Capítulo 1
Kim Ji-hoon olhou para a fachada da casa de pedras quadradas pintadas de branco. A casa possuía dois andares, mas os donos, após a morte dos pais, que eram os antigos proprietários, decidiram dividir a casa em duas, assim poderiam ganhar com dois aluguéis. Ji-hoon ainda não sabia se o que estava fazendo era uma boa ideia, afinal de contas o aluguel de duas casas em Hongdae custava em torno de 700.000 a 2.500.000 won. Mas Ji-hoon não iria morar nas duas casas, ele pretendia estabelecer residência na casa de cima e montar o café Harmonia embaixo. Ele acreditava que os clientes seriam atraídos pelo clima acolhedor que ele planejava construir.
Ji-hoon ouviu uma batida de janela e olhou para o lado, para a casa geminada com a sua, que tinha uma fachada lisa e cinza, com janelas de molduras pretas, aparentemente uma delas havia sido fechada naquele momento. Os donos haviam garantido que a vizinhança era constituída por pessoas de bom caráter, mesmo que eles não morassem na casa, a visitava toda semana. Talvez a pessoa que morasse naquela casa estivesse se perguntando o que um rapaz estava fazendo parado no meio da rua, com malas aos seus pés. Ji-hoon pegou as malas e entrou na sua casa.
A casa debaixo era ampla, com paredes brancas e piso de madeira de faia, Ji-hoon ficou alguns minutos admirando o local que em breve receberia uma reforma. Como havia visitado a casa antes, ele já havia planejado tudo com ajuda de seus melhores amigos, usando um software de criação de plantas residenciais em 2D e 3D, Ji-hoon deixou sua imaginação fluir enquanto seu amigo colocava o seu conhecimento básico no software em ação. As mesas redondas ficariam no centro, formando uma fila, com cadeiras de ferro pintadas de branco, mesas compridas para quatro lugares, ficariam perto da janela lateral esquerda, que tinha como vista um jardim estreito, com um muro pintado com uma vista do horizonte ensolarado de Seul. O balcão ficaria mais para dentro, perto de duas mesas maiores e redondas que teriam oito lugares, destinadas a grupos grandes, haveria uma estante de madeira com livros e revistas, e ao lado um sofá que Ji-hoon havia conseguido por um bom preço na internet e seria entregue no dia seguinte. Haveria quadros belos que sua amiga encomendou e estava no apartamento dela, e seriam entregues pela mesma também no dia seguinte, também teria um tapete e uma caixinha de som, para garantir o som ambiente, Ji-hoon estava programando uma ida a uma das floriculturas em Hongdae mesmo. E claro, não poderia faltar o canto para apresentações musicais. Ji-hoon amava música, tendo ele mesmo se tornado uma figura famosa no meio musical por um tempo, até o grave acidente que sofreu. Ele esfregou a mão esquerda, mais por hábito do que pela dor, as pontas dos dedos ainda sentindo as pequenas cicatrizes na palma.
Ji-hoon deu um largo sorriso, agora que as coisas estavam finalmente acontecendo ele sentia um frio na barriga com a perspectiva de finalmente abrir o seu negócio. Pegou suas malas e saiu pela porta a direita, que levava a um corredor que dava acesso a escada para a casa no segundo andar. Os donos da casa haviam explicado que havia uma porta por fora que dava acesso a casa, mas também havia aquela porta, que serviria como uma espécie de saída de emergência caso a primeira porta estivesse com defeito e enquanto subia a escada com dificuldade, devido o peso das malas, ele pensou que não gostaria nem um pouco de morar na casa embaixo e saber que havia uma porta que dava acesso a outra casa.
No batente acima ele parou para separar a chave da porta de cima do elo circular do chaveiro em forma de guitarra, então abriu a porta e entrou. A casa de cima, assim que Ji-hoon abriu as cortinas das janelas, era bem iluminada, com a bela vista na frente da rua e na parte detrás descobriu um pequeno quintal, separado da casa ao lado por uma cerca de arbusto que bateria na sua cintura. Ji-hoon não sabia se os mesmos donos daquela casa eram da casa vizinha.
