Romance
ONTEМ é um romance marcado pelo sal, pela memória e pelo silêncio.
Filha e neta de homens do mar e de mulheres que são a sua sombra, Madalena nasce nas Capelas,
entre o bater das ondas e o vapor da baleação.
Este livro é o retrato íntimo de uma mulher e da sua ilha. Um hino à terra, ao mar e à baleia.
E aos sonhos. Porque os sonhos de Madalena são os sonhos da sua geração.
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Há histórias escritas em texto e reveladas em luz.
As fotografias que prolongam a leitura e dão vida às palavras são da autoria de Jorge Rodrigues.
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Nesta pequena casa de pedra negra à beira-mar, a vida cheira a pobreza, a fome, a salgado, mas também a esperança. Em alguns dias.
O cheiro da gordura a derreter sobe à freguesia e balsama todas as casas: dos ricos e dos pobres. A morte cheira o mesmo a todos. A vida também devia cheirar.
É assim que se vive nas Capelas: com fé. Nos homens e no Altíssimo. E no mar — pois é nele que muitos encontram o seu milagre.
É uma freguesia pitoresca, rodeada de uma exuberante paisagem verde tão típica da ilha, que se estende da serra ao mar, com grandes quintas, antes produtoras de laranja, como a que eles compraram, agora de ananás e vinho de cheiro.
Ainda vão a meio caminho, por entre montes verdes e muros de pedra negra enfeitados com bonitos novelões azuis, e já sentem o cheiro das férias.
Há quem viva do mar, há quem viva da terra, há quem viva dos animais: vacas, porcos, galinhas, coelhos. A força do mar, o vigor da terra e a sensibilidade de um homem que acredita num Deus que não vê.
Um manto de gente espera de pé, entre conversas, que o guião saia da igreja, pela força dos braços do Joãozinho da Serra: rapaz forte, destemido, que este ano vai sair com o guião.
O guião nunca toca o chão. Não pode. Quando passa a porta da igreja, desce, quase, quase roçando o chão, para depois, pelo milagre da força dos braços do Joãozinho ou de uma energia divina, se elevar, como que aos céus. Fica de pé: o guião. E ele, Joãozinho, em pé, com orgulhoso sorriso, torna-se João. É homem feito. O povo aplaude!
Quando se dão conta, já é noite e não jantaram. Ela, conhecida na terra, consegue dois galos de açúcar e um pacote de freiras, que lhes engana o estômago e os deixa felizes.
Esta mergulha. Menos mal — pensam eles. Pior seria se ela batesse no bote e provocasse uma desgraça. Nossa Senhora de Lurdes protege-os.
A baleação é um romance, é uma história de amor. É o mar, é a terra e é a baleia. É o homem. E é o amor à vida. Mas tem cheiro de morte.
A noite começa a cair. A tarde está rosada, como o mar, como o chão. Há sangue em terra e no céu. Tudo à volta tresanda a gordura e a morte. Até os homens: ensebados no corpo e na alma. Cansados.
Chegam ao cimo de um pico de terra lavradia, que vai beber ao mar e se chama de Martim Vaz. Param junto à casa que todos chamam de Casa do Morro e que fica próxima da vigia da baleia: nova vista de o fazer arregalar os olhos.
O camião parte, como todos os anos, de manhã bem cedo, para apanhar a mudança da imagem do Santo: Ecce Homo, uma imagem de Cristo entalhada em madeira, sob a forma de um sacrário, com as suas vestes vermelhas, uma coroa de espinhos e um valioso resplendor. Tem uma expressão serena e marcada pela dor, símbolo de milagres e de proteção, símbolo de sofrimento, mas também de misericórdia e salvação.
O pai tem por hábito pescar mesmo em frente a casa, numa grande rocha negra que se estende sobre o oceano, ao lado do miradouro das Pedras Negras. Como se o rochedo fosse uma extensão do seu pequeno quintal. Do lado esquerdo, vê-se o elefante, como chamam à ponta do morro das Capelas, que parece mesmo um animal de pedra a beber no revolto mar.
Olha o mar com o olhar de quem o conhece como poucos. Quanto mais o pescador conhece o mar, mais humildemente o olha, assumindo a sua pequenez diante dele.
Tiram os sapatos, permitindo que a água fria do mar toque nos seus pés descalços e cansados da caminhada. Sentam-se os dois numa grande rocha, de frente para o imenso mar que banha o Calhau Miúdo. O mar está mexido, bate com força contra as rochas negras e salpica-lhes o rosto. Ele olha para ela de perfil e sente novamente o coração saltar no peito.
O verão está a acabar. Ela sabe que não o verá durante algum tempo.
Ele levanta-se, deixando a mãe e a irmã sentadas na rocha, à beira-mar. Aproxima-se dela com algo na mão.
E agora descem ao porto das Capelas, onde dormem os botes, vazios de ânimo, encostados no cais. Já não se caçam baleias. São meros barquinhos de um presépio em tamanho real, sem baleeiros para os remar.
Negros, negros são estes dias, em que a fome aguça o engenho. Negros como a baleia. Negros para o baleeiro que está sentado no cais. Já não sai o bote. Negros para Madalena, que vê os sonhos, como se fossem gotas de água do seu mar, escorrer pelos intervalos entre os seus dedos.
Sentam-se os dois, a conversar, num dos muitos botes baleeiros que estão esquecidos à beira-mar. O mar está calmo e corre uma leve e agradável brisa.
Veem o mar e as pedras rudes, negras, que o enfeitam.
Está uma noite perfeita: debaixo de mil estrelas, uma lua muito cheia que, refletida no mar, se transforma em duas. Duas luas para dois corpos.
Silêncio e fragilidade. Silêncio e dor. Silêncio e cansaço. Silêncio e vida. Silêncio e morte. Silêncio e perdão.
Silêncio: que se aproxima o fim.
Sobem ao topo do hotel, acima dos seus cinco andares, e sentam-se na berma, de frente para a lagoa das Sete Cidades. Esta, sim, é a verdadeira Vista do Rei. A noite começa a cair, mas ainda há luz suficiente para apreciar aquele quadro da natureza. Pela segunda vez neste dia, a natureza parece abençoar o que existe entre eles.
Gosta de passear pela Ribeira, junto ao rio, com as pedras irregulares sob os seus pés. E as casas, como numa cascata de São João, a decorar o cenário. Sente os cheiros das gentes, do cimbalino e da torrada acabada de fazer.
É tudo novo: os campos verdes, as vacas que pastam livremente, o cantar dorido dos cagarros, o ladrar dos cães. Tudo é realmente impressionante para ele. E Madalena sente-se feliz ao vê-lo explorar um mundo que foi o dela.
A sua costa retalhada, com praias e falésias, muitas delas difíceis de chegar, preservam o ambiente micaelense de tranquilidade e algum isolamento. Mas a ilha expande-se, vai além de si mesma, numa procura ininterrupta de se aproximar do resto do mundo.
Ela carrega sorrisos, abraços e memórias do que nem sequer viveu. Esqueceu toques e momentos menos doces. Apagou soluços. Relembra, de sorriso rasgado, sítios onde não esteve. Sente na pele os toques que ele não lhe deu.
Queria que ela pudesse realizar todos os seus sonhos. Porque os sonhos de Madalena eram os sonhos de uma geração. Porque os sonhos de Madalena eram os sonhos da nossa terra, das nossas gentes.