Kim Ji-hoon olhou para a fachada da casa de pedras quadradas pintadas de branco. A casa possuía dois andares, mas os donos, após a morte dos pais, que eram os antigos proprietários, decidiram dividir a casa em duas, assim poderiam ganhar com dois aluguéis. Ji-hoon ainda não sabia se o que estava fazendo era uma boa ideia, afinal de contas o aluguel de duas casas em Hongdae custava em torno de 700.000 a 2.500.000 won. Mas Ji-hoon não iria morar nas duas casas, ele pretendia estabelecer residência na casa de cima e montar o café Harmonia embaixo. Ele acreditava que os clientes seriam atraídos pelo clima acolhedor que ele planejava construir. 

Ji-hoon ouviu uma batida de janela e olhou para o lado, para a casa geminada com a sua, que tinha uma fachada lisa e cinza, com janelas de molduras pretas, aparentemente uma delas havia sido fechada naquele momento. Os donos haviam garantido que a vizinhança era constituída por pessoas de bom caráter, mesmo que eles não morassem na casa, a visitava toda semana. Talvez a pessoa que morasse naquela casa estivesse se perguntando o que um rapaz estava fazendo parado no meio da rua, com malas aos seus pés. Ji-hoon pegou as malas e entrou na sua casa. 

A casa debaixo era ampla, com paredes brancas e piso de madeira de faia, Ji-hoon ficou alguns minutos admirando o local que em breve receberia uma reforma. Como havia visitado a casa antes, ele já havia planejado tudo com ajuda de seus melhores amigos, usando um software de criação de plantas residenciais em 2D e 3D, Ji-hoon deixou sua imaginação fluir enquanto seu amigo colocava o seu conhecimento básico no software em ação. As mesas redondas ficariam no centro, formando uma fila, com cadeiras de ferro pintadas de branco, mesas compridas para quatro lugares, ficariam perto da janela lateral esquerda, que tinha como vista um jardim estreito, com um muro pintado com uma vista do horizonte ensolarado de Seul. O balcão ficaria mais para dentro, perto de duas mesas maiores e redondas que teriam oito lugares, destinadas a grupos grandes, haveria uma estante de madeira com livros e revistas, e ao lado um sofá que Ji-hoon havia conseguido por um bom preço na internet e seria entregue no dia seguinte. Haveria quadros belos que sua amiga encomendou e estava no apartamento dela, e seriam entregues pela mesma também no dia seguinte, também teria um tapete e uma caixinha de som, para garantir o som ambiente, Ji-hoon estava programando uma ida a uma das floriculturas em Hongdae mesmo. E claro, não poderia faltar o canto para apresentações musicais. Ji-hoon amava música, tendo ele mesmo se tornado uma figura famosa no meio musical por um tempo, até o grave acidente que sofreu. Ele esfregou a mão esquerda, mais por hábito do que pela dor, as pontas dos dedos ainda sentindo as pequenas cicatrizes na palma.

Ji-hoon deu um largo sorriso, agora que as coisas estavam finalmente acontecendo ele sentia um frio na barriga com a perspectiva de finalmente abrir o seu negócio. Pegou suas malas e saiu pela porta a direita, que levava a um corredor que dava acesso a escada para a casa no segundo andar. Os donos da casa haviam explicado que havia uma porta por fora que dava acesso a casa, mas também havia aquela porta, que serviria como uma espécie de saída de emergência caso a primeira porta estivesse com defeito e enquanto subia a escada com dificuldade, devido o peso das malas, ele pensou que não gostaria nem um pouco de morar na casa embaixo e saber que havia uma porta que dava acesso a outra casa. 

No batente acima ele parou para separar a chave da porta de cima do elo circular do chaveiro em forma de guitarra, então abriu a porta e entrou. A casa de cima, assim que Ji-hoon abriu as cortinas das janelas, era bem iluminada, com a bela vista na frente da rua e na parte detrás descobriu um pequeno quintal, separado da casa ao lado por uma cerca de arbusto que bateria na sua cintura. Ji-hoon não sabia se os mesmos donos daquela casa eram da casa vizinha. 

Ji-hoon passou o restante do dia organizando a sua casa nova, o caminhão de mudança havia chegado algumas horas após a sua entrada na casa, então ele já estava preparado para receber as caixas, eles as abriu, retirou tudo de dentro e começou a arrumação; primeiro ele montou os móveis novos, o que não achava complicado, pois fazia isso desde que tinha 10 anos, sendo ensinado pelo seu pai que era carpinteiro, após isso iniciou a decoração e quando a noite caiu ele estava arrumando os conteúdos de cozinha nos armários.

Era quase oito da noite quando Ji-hoon, sentado no chão da sala, montando a mesinha de centro, teve um susto com um barulho repentino. Primeiro ele achou que poderia ter sido alguma das estantes que haviam desmontado, será que ele havia deixado algum parafuso frouxo? Mas então, após os segundos de susto, ele percebeu que o barulho era música, algum rock pesado que vinha da casa ao lado, o som abafado pela parede ainda assim era alto. Ji-hoon ficou chocado. A lei dizia que sons altos eram permitidos até às 22h, principalmente em Hongdae, que tinha uma vida tão agitada. Ji-hoon levantou-se e foi até a janela da frente e olhou para fora, ele viu o mar de telhados e linhas douradas formando as ruas, ao longe tudo parecia estrelas na noite, a rua Eoulmadang-ro estava ficando cada vez mais movimentada, graças aos bares e restaurantes da região, e ninguém parecia se importar com aquele barulho. 

Ji-hoon fechou a janela, talvez isso pudesse abafar o som, pensou, mas não adiantava muita coisa. Ele estalou a língua em sinal de desaprovação e foi até o quarto pegar seus fones bluetooth, os conectou ao celular e então colocou uma música de sua playlist favorita. Enquanto arrumava a mesa de centro, Ji-hoon decidiu que no dia seguinte, caso a música alta voltasse, ele iria conversar com o vizinho.