Ji-hoon passou o restante do dia organizando a sua casa nova, o caminhão de mudança havia chegado algumas horas após a sua entrada na casa, então ele já estava preparado para receber as caixas, eles as abriu, retirou tudo de dentro e começou a arrumação; primeiro ele montou os móveis novos, o que não achava complicado, pois fazia isso desde que tinha 10 anos, sendo ensinado pelo seu pai que era carpinteiro, após isso iniciou a decoração e quando a noite caiu ele estava arrumando os conteúdos de cozinha nos armários.
Era quase oito da noite quando Ji-hoon, sentado no chão da sala, montando a mesinha de centro, teve um susto com um barulho repentino. Primeiro ele achou que poderia ter sido alguma das estantes que haviam desmontado, será que ele havia deixado algum parafuso frouxo? Mas então, após os segundos de susto, ele percebeu que o barulho era música, algum rock pesado que vinha da casa ao lado, o som abafado pela parede ainda assim era alto. Ji-hoon ficou chocado. A lei dizia que sons altos eram permitidos até às 22h, principalmente em Hongdae, que tinha uma vida tão agitada. Ji-hoon levantou-se e foi até a janela da frente e olhou para fora, ele viu o mar de telhados e linhas douradas formando as ruas, ao longe tudo parecia estrelas na noite, a rua Eoulmadang-ro estava ficando cada vez mais movimentada, graças aos bares e restaurantes da região, e ninguém parecia se importar com aquele barulho.
Ji-hoon fechou a janela, talvez isso pudesse abafar o som, pensou, mas não adiantava muita coisa. Ele estalou a língua em sinal de desaprovação e foi até o quarto pegar seus fones bluetooth, os conectou ao celular e então colocou uma música de sua playlist favorita. Enquanto arrumava a mesa de centro, Ji-hoon decidiu que no dia seguinte, caso a música alta voltasse, ele iria conversar com o vizinho.
…
Ji-hoon acordou no dia seguinte com uma forte dor de cabeça, pois havia dormido com os fones de ouvido. Ele os tirou e olhou à sua volta, uma luz pálida se infiltrava pelas cortinas brancas e finas. Pelo menos não havia mais barulho, pensou enquanto seguia até o banheiro para sua rotina matinal.
Ji-hoon preparou um rápido café da manhã, pois queria iniciar logo o seu dia produtivo, e depois tomou um remédio para dor de cabeça que encontrou no seu quite de primeiros socorros, apanhou a bolsa de couro estilo carteiro e saiu de casa tão rápido que, qualquer um que o visse de fora acharia que a residência estava em chamas, e naquele caso, realmente havia alguém lhe observando da janela na casa ao lado, mas Ji-hoon estava apressado demais para perceber.
…
Era final de Junho, o clima estava quente e o céu, mesmo tendo uma cor azul-pálido, mostrava nuvens de chuva no horizonte.
Ji-hoon havia decidido iniciar o dia de compras pelas coisas menores, como talheres e itens decorativos pequenos, finalizando com coisas maiores e pesadas, como vasos de flores, pratos e um tapete. Quando voltou para casa, cinco horas depois, ele encontrou o caminhão da empresa onde comprou as mesas e o balcão o esperando, ele se desculpou e abriu a porta para que os dois homens de macacão azul pudessem descarregar as caixas.
Ji-hoon aproveitou esse tempo para limpar a cozinha. Era uma cozinha residencial, mas em breve se tornaria uma profissional. Ele subiu e pegou sua caixinha de som portátil e a ligou em um volume médio para não incomodar os homens que agora montavam o balcão de atendimento.
Quando Ji-hoon finalmente ficou sozinho ele aumentou um pouco mais o volume da música, mas não demais para não incomodar os vizinhos. E de repente estava limpando e cantando e vez ou outra ele parava o que estava fazendo e dedilhava em um piano invisível.
A música era energia que fazia o seu corpo funcionar, lhe dava forças e coragem. Mas de repente ele levou outro susto, pois o rock havia voltado. Ji-hoon sentiu-se indignado, pois ele estava ouvindo a sua música em um volume razoável, mas a casa ao lado não parecia ter nenhuma consideração com seus vizinhos.
