade do ser humano de se relacionar pela crença comum nas próprias estruturas sociais tornam estas muito mais complexas que as que qualquer outro animal poderia manter.
As redes sociais se beneficiam disso, os grupos que relacionam pessoas com a mesma religião, semelhante gosto musical ou que torcem para o mesmo time de futebol constroem novas conexões e alimentam este ciclo virtual, de sempre manter conectado através do que é semelhante. Mas o aumento da necessidade de ser virtual impulsionado pelo crescimento das conexões traz mais malefícios do que se imagina. O espaço entre telas digitais permite qualquer um ser o que não é, e a todo resto acreditar nisso. A imagem é o principal fator, em um estudo feito pelo Royal Society for Public Health (RSPH), do Reino Unido, mostra que o uso do Instagram faz com que 70% dos jovens tenham sentimentos negativos em relação à própria imagem, o que comumente é impulsionado pelas fotos de corpos esculturais e rostos sem marcas geralmente editados por softwares de imagem e promovidas como representação sublime de naturalidade.
Os filtros de redes sociais que deformam os rostos dos usuários, fazendo-os parecerem mais próximos de padrões pré-estabelecidos, têm impulsionado buscas por cirurgias plásticas com o objetivo de ""melhorar a aparência em selfies"", segundo dados da Academia Americana de Cirurgia Facial Plástica e Reconstrutiva em 2019. O impacto na autoestima tem sido o mais danoso causado pelas redes sociais. E o aumento das taxas de ansiedade e sintomas de depressão em jovens de 14 a 24 anos nos últimos anos, relatado por estudo da Universidade Johns Hopkins em 2016, pode ter a ver com o aumento do tempo diário gasto com redes sociais. O estudo do RSPH ainda informa que participantes relatam o uso do Instagram como o mais prejudicial a autoestima.
De fato, redes sociais têm efeitos negativos que geralmente se sobrepõem ao positivo quando não se há um controle acerca de seu uso. Os motivos em torno do fascínio das pessoas por este tipo de plataforma vem dos mesmos que fizeram o homem, como espécie, se organizarem em estruturas sociais mais complexas e desenvolverem sensos mais sensíveis de empatia com seus semelhantes. Mas, ainda que cada vez mais intrínseco nos costumes, o uso destas ferramentas deve ser devidamente dosado, uma vez que a influência nos aspectos psicológicos dos mais jovens acaba por ter um efeito mais destrutivo que construtivo."
AS REDES SOCIAIS estão te fazendo bem? Veja o que a ciência diz. Medley, Suzano, 14 de ago. de 2020. Disponível em: <https://www.medley.com.br/blog/saude-social/redes-sociais-fazem-bem-ou-mal>. Acesso em: 20 de dez. de 2020.
SELFIES motivam 55% das plásticas faciais, aponta pesquisa. Catraca Livre, 7 de fev. de 2018. Disponível em: <https://catracalivre.com.br/saude-bem-estar/selfies-motivam-55-das-plasticas-faciais/>. Acesso em: 20 de dez. de 2020.
HARARI, Yuval. Sapiens: Uma Breve História da Humanidade. 33ª edição. Porto Alegre, RS: L&PM Editores S. A., 2018.
SOCIAL media and young people's mental health and wellbeing. Royal Society for Public Health, Londres, mai. de 2017. Disponível em: https://www.rsph.org.uk/static/uploaded/d125b27c-0b62-41c5-a2c0155a8887cd01.pdf>. Acesso em 20 de dez. de 2020.