Ji-hoon largou a vassoura dez minutos depois para ir até o vizinho quando o som parou, o rapaz ouviu a porta da casa ao lado fechando, ele correu até a janela, mas só conseguiu ver as costas largas de um homem, usando uma camiseta preta, jeans escuros e botas, ele carregava uma mochila nas costas e um capacete na mão. O seu vizinho barulhento atravessou a rua, pegou algo no bolso da calça, que Ji-hoon achava ser uma chave, pois dali ouviu o som de algo destrancando e o portão da casa em frente foi aberto, o vizinho subiu em uma moto preta e colocou o capacete, ligou a moto e saiu da garagem, voltou para trancar o portão e partiu na moto rua acima.
— Ji-hoon!
Ji-hoon olhou para a direita de onde seu nome havia sido chamado e viu Park Soo-ji vindo em sua direção. Soo-ji era a melhor amiga de Ji-hoon desde a universidade, ambos criando fortes laços, só que Soo-ji tinha sua paixão pelas artes e foi estudar isso na universidade, Ji-hoon permaneceu no estudo da música, ainda assim eles eram inseparáveis.
Soo-ji estava escorada em seu carro vermelho, que Ji-hoon não havia percebido a princípio por estar focado no vizinho problemático. O rapaz foi até ela, e assim que chegou perto, Soo-ji abriu o porta malas, revelando os quadros que estava previsto ela trazer.
— Esqueceu que eu viria hoje?
— Claro que não, apenas estava focado em um assunto. Tudo bem com você?
— Eu é quem deveria perguntar isso, minha vida é a mesma, mas você está passando por grandes mudanças. — Ela apontou para a casa recém alugada pelo melhor amigo. — Então, como você está?
Ji-hoon queria dizer que apesar do incômodo vizinho barulhento, tudo estava indo bem, mas não queria parecer um reclamão.
— Tudo vai muito bem, como planejado. Vamos entrar.
Ji-hoon se curvou para o porta-malas e pegou os quadros, alguns eram pesados, então Soo-ji cuidou dos menores enquanto fechava o porta malas e veio atrás dele.
— A fachada é nova e bonita, acredito que vá atrair mais clientes. Inclusive, já estou falando do seu café para todos os meus colegas e artistas que veem a minha galeria.
Soo-ji era a dona de uma galeria de arte. Ela não tinha tanto dinheiro assim, mas por sorte ou destino ela encontrou um anúncio sobre um velho prédio que não estava conseguindo ser vendido porque um assassinato havia acontecido ali. Soo-ji não se preocupava com fantasmas ou monstros, ela só queria abrir uma galeria, então usou o dinheiro que tinha, e o que seu pai enviou para completar, e comprou o prédio de dois andares. Ela demorou alguns meses para conseguir finalizar a reforma que era feita por ela mesma e alguns amigos. Na época Soo-ji havia fechado contrato com um artista plástico jovem que estava fazendo fama com vídeos na internet sobre suas obras, isso foi o bastante para a inauguração da galeria ser um espetáculo e outros clientes virem atrás de Soo-ji.
— Ainda faltam algumas coisas, mas acredito que a inauguração será em poucos dias. — Ji-hoon explicou enquanto apoiava os quadros na parede da sala.
— E como é a vizinhança? — Soo-ji andava pelo espaço olhando para cada canto, conferindo as mesas, as cadeiras e até o balcão de atendimento.
Ji-hoon pensou no barulho de ontem e hoje e suspirou. Ele realmente não queria resolver esse tipo de problema, mas se o seu vizinho continuasse com essas ações rudes ele teria de intervir.
— É predominantemente comercial, mas existem casas como essa ou apartamentos em cima de lojas, então quando a noite chega a rua fica bem movimentada. E como vai a exposição da artista mascarada? Já viu o rosto dela?
Soo-ji havia fechado contrato com uma pintora que não mostrava o rosto, ela tinha o costume de usar uma máscara de porcelana branca quando estava em público, havia milhares de teorias na internet sobre ela, alguns diziam que ela era deformada após algum acidente, outro diziam que ela era uma figura política e havia aqueles conspiradores que afirmavam que ela sequer era humana, por isso não mostrava o rosto. Ji-hoon acreditava fielmente que tudo não passava de uma estratégia de marketing.
— Ela está me deixando louca. Ela faz várias exigências para garantir que ninguém veja seu rosto. Sinceramente, ela acha que é uma rainha ou coisa assim.
— Você é profissional, vai saber como sair dessa.